Cientistas que pesquisam Covid-19 ficam de fora dos grupos prioritários para a vacina

CLÁUDIA COLLUCCI
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SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 08.04.2021 -  Passo a passo da vacinação contra a Covid-19, Coronavírus.  (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
SÃO PAULO/ SP, BRASIL, 08.04.2021 - Passo a passo da vacinação contra a Covid-19, Coronavírus. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores que trabalham na linha de frente da investigação da Covid-19, muito deles lidando com amostras de pacientes contaminados pelo vírus Sars-CoV-2 e cobaias infectadas, não foram incluídos nos grupos prioritários para a vacinação.

Há um movimento em curso pedindo às autoridades de saúde que incluam esses grupos nos planos de imunização. Muitos desses cientistas atuam no desenvolvimento de vacinas, medicamentos e testes diagnósticos, além linhas de pesquisa para entender a dinâmica da doença e suas sequelas.

Os pesquisadores que conseguiram ser vacinados até agora o foram por meio de acordos locais, entre as universidades e os municípios.

Mas, na falta de uma política clara que os coloque como prioritários, a maioria segue sem imunização. Um abaixo-assinado reúne assinaturas de quase mil pesquisadores pelo país que enfrentam essa situação.

"O ministro, os secretários da Saúde, o governador, todo mundo diz que segue a ciência. Mas parece que quem faz a ciência foi cancelado, não existe. Os cientistas são invisíveis", diz o pesquisador Fernando de Queiroz Cunha, professor do departamento de farmacologia da USP Ribeirão Preto.

Ali, ao menos 80 pesquisadores estão há mais de um ano trabalhando com o vírus e não foram vacinados.

"Uma parte deles trabalha em ambiente NB-3, cujo risco de contaminação é semelhante ou até superior ao de uma UTI Covid, porque trabalha com com amostras e camundongos infectados", diz Cunha.

Ele justifica o risco superior ao fato de que, quando um paciente infectado está na UTI, ele está sedado, não faz "estripulias".

"O camundongo pode brigar, te morder, pode acontecer uma contaminação grande. A gente usa duplas luvas, o ar que respiramos na sala NB-3 é filtrado, mas, ainda assim, tem risco de contaminar. Essas pessoas trabalham de segunda a domingo, não tem horário", explica.

Cunha diz que os cientistas já recorreram a todas as instâncias da USP, da Prefeitura de Ribeirão Preto e do governo paulista, mas o impasse continua.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto diz que segue a orientação do PNI (Programa Nacional de Imunizações), que a distribuição e quantidade de doses são efetuadas pelo governo paulista e que os municípios não têm autonomia para mudar as prioridades do estado.

Já a Secretaria de Estado da Saúde informa, também em nota, que aqueles que atuam em laboratórios e os acadêmicos em saúde estão incluídos nas subcategorias de trabalhadores da saúde.

"As doses para todos os públicos-alvo são enviadas aos municípios para aplicação nas pessoas que o integram, sendo prerrogativa da prefeitura deflagrar as estratégias necessárias para imunizar tais públicos."

No laboratório de miocrobiota e imunomodulação coordenado pela professora Angélica Vieira, do departamento de bioquímica e imunologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ninguém ainda foi vacinado, apesar de os alunos irem até a casa de pacientes infectados para coletar amostras de sangue e de fezes.

O foco da pesquisa é tentar compreender as sequelas de quem teve Covid-19, a partir da resposta inflamatória pulmonar, e buscar opções terapêuticas para preveni-las.

"Eles não só vão até as casas dos pacientes como depois manipulam essas amostras no laboratório. Mesmo com o exame PCR negativado, existe a hipótese de o vírus ainda estar presente nas fezes, o que aumentaria muito o risco de infecção."

Recentemente, pela falta de segurança, a pesquisa foi freada. "Não quero prejudicar meus alunos. Muitos dependem do transporte público para se deslocar até a universidade, um risco vai se somando ao outro. A gente precisa encontrar uma forma de proteger esses jovens cientistas", diz que ela, que também ainda não foi imunizada.

Para Marcelo Mori, que coordena a força-tarefa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), de uma forma geral, os pesquisadores que trabalham na linha de frente com estudos sobre a Covid-19 acabaram sendo negligenciados na política de vacinação.

"A contribuição dos cientistas brasileiros para entendimento da Covid-19, tratamentos, novas variantes, tem sido muito grande, com muitas publicações internacionais relevantes. Para isso tudo acontecer, requer gente trabalhando, não só os professores, mas principalmente os alunos de pós-graduação."

Ele lembra que em uma política normal de laboratórios de risco biológico elevado, as pessoas que ali trabalham precisam ser protegidas, inclusive vacinadas. "É uma condição necessária para que essas pessoas continuem trabalhando."

No caso da Unicamp, houve um entendimento com a instituição e os cientistas foram vacinados. "Mas como não existe uma política pública de vacinação para esse grupo, ele tem que brigar. Algumas instituições conseguem, outras não."

O virologista Rafael Elias Marques, pesquisador do CNPEN (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), conta que, desde o início da pandemia, ele e os alunos frequentam um laboratório NB-3 e estiveram expostos aos estoques de vírus e às amostras contaminadas.

"Eu e alguns alunos que lidamos com amostras de pacientes infectadas, tivemos a felicidade de ter recebido a primeira dose [da vacina] porque estamos ligados à força-tarefa da Unicamp."

Porém, Marques diz que colegas de outras regiões do país continuam sem acesso à vacina. "Cientistas que estão processando amostras, fazendo diagnósticos, trabalhando com modelos animais e in vitro, com pacientes, essas pessoas devem ser vacinadas com prioridade."

Ele afirma que no ano passado houve um surto de Covid no laboratório onde atua e foi preciso fechá-lo e colocar 60 pessoas que atuam em pesquisas de testes diagnósticos em quarentena.

"É um risco que existia e que continua a existir. Nós, cientistas, estamos sofrendo pressão de vários setores da sociedade. Ou a nossa palavra não é ouvida ou não temos os recursos adequados para fazer o trabalho que precisa se feito."

Para a química Vanderlam Bolzani, presidente da Aciesp (Academia de Ciências do Estado de São Paulo), é um contrassenso das autoridades esse esquecimento daqueles que fazem a ciência brasileira a andar. Ela diz que a Aciesp encaminhou ofício à Secretaria de Estado da Saúde pedindo que os cientistas sejam colocados nas listas de prioridades de vacinação.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde diz que não foi localizada solicitação da Aciesp, mas que, de todo modo, tanto o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19 definido pelo Ministério da Saúde quanto os documentos técnicos do Plano Estadual de Imunização de São Paulo deixam claras as subcategorias de trabalhadores de saúde, e os cientistas estariam incluídos nelas.