Cientistas explicam como os brasileiros devem lidar com o avanço da Covid-19

Ana Lucia Azevedo
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Epicentro da pandemia, o Brasil vê o número de casos e mortes aumentar a cada dia em descompasso com a vacinação, que teve a previsão de doses para março reduzida. Mantido o atual ritmo, o Brasil pode chegar a 15 milhões de infectados e a 100 mil casos por dia, na média móvel, antes do fim de março, segundo projeções do cientista da USP de Ribeirão Preto Domingos Alves, do portal Covid-19 Brasil. Usando um modelo conservador, ele projeta que o país chegará a 70 mil casos diários na média móvel na semana que vem.

A devastação da Covid-19 não cessa e Alves estima que o país chegará a 300 mil mortos entre 25 e 27 de março, talvez antes. A previsão se baseia em uma taxa de 1.500 mortes por dia. Porém, Alves também avalia que devemos alcançar a marca de 2.000 mortes diárias, na média móvel, até o fim da semana que vem. E até o dia 26 , calcula, poderemos ter 3.000 óbitos por dia.

O país vacinou, até a noite de sexta-feira, apenas 4,50% de sua população, e somente 1,64 % tomaram as duas doses. Mas, na quarta, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, reduziu de 30 milhões para de “de 22 a 25 milhões” as doses que devem chegar até o fim do mês. Foi a quinta diminuição no cronograma de vacinação do governo. A cobertura vacinal de 70% da população, considerada a mínima necessária para uma imunidade coletiva, não será alcançada antes do fim do ano, afirmam especialistas.

Para a volta à normalidade, três variáveis devem ser consideradas, afirma o vacinologista Herbert Guedes, professor do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes/UFRJ. São elas os números de vacinados, de casos graves de Covid-19 e de novos casos. Somente quando o de vacinados aumenta ao passo que os demais diminuem, será possível pensar em flexibilização de medidas coletivas e pessoais.

— O atual cenário é o de esgotamento do sistema de saúde e de total descontrole do coronavírus devido à falta de uma política pública nacional contra a pandemia. Nunca fizemos distanciamento corretamente e tampouco agora temos vacinação em massa, com falta de doses e de logística. É impossível neste momento saber quando a vacinação terá impacto no Brasil — afirma a sanitarista e epidemiologista Carla Domingues, que esteve à frente do Programa Nacional de Imunizações (PNI) por oito anos (2011-2019).

A seguir, especialistas analisam o cenário atual e dizem o que esperar dos próximos meses de pandemia no Brasil.

Que percentual de população vacinada deveremos ter para reduzir as internações e mortes?

É incerto. Mas Domingos Alves diz que é possível ter uma ideia, se forem tomados como referência os dados de Israel, um dos países mais avançados do mundo na vacinação e que observou uma redução de 60% em internações e mortes, quando vacinou 30% da população.

E quando isso deve acontecer no Brasil?

Em cerca de um mês, o país conseguiu vacinar, no máximo, 2,41% da população com a segunda dose. Nesse ritmo, para chegarmos a 30% da população vacinada, levaremos 19 meses, diz Alves. Alguns estados poderiam conseguir em 15 meses, mas mesmo assim, não chegariam a 30% antes de junho de 2022. Alves calcula que para reduzir óbitos e internações com vacinas até dezembro de 2021, teríamos que vacinar por mês 3,1% da população. Isso significa dobrar a taxa atual

Até chegarmos a uma cobertura vacinal mais ampla, o que precisamos fazer?

Especialistas são unânimes em destacar a necessidade de que, após mais de um ano de Covid-19 e de 270 mil mortes, o Brasil finalmente tenha uma política pública contra a pandemia, com medidas mais duras e amplas de distanciamento social. Eles dizem que a falta de política pública contra a pandemia levou o Brasil ao desastre. Carla Domingues diz que até agora só houve lockdowns curtos e localizados após o vírus sair de controle, e não uma estratégia preventiva. Ela destaca ainda a falta de segurança nos transportes públicos, focos importantes de transmissão.

Mesmo com a vacinação em curso será preciso abrir mais leitos e contratar mais profissionais de saúde?

Sim, porque a maior parte da população continuará desprotegida e a pandemia avança sem controle, com a quase totalidade dos centros urbanos à beira do colapso sanitário, dizem os cientistas. Além disso, como a vacinação avança lentamente, as pessoas continuam a adoecer. Jovens e crianças, cujas internações por Covid-19 têm aumentado, não estão entre os grupos vacinados este ano.

E que outras medidas devem ser tomadas?

