Cientistas ganham espaço nas redes sociais com explicações acessíveis sobre Covid-19 e luta contra fake news

Talita Duvanel
·7 minuto de leitura

Numa manhã do fim do mês passado, a neurocientista Mellanie Dutra pedia a seus quase nove mil seguidores no Twitter que dessem boas-vindas a Ruti, vacina espanhola que acabara de receber autorização para iniciar testes internacionais. Em seguida, fez um fio (como se chama uma sequência de posts) com diversos gifs (tinha até do Patolino) explicando detalhes do que se espera da Ruti e como ela será administrada na Argentina, o país escolhido para o teste.

Esse tipo de conteúdo é o que mais aparece na rede da jovem, que, junto a outras pesquisadoras, tem aproveitado as redes sociais (seja o Instagram, o Twitter, o Facebook, o YouTube ou até o TikTok) para dar um gás na divulgação científica. Por lá, elas informam e, principalmente, traduzem dados e análises sobre o novo coronavírus e a pandemia. Como a desinformação é 70% mais veloz do que a informação no mundo virtual (segundo dados do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT), essas mulheres se contorcem entre estudos, postagens e interações com seguidores para diminuir a distância entre a ciência e o público.

Conversamos com quatro dessas profissionais sobre suas áreas de atuação dentro e fora das redes e as estratégias usadas para combater aquela mensagem sem pé nem cabeça encaminhada pelos “tios do Zap”.

Mellanie Dutra, sergipana, doutora em Neurociência pela UFRGS

@mellziland no Twitter e no Instagram

Nascida em Aracaju e vivendo entre Porto Alegre e Canoas (RS) desde muito pequena, Mellanie sempre quis trabalhar em laboratório, mas tinha medo de não conseguir espaço. “No colégio, não tinha muitos exemplos de mulheres na ciência. Ouvíamos sobre a Marie Curie (primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel, o de Física, em 1903, dividido Pierre Curie e Henri Becquerel), mas ficava só nela”, relembra a jovem, de 28 anos.

Incentivada pela mãe, que trabalha como vendedora técnica, entrou para o curso de Biomedicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e teve a grata surpresa de encontrar diversas colegas para orientá-la. Da iniciação num laboratório de neurociência, ainda na graduação, até o pós-doutorado na mesma área, ela construiu “uma visão feminina de ciência”.

Apesar de sua linha de pesquisa ser o desenvolvimento do sistema nervoso em pacientes com autismo, a Covid-19 acabou obrigando-a a mudar a direção do barco logo no início do ano. A pandemia afetou tanto seus experimentos quanto sua estratégia de atuação como divulgadora científica.

Se antes ela gostava de falar sobre neurociência em eventos ao vivo, agora, trabalhando de casa, descobriu a possibilidade (e a necessidade) de ampliar sua voz no maior desafio de saúde pública do século. “Eu já tinha esse desejo de falar sobre ciência em rede social. Então, o quadro atual foi um chamado muito forte. Na Covid-19, é muito importante o engajamento dos pesquisadores contra a desinformação”, diz ela, que também fundou a Rede Análise Covid-19 (@analise_covid19, no Twitter) para coletar e analisar dados divulgados sobre a doença.

Uma das estratégias de maior sucesso entre os seguidores de Mellanie no Twitter é o uso de figurinhas descontraídas para abordar assuntos, digamos, cabeludos. A explicação sobre um fragmento do vírus chamado RBD ganhou, por exemplo, um gif da banda mexicana, sucesso no início dos anos 2000. “Deixar os posts animados quebra a formalidade. A ciência tem que ser mais pessoal, fazer parte da vida de todo mundo”, diz a jovem.

Denise Garrett, mineira, mestre em ciências pela UFMG

@dogarrett no Twitter

Pense numa pessoa com tanta didática que já deu dicas até para Kate Winslet, quando a atriz viveu uma epidemiologista no filme “Contágio” (2011). Com um jeito simples de explicar doenças e processos complexos, essa médica nascida em Ouro Preto e radicada em Washington D.C. trabalhou 23 anos no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, onde Kate foi fazer “estágio”. Nesse tempo, foi à África participar de esforços contra o Ebola, organizou planos de controle da H1N1 na América e divide essa bagagem na internet, participando de lives, “traduzindo” estudos e tabelas e ainda respondendo dúvidas dos seguidores. Isso tudo sem parar o trabalho como vice-presidente de epidemiologia aplicada do Instituto Sabin de Vacina, onde está desde 2015.

