Cientistas criam híbrido do coronavírus em laboratório nos EUA e caso provoca polêmica; entenda

Há menos de uma semana, pesquisadores da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, publicaram de forma preliminar seu mais recente estudo sobre o coronavírus, e os resultados já despertam uma polêmica que divide especialistas por todo o mundo. O trabalho combinou geneticamente a variante Ômicron do vírus causador da Covid-19 com a versão original do Sars-CoV-2, criando um híbrido. De um lado, houve uma reação ao experimento com críticas e receios em relação aos riscos envolvidos no desenvolvimento de um novo patógeno. Do outro, cientistas reforçaram o objetivo da pesquisa em desvendar o funcionamento do vírus, e ressaltaram a segurança da iniciativa.

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A discussão em relação ao estudo, publicado em formato preprint (ainda não revisado por pares) no último dia 14, veio especialmente depois que os resultados indicaram que o híbrido, também chamado de vírus quimérico, apresentou uma taxa de letalidade de 80% em testes com camundongos – enquanto não houve óbitos entre aqueles infectados com a variante Ômicron. Ainda assim, os cientistas ressaltam que a mortalidade foi menor que aquela observada pela cepa ancestral do vírus, descoberta ainda em 2019, que levou 100% dos animais ao óbito.

Segundo os pesquisadores da universidade, o estudo foi conduzido para entender o que leva a Ômicron a ser menos patogênica, ou seja, provocar quadros da doença menos graves que as variantes que a antecederam. Para isso, eles incluíram a proteína S da Ômicron, parte que o vírus utiliza para infectar a célula humana, na cepa ancestral do microrganismo. Eles compararam então o comportamento do híbrido em animais com a versão que circula no mundo atualmente.

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Com os camundongos, os pesquisadores observaram que não era a proteína S que tornava a Ômicron menos grave. Isso porque a mutação de fato levou o vírus quimérico a conseguir infectar mais facilmente as células humanas – motivo pelo qual consegue escapar com mais facilidade dos anticorpos das vacinas –, mas manteve o potencial da cepa ancestral em causar doenças graves. Em resumo, “isso indica que, embora o escape vacinal da Ômicron seja definido por mutações na S, os principais determinantes da patogenicidade viral residem fora da S”, escreveram os responsáveis pelo estudo.

A pesquisa não é a primeira que envolveu manipulação genética de um vírus em laboratório. Existe, inclusive, um tipo de estudo controverso no meio científico chamado de “ganho de função”, que amplifica a transmissibilidade e a virulência de vírus existentes para que os cientistas consigam compreender melhor o patógeno e desenvolver terapias contra ele, como vacinas. Porém, a divulgação do experimento despertou críticas de pessoas que temem a possibilidade de o novo microrganismo escapar e se disseminar na população, agravando o cenário da pandemia.

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Em resposta, os responsáveis pelo estudo emitiram uma nota em que negaram até mesmo que houvesse o “ganho de função” no experimento e reforçaram a segurança da pesquisa, realizada em laboratórios de biossegurança de nível 3. Eles destacaram a importância dos testes para a saúde pública e negaram a possibilidade de que o híbrido escape da universidade.

“Levamos a sério nossa segurança de como lidamos com patógenos, e o vírus não sai do laboratório em que está sendo estudado. O nosso objetivo é a saúde da população. E este estudo foi parte disso, descobrindo qual parte do vírus é responsável por causar doenças graves. Se pudermos entender isso, poderemos desenvolver as ferramentas de que precisamos para desenvolver melhores terapêuticas”, disse o diretor dos Laboratórios Nacionais de Doenças Infecciosas Emergentes (NEIDL) da universidade, e professor de microbiologia, Ronald Corley, em comunicado.

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Especialistas se manifestaram concordando com Corley, e defendendo a condução de experimentos do tipo, que também ocorrem em outras instituições de pesquisa. Porém, alguns avaliam que o estudo, embora de fato não demonstre o risco alarmante que pode dar a entender, é um exemplo de pesquisas que merecem um debate mais profundo pela comunidade científica.

“Não estou sugerindo que estudos como este, usando vírus quiméricos 'vivos' deva ser realizado, pois o equilíbrio risco / benefício geralmente não parece muito convincente para mim. Dito isto, este estudo específico não é tão preocupante quanto pode parecer à primeira vista”, opinou o virologista e diretor do Instituto de Genética da University College de Londres, no Reino Unido, Francois Balloux, em sua conta no Twitter.

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Aprovação de autoridade dos EUA é alvo de divergências

Outro ponto que aumentou a polêmica sobre o caso da Universidade de Boston foi o aval do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAD). Isso porque, embora o projeto tenha sido aprovado pelo comitê de saúde pública de Boston e pela análise interna da instituição, os pesquisadores do NEIDL recebem financiamento do NIAD e, por isso, precisariam ter esclarecido os detalhes do estudo com o órgão antes de conduzi-lo.

Em entrevista ao jornal americano especializado em ciência e saúde STAT News, a diretora da divisão de microbiologia e doenças infecciosas do NIAID, Emily Erbelding, disse que os relatórios enviados com os pedidos de subsídios originais da equipe de Boston não especificava a criação de um aprimoramento do coronavírus. Emily indicou que a agência buscaria respostas com a universidade, uma vez que tomou conhecimento sobre os detalhes do estudo por meio de reportagens recentes.

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No entanto, após a declaração, os cientistas do NEIDL emitiram outro comunicado, em que afirmaram terem seguido todas as diretrizes do NIAD e explicaram que aquela pesquisa específica não utilizou verba do instituto, tendo sido financiada exclusivamente pela universidade.

“Cumprimos todas as obrigações e protocolos regulatórios exigidos. Seguindo as diretrizes e protocolos do NIAID, não tínhamos obrigação de divulgar esta pesquisa por dois motivos. Os experimentos relatados neste manuscrito foram realizados com fundos da Universidade de Boston. O financiamento do NIAID foi reconhecido porque foi usado para ajudar a desenvolver as ferramentas e plataformas que foram usadas nesta pesquisa; (mas) eles não financiaram esta pesquisa diretamente”, escreveram os responsáveis.

Eles destacam ainda que um motivo que poderia levar à necessidade de detalhamento prévio com o NIAD seria um “ganho de função” no experimento, porém isso não teria acontecido no estudo. “Se em algum momento houvesse evidência de que a pesquisa estava ganhando função, tanto sob o NIAID quanto com nossos próprios protocolos, pararíamos imediatamente (a pesquisa) e relataríamos (ao NIAD)”.