Carla Domingues diz que é preciso organizar a vacinação e fazer campanhas de distanciamento de social e uso de máscara.

Que dificuldades tem a imunização no Brasil?

Garantir que as pessoas recebem a segunda dose, assegurar que recebem doses do mesmo imunizante e medir a efetividade das vacinas. Segundo Domingues, como o Brasil não fez pré-cadastro dos vacinados, têm ocorrido casos de pessoas que misturam vacinas de municípios diferentes, e o país continua a testar pouquíssimo e, com isso, não sabe a real taxa de positividade.

Que impacto a vacinação de idosos e de grupos com comorbidades poderá ter sobre o sistema de saúde?

Um enorme impacto positivo, com redução significativa de internações e mortes por Covid-19. Em países que já imunizaram significativa parcela da população, os resultados são altamente positivos. Na capital paulista, as mortes de pessoas com mais de 90 anos tiveram uma redução de 70% após a vacinação. Em Pernambuco, o governo do estado diz que diminuíram as internações de idosos acima de 85 anos.

Qual o prazo estimado para o Brasil alcançar imunidade coletiva?

Quando 70% da população estiver vacinada, mas é uma estimativa. Se o governo aplicar todas as vacinas que prevê em 2021 esses 70% serão atingidos, no cenário mais otimista, em 9 meses. Mas o atual ritmo aponta para uma data mais distante.

Por que antes disso não haverá garantia de proteção coletiva?

Porque o vírus continuará a circular, e muitas pessoas ainda poderão adoecer. As vacinas têm evitado a Covid-19 grave e morte. Mas, lembra Domingues, não existe comprovação de que impeçam a infecção assintomática ou leve. Isso significa que vacinados podem, em tese, continuar a transmitir o coronavírus. Ninguém estará liberado este ano, diz ela. Vacinados devem continuar a usar máscara. Não existe ainda certeza de que não possam contrair e transmitir o coronavírus. E só devem visitar pessoas com uso de máscara e distanciamento, caso as demais pessoas não tenham sido imunizadas. Não devem retomar, tampouco, atividades como ir ao cinema, à praia e a espetáculos. Só será possível pensar nisso depois que a chamada margem de uma imunidade coletiva for alcançada. No Brasil, é impossível pensar em flexibilização devido ao descontrole da pandemia.

Como saberemos que as vacinas também estão controlando a transmissão?

Com testagem em massa, diz Guedes. O problema é que o Brasil nunca conseguiu testar sequer o mínimo necessário.

As vacinas são eficientes contra novas variantes do coronavírus?

Sim. Herbert Guedes explica que até agora os resultados alcançados mostram que as variantes não impactaram a efetividade das vacinas.

Existe vacina melhor para determinados grupos?

Não, todas as vacinas disponíveis são eficazes em reduzir o impacto da Covid-19. Deve-se tomar a primeira que estiver disponível, destacam cientistas.

Por quanto tempo dura a imunidade proporcionada pelas vacinas?

Isso ainda não se sabe.

As variantes são as responsáveis pela explosão de casos?

A resposta de especialistas é não. Renato Santana, à frente de estudos com variantes, explica que elas podem contribuir, mas não são as culpadas pelo descontrole da pandemia, resultado da falta de políticas públicas de contenção. As variantes são geradas pelo aumento da transmissão e ajudam a alimentar o ciclo vicioso da pandemia. Elas contribuem, mas não são o principal fator. A falta de distanciamento social e máscara é o principal fator, assegura o virologista da UFRJ Amílcar Tanuri. Ele acrescenta que as variantes do avírus se tornaram uma conveniente desculpa para governantes que não promoveram contenção

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O aumento do número de internações de crianças e jovens é provocado pelas variantes?

Não há qualquer prova de que isso seja verdade, nem sequer existem estudos que sugiram isso. O imunologista e vacinologista da UFRJ Herbert Guedes explica que, com a afrouxamento das medidas de distanciamento, crianças e jovens se expuseram mais e, por isso, um número maior foi infectado e uma parte adoeceu. Desde o fim do ano, o distanciamento social caiu drasticamente. Não é um problema de variantes, é de matemática, mais gente exposta, mais gente doente, inclusive crianças e jovens. O maior número de crianças e jovens com Covid-19 é uma prova contundente da falta de política de distanciamento e do negacionismo de parte da sociedade, frisa Domingues.

O que fazer para proteger crianças e jovens?

Não há previsão de vacinas para crianças e os jovens são serão incluídos no programa de imunização por último. Sendo assim, as medidas de proteção são as conhecidas: uso de máscara e distanciamento social.