Cientistas criticam Boris Johnson por estratégia contra coronavírus que evita quarentena e não restringe aglomerações

Vivian Oswald, especial para O Globo

LONDRES - Na contramão dos outros governos pelo mundo, o do Reino Unido implementa uma estratégia considerada controversa e arriscada para conter a inevitável transmissão da Covid-19. Apoiado por Chris Witty, principal assessor do governo britânico para assuntos médicos, e Patrick Vallance, assessor para assuntos científicos, o primeiro-ministro Boris Johnson defende o que está se chamando de "imunização de rebanho”. Como a contaminação, e consequente sobrecarga do sistema de saúde vai acontecer de qualquer maneira, o que se espera é que cerca de 60% da população tenham contato com o coronavírus para que ganhem resistência.

A iniciativa está sendo abertamente contestada por acadêmicos e especialistas. Neste sábado, uma carta aberta assinada por 229 cientistas foi encaminhada a Downing Street, o endereço do premier, pedindo que o governo tome medidas mais drásticas. Eles defendem que, quanto mais depressa se limitar o contato entre as pessoas, menor a velocidade da contaminação. A “imunidade do rebanho”, ao contrário, prevê que 36 milhões de pessoas precisem ser infectadas e se recuperar da doença.

A imprevisibilidade da pandemia, que mantém em quarentena total ou parcial a população de vários países, incluindo Itália e Espanha, e a singularidade da estratégia britânica, causa desconforto e desconfiança entre especialistas, a classe política e a própria população britânica. Em editorial, o "Finantial Times" classificou-a de "uma aposta" com as vidas de milhares de cidadãos.

— É quase impossível prever o que isso significa em termos de custos humanos, mas estaríamos contando, no mínimo, com dezenas de milhares de mortes, possivelmente centenas de milhares — disse o professor Willem van Schaik, da Universidade de Birmingham à rede BBC.

Oinfectologista salienta ainda que o Reino Unido é o único país europeu a adotar o que chamou de abordagem “laissez-faire”com o vírus. E acrescenta que a única maneira de a estratégia funcionar é permitir que a transmissão desses milhões de casos aconteça durante um período relativamente longo de tempo. Só assim o sistema de saúde britânico, que já trabalha sob pressão há anos, sobretudo durante o inverno, conseguiria dar conta do recado.

Já são 35 mortes no Reino Unido

O número de mortes no Reino Unido aumentou no fim de semana de 21 para 35. Até a manhã de domingo jea eram 1.372 casos confirmados, um aumento de 17% em realação ao dia anterior. Na última quinta-feira o primeiro-ministro anunciou que "devemos nos preparar para perder entes queridos antes do tempo”.

Mas muitas empresas já anunciaram medidas importantes para evitar a contaminação dos funcionários. Grande parte dos funcionários já trabalha à distância. Em nota aos clientes, a Hackett, grife masculina de Londres, afirma que "seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de governos" (sem mencionar o do Reino Unido), resolveu fechar algumas lojas. "Algumas de nossas equipes estão trabalhando de casa e adotamos todos os protocolos exigidos para que nossos associados que mantêm as operações possam trabalhar".

Enquanto Itália e Espanha mantêm suas populações em quarentena total, a França fecha todo e qualquer comércio que não seja indispensável e a Alemanha fechou suas fronteiras, o Reino Unido reluta em suspender as aulas ou recomendar o teletrabalho. Em um momento em que supermercados já não têm papel higiênico, álcool gel, sabonete líquido, massas e alguns enlatados para vender, o governo insiste em seguir com a vida normal.

Diante da crescente insatisfação, as autoridades se vêem sob pressão. Analistas acreditam que, diante da perda de apoio do público e dos constantes questionamentos, o governo será obrigado a rever a estratégia. No fim semana, o secretário de Saúde, Matt Hancock, antecipou que, em breve, será pedido que que idosos com mais de 70 anos fiquem em casa por cerca de quatro meses, e evitem contatos com quaisquer pessoas. Mas esta e outras medidas mais rígidas ainda não foram oficialmente anunciadas. Ao ser questionado pela mídia local se a iniciativa significava uma volta atrás em relação à estratégia original, o governo negou. E afirmou que seguia adotando suas ações de maneira paulatina, de acordo com a necessidade do momento seguindo parâmetros científicos.

Inevitabilidade e psicologia comportamental

Após as críticas e a desconfiança da opinião pública, o porta-voz do chefe do Departamento de Saúde Patrick Vallance disse que o governo foi mal interpretado e que “a imunidade de rebanho não faz parte da nossas ações, mas é um efeito colateral de uma epidemia”. Segundo ele, o objetivo do governo é salvar vidas, proteger os mais vulneráveis e diminuir a pressão sobre o NHS, a sigla do sistema de saúde nacional gratuito britânico, uma das principais inspiracões para o SUS no Brasil.

Mas o governo anunciou também que já não testará todos os cidadãos que apresentarem sintomas da doença, somente quem estiver hospitalizado. A determinação mais recente para quem tiver tosses novas e recorrentes, ou febre acima de 37.8 graus, é a de permanecer em quarentena forçada em casa por sete dias. A ordem é só usar as linhas telefônicas de emergência ou se apresentar nos hospitais em caso de agravamento dos sintomas.

O governo britânico está pedindo ainda que as linhas de produção sejam adaptadas de forma a permitir a fabricação de mais ventiladores para UTI, e depois de já ter anunciado que poderá usar leitos em hospitais privados, pode até solicitar a transformação de alguns hotéis em estruturas hospitalares para receber pacientes contados por coronavírus.

Uma das alegações da equipe de Johnson é que as medidas mais duras serão inevitáveis. Mas há que se esperar o momento correto para adotá-las para não "cansar" a população antes da hora. Johnson afirma que especialistas em psicologia comportamental também têm sido consultados nestas últimas semanas.

O isolamento tem sido o caminho adotado por outros países europeus, e pela própria China, a nação de onde partiu o vírus. Pro cotna de suas características, obrigar as pessoas a fazerem quarentena em casa na China é mais fácil do que em democracias onde a autoridades governamentals tendem a ser contestadas.