Cientistas criticam cortes na ciência em SP e pedem veto a Doria

Suzana Correa
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Pesquisadores e cientistas criticaram nesta sexta-feira a redução de R$454 milhões dos recursos estaduais destinados à Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), maior agência estadual de pesquisa científica do país. A medida consta do texto final do orçamento paulista de 2021 encaminhado pelo governador João Doria (PSDB) em setembro e aprovado pela Assembleia Legislativa do estado na noite desta quinta-feira, 17.

A comunidade científica agora pressiona para que Doria vete a medida antes da sanção do texto aprovado. Os pesquisadores alegam que o corte prejudica o planejamento e a produção de pesquisas científicas no estado, no contexto já árduo da pandemia do coronavírus.

— O prejuízo é gigantesco. As pesquisas apoiadas pela Fapesp são projetos de quatro anos. Como planejar quando não se sabe se terá recurso? — critica Mayana Zatz, diretora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e professora de biologia da USP. — Desrespeitar o que está na Constituição estadual e é feito há 30 anos gera enorme insegurança e, para nós, é incompreensível, dado o discurso de valorização da ciência do governo estadual.

Paulo Nussenzveig, pesquisador e professor titular do Instituto de Física da USP, afirma que o fomento à ciência no estado sofre duplo prejuízo neste ano: com a redução da arrecadação de receitas, que diminui o repasse à Fapesp e às universidades estaduais, e com os projetos de lei do executivo, que tem proposto cortes no orçamento da instituições.

Ainda em 2020, o governo Doria encaminhou ao Executivo o PL 529, que visava proibir a Fapesp de acumular verbas de um ano para outro e impossibilitaria o planejamento de longo prazo de pesquisas da instituição.

— Quando perceberam que a sociedade não aceitaria este tipo de corte, desistiram, mas imediatamente propuseram o corte atual. Há uma corrente no governo cega para a importância da produção de conhecimento — afirma Nussenzveig.

Em 2019, a Fapesp investiu cerca de R$1,2 bilhão em 24.800 mil projetos de pesquisa científica, quase metade deles em área relacionados ao estudo de organismos vivos, como epidemiologia e virologia.

Durante a pandemia, a fundação redirecionou 150 grupos de pesquisa que atuavam em temas como zika e dengue para o estudo do novo coronavírus. De um destes, saiu o sequenciamento completo do genoma viral do SARS-CoV-2, cerca de 48 horas após o primeiro caso detectado na América Latina. A instituição também financiou parte do ensaio clínico da fase 3 da CoronaVac, com entidades parceiras.