“Mesmo com a Covid-19, as minhas obrigações rotineiras continuam. Ser ativa nas mídias sociais, compartilhar informações, estar à disposição, tudo isso é um extra. Mas sinto que é uma obrigação a ser feita”, diz ela, com graduação e mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais.

Denise relembra que, antes da pandemia, raramente acessava o Twitter, na época com 200 seguidores. Quem fazia seus poucos posts era uma assistente. Até que, um dia, resolveu botar a boca no trombone. “Disse que ‘imunidade de rebanho sem vacina é caminho para a morte’. Foi o primeiro tweet que escrevi e viralizou. No outro dia, tinha mil seguidores, e vi que ali era uma oportunidade de disseminar mensagens.” Hoje, são quase 14 mil pessoas acompanhando o que a médica tem a dizer.

No entanto, Denise confessa que a posição virtual alcançada, apesar de recompensadora, é extremamente desgastante. “Procuro sempre fazer postagens baseada em dados, e isso toma muito tempo. É como se estivesse escrevendo uma publicação científica por post. Às vezes, gasto horas, mas não me sinto

na liberdade de parar”, diz ela. “Conheci pessoas maravilhosas nas redes sociais, e isso também é uma coisa muito boa.”

Jaqueline Goes, baiana, doutora em patologia pela UFBA

@drajaquelinegoes no Instagram

Foi a partir da coordenação da biomédica Jaqueline Goes que saiu o sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2, o popular novo coronavírus, apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso no Brasil. E é das brechas da agenda dessa pesquisadora baiana, radicada em São Paulo há pouco mais de um ano por causa do pós-doutorado, que sai um monte de lives sobre a Covid-19.

“As pessoas estão muito ligadas no que é divulgado nas redes sociais, pelo lado bom e pelo ruim. Esse é o momento em que precisamos utilizá-las para mostrar à população como analisamos cientificamente as questões”, diz ela. “As lives acabam criando empatia quando veem minha imagem e ouvem minha voz. Isso ajuda na disseminação da informação.”

Antes de escolher a biomedicina, Jaqueline queria ser médica, mas hesitava com a obrigação de, vez ou outra, ter que dar más notícias aos pacientes. O problema foi solucionado numa conversa no ônibus, nos tempos de curso pré-vestibular. Uma conhecida lhe aconselhou que talvez sua paixão pela saúde estava mais para os lados dos laboratórios do curso em que acabou se graduando na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Hoje, aos 31 anos, Jaqueline já estudou muito o vírus HIV e, antes da pandemia, tinha todo o trabalho voltado para arboviroses (dengue, zika e chikungunya). As pesquisas com essas doenças continuam, mas agora é imperativo, para Jaqueline e seus colegas, saírem mais da toca. “Nós, como cientistas, nos afastamos da população, passamos muito tempo sem conseguir nos comunicar com a sociedade, que é o nosso objeto de estudo.”

Natalia Pasternak, paulista, doutora em microbiologia pela USP

@taschnernatalia no Twitter e @nataliapasternakscience no TikTok

Fios no Twitter, posts no Instagram, aparições na TV, colunas no Jornal O GLOBO e... vídeos no TikTok. Se tem uma divulgadora científica que domina todas as mídias é a microbiologista Natalia Pasternak. Sua última empreitada tem sido a rede atualmente preferida dos adolescentes, que virou febre nos últimos meses. Formada em Ciências Biológicas pela USP, ela foi convidada pela ONU para um projeto de contra-ataque ao movimento antivacina, que estava ganhando força também nessa rede social que Natalia acaba de entrar. “Eles chamaram pesquisadores de vários países. Está engraçado ver esse bando de cientista aprendendo a usar o TikTok. É um desafio enorme fazer vídeo de um minuto, competindo com todas aquelas dancinhas.”

Desde que concluiu o pós-doutorado também na USP, a paulistana começou a ter noção do tamanho do fosso entre a sociedade e as pesquisas. “A ciência era óbvia para nós, mas não para quem estava do lado de fora.” Natalia voltou todo o seu tempo, então, para a comunicação e, em 2018, fundou o Instituto Questão de Ciência, que visa a promover o pensamento crítico e a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências.

O ritmo das suas redes e as do Instituto, ela diz, cresceu exponencialmente. “O grau de desinformação aumentou muito nessa pandemia. Se antes fazíamos postagens periódicas, agora é três, quatro vezes por dia”.

Como alguém que sabe muito do conteúdo e da forma, ela compartilha uma regra de ouro para os divulgadores iniciantes: “Quando estava começando, caía nas armadilhas de entrar nas tretas. Aprendi que esse não é o melhor caminho.”