Cientistas encontram mais de 92 ninhadas de dinossauros gigantes na Índia

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 23.01.2006 - Réplica de esqueleto de dinossauros da mostra
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 23.01.2006 - Réplica de esqueleto de dinossauros da mostra

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cientistas identificaram pelo menos 92 ninhos contendo ovos de dinossauros em um sítio paleontológico próximo ao distrito de Dhar, no estado de Madhya Pradesh, na Índia.

Entre fragmentos e ovos preservados inteiros, as ninhadas continham 256 ovos, representando assim uma das maiores áreas de "berçário" de dinossauros no mundo.

A idade das rochas onde foram encontrados os ovos fósseis é do final do Cretáceo, entre 72 e 66 milhões de anos, e estavam cobertos por sedimentos calcários.

Os ovos são possivelmente de titanossauros, grupo de dinossauros pescoçudos que viveram entre 145 e 66 milhões de anos e podiam atingir 40 metros de comprimento.

É provável que pelo menos seis espécies diferentes de dinossauros usavam o local para nidificação.

Os achados foram publicados na edição desta quarta (18) da revista especializada PLoS One. O estudo fez parte da pesquisa de doutorado de Harsha Dhiman desenvolvida no departamento de Geologia da Universidade de Nova Déli e coordenada pelo pesquisador Guntupalli Prasad.

Até o momento, os paleontólogos não encontraram restos ósseos dos animais, incluindo embriões fossilizados, que pudessem ajudar a identificar as espécies de dinossauros que faziam os seus ninhos na região.

O trabalho de campo na região começou há muitos anos, quando um paleontólogo amador encontrou os primeiros ovos de dinossauros da formação Lameta, onde fica o sítio fossilífero. A pesquisa de Dhiman na região, que teve início em 2017, encontrou a abundância de novos materiais.

"Já tínhamos conhecimento de algumas ninhadas, mas havia duas cidades que não tinham sido exploradas ainda, e aí resolvemos passar por elas em dezembro de 2017, onde fizemos o trabalho de campo por um mês. Em três idas consecutivas ao local de coleta, encontramos dezenas de novos ninhos com ovos preservados", conta a paleontóloga.

O trabalho de retirada dos ovos levou três anos até ser completado. No laboratório, análises microscópicas da estrutura que formava as cascas dos ovos e até mesmo do sedimento encontrado no interior permitiram algumas descobertas interessantes.

Por exemplo, os pesquisadores registraram ovos com múltiplas cascas, o que é caracterizado por um mesmo ovo receber mais de uma vez, no sistema reprodutivo, a camada externa que compõe a casca, tornando o ovo inviável. O fenômeno é conhecido como "ovo em ovo" (ovum-in-ovo), quando, antes de ser depositado no solo, o ovo volta para o estágio anterior e é embutido em outro ovo ainda em formação.

Tais patologias são comuns em aves, indicando possivelmente semelhanças do sistema reprodutivo de titanossauros com esses animais antes desconhecidos. "Os dinossauros terópodes e as aves, que possuem uma origem comum, possivelmente teriam esse mesmo tipo de condição acontecendo na hora de formação do ovo, mas é raro encontrar em titanossauros, grupo distante das aves", explica a pesquisadora.

Como esses processos inviabilizam o embrião, muitas das ninhadas foram encontradas com os ovos sem eclodir. Além destas, outros ovos colocados junto a áreas sujeitas a alagamentos e expostas por intempéries também não eclodiram, indicando possivelmente que os titanossauros enterravam os ovos, como fazem os crocodilos atuais.

Não foram encontrados indivíduos adultos associados aos ovos. "Se os animais estivessem lá é provável que sua preservação também ocorresse, sugerindo que os titanossauros usavam aquele local como berçário, mas iam em busca de alimento em outra região, como fazem os crocodilos", afirma.

Os pesquisadores identificaram pelo menos três tipos de disposição dos ovos que ajudam a elucidar a biologia dos animais. "Sabemos que esse tipo de disposição indica uma forma sequencial de botar os ovos e é semelhante ao que vemos em aves, em que se formam colônias para botar os ovos em um mesmo local", explica Prasad.

"Retiramos alguns ovos para fazer análises mais profundas, incluindo tomografia computadorizada em busca de elementos ósseos que indicassem a quais animais pertenciam, mas, como eles possuem uma densidade muito alta, os aparelhos de raio-X que temos na universidade não conseguiram fazer a radiografia", lamenta.

As semelhanças do sítio na Índia com outros locais já conhecidos com ovos de dinossauros, como na Argentina e na Espanha, contudo, permitem comparar a estrutura dos fósseis com outras e assim conhecer um pouco mais sobre a singularidade deste achado.

"Somado aos dois outros locais na Índia que já haviam sido explorados, temos uma extensão de mais de 900 quilômetros de leste a oeste de um berçário de dinos do final do Cretáceo, tornando o sítio da formação Lameta um dos maiores e mais importantes do mundo", completa, dizendo que aguarda colaborações e novos recursos para pesquisa que possam permitir estudos futuros para investigar os animais que ali viviam.