Cientistas previram agravamento de incêndios na Austrália há 13 anos

Rafael Garcia

Após meses de incêndios florestais devastadores, o primeiro ministro da Austrália, Scott Morrison, finalmente começou a mudar seu discurso em relação à política para o clima, mas cientistas aproveitaram a oportunidade para mostrar como a ciência já alertava sobre esse risco havia mais de uma década, quando o premiê ainda era bastante hostil a políticas de redução do CO2.

Em 2007, o quarto relatório de avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), o corpo de cientistas que a ONU designou para buscar consensos sobre o tema, já era categórico sobre o impacto do aquecimento global sobre o fogo.

"Existe virtualmente certeza de que ondas de calor e incêndios vão aumentar em intensidade e frequência", afirmava o capítulo sobre a Oceania do relatório de avaliação que o painel publicou em 2007. A afirmação, que foi destacada como conclusão de "alta confiança", foi rememorada no Twitter nesta segunda-feira (6) por Stefan Rahmstorf, climatologista da Universidade de Potsdam (Alemanha), um dos cientistas mais influentes do planeta na área.

"O que o mundo pode aprender com a crise dos incêndios florestais na Austrália: mais tarde você paga caro por entregar a mídia e o governo aos negacionistas da ciência", afirmou o alemão.

Mudança de tom

Após três meses de crise com o fogo, que já queimou 5,9 milhões de hectares de mata, destruiu 1.300 residências, matou 20 pessoas e queimou um terço da população de coalas do país, Morrison chegou a ensaiar uma mudança de discurso. Disse que a Austrália pretende cumprir seu compromisso voluntário de cortes de emissão de CO2, mas ainda é tímido em reconhecer o impacto da mudança climática nos incêndios.

"Eu sempre reconheci a conexão entre esses eventos climáticos extremos e os eventos de fogo mais amplos como o impacto global da mudança climática", afirmou o premiê numa entrevista coletiva em dezembro. "Mas tenho certeza que as pessoas igualmente não reconheceriam uma conexão direta com nenhuma ocorrência individual de incêndio."

Ainda assim, mesmo já durante a crise dos incêndios, Morrison incluía trechos de defesa da indústria australiana do carvão em seus discursos, que ressaltam o grau de incerteza da pesquisa climática.

Após o quarto relatório do IPCC destacar o risco de incêndios para a Austrália, cientistas do país refinaram os dados e conseguiram prever não só a gravidade do problema, mas a data em que ele emergiria. Um documento encomendado pelo governo australiano, o Garnaut Climate Change Review, foi concluído em 2008 com um alerta importante.

"Projeções meteorológicas recentes sobre incêndios sugerem que a estação do fogo vai se iniciar antes, terminar um pouco depois e geralmente será mais intensa" afirmava o documento de mais de 500 páginas, num capítulo específico sobre incêndios florestais. "Esse efeito crescerá com o tempo, mas deve ser diretamente observável por volta de 2020."

A revisão Garnaut cita como fonte dos dados um relatório de consultoria liderado pelo cientista Christopher Lucas, do Centro Australiano para Pesquisa de Clima e Tempo, para o estado de Vitória, emitido também em 2007.

Uma fotografia da página do documento que destaca a previsão foi maciçamente compartilhada no Twitter na segunda-feira.

Direções extremas

Outro cientista climático de grande influência no cenário mundial, Michael E. Mann, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA), também se pronunciou sobre o assunto. Mann, autor de um estudo conhecido no meio por provar como o aquecimento global é um evento sem precedente nas últimas centenas de milhares de anos, estava coincidentemente iniciando um período sabático na austrália quando a crise dos incêndios florestais começou.

Em artigo para o jornal britânico The Guardian, ele explica conta o que viu de cima das Montanhas Azuis, na Austrália, e explica como o aquecimento global produziu a crise atual.

"Pegue temperaturas recordes e combine-as com uma seca sem precedentes em regiões que já são secas, e você obtém incêndios florestais nunca vistos, como aqueles que cercam as Montanhas Azuis e se espalham pelo continente", escreve Mann. "Não é complicado."

Em discurso em 2 de janeiro, Scott Morrison defendeu de novo sua política climática dizendo que aceita reduções de emissões que "não sigam em direções extremas" e não comprometam a economia do país. Mesmo reconhecendo agora o papel da mudança climática nos incêndios, o premiê não parece ter comovido os cientistas.

"A Austrália precisa de eleitores que cobrem a responsabilidade dos políticos nas urnas. Os australianos precisam não reeleger políticos movidos a combustíveis fósseis que escolheram ser parte do problema. Precisam votar em defensores do clima que estão dispostos a resolvê-lo."