21 cientistas rejeitam homenagem após Bolsonaro cancelar honraria a críticos do governo

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Foto: AP Photo/Eraldo Peres
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  • Em carta aberta, 21 cientistas rejeitaram ser homenageados com a Ordem Nacional do Mérito Científico

  • O presidente Jair Bolsonaro retirou nome de críticos ao seu governo

  • Entre os homenageados, estava um pesquisador que descartou cloroquina no combate à covid-19

Em carta aberta, 21 cientistas rejeitaram ser homenageados com a Ordem Nacional do Mérito Científico em solidariedade a dois colegas que tiveram a honraria cancelada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por trabalhos que desagradaram ao governo.

"A homenagem oferecida por um governo federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com nossas trajetórias científicas. Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação", diz a nota, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Na carta, divulgada neste sábado (6), os 21 cientistas declaram sua "indignação, protesto e repúdio pela exclusão arbitrária dos colegas". Os profissionais criticam ainda o "negacionismo em geral" e os cortes em verbas federais para o desenvolvimento da ciência.

"Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do governo vigente", escrevem os cientistas.

Jair Bolsonaro mandou revogar a condecoração a Marcus Vinícius Lacerda e Adele Schwartz Benzaken, críticos da atuação do governo, em uma publicação extra do Diário Oficial na última sexta-feira.

Médico e pesquisador da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, de Manaus, Lacerda foi um dos primeiros brasileiros a pesquisar o uso de cloroquina contra covid-19 e suspendeu o estudo depois que verificou que, na verdade, o medicamento aumentava o risco cardíaco dos pacientes.

Ameaçado de morte e atacado nas redes por bolsonaristas, Lacerda virou um dos inimigos do clã Bolsonaro e chegou a ser acusado de usar doses acima do normal de cloroquina para "matar pacientes" e desacreditar o medicamento defendido repetidamente pelo presidente.

Adele Schwartz Benzaken, hoje diretora da Fundação Oswaldo Cruz Amazônia, era diretora de DSTs e Aids do Ministério da Saúde desde o governo Temer. A médica sanitarista, que tem atuação internacional na área de doenças transmissíveis, autorizou a produção de uma cartilha dirigida a homens trans.

Em janeiro de 2019, logo depois de Bolsonaro tomar posse, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta mandou retirar a cartilha de circulação e Benzaken foi exonerada. Mandetta justificou a decisão afirmando que "o governo precisava voltar a estimular a prevenção do HIV, mas sem ofender as famílias".

Outros críticos ao governo permaneceram entre os homenageados. Entre eles, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, da Universidade Estadual do Maranhão, contrário à intenção do governo de liberar a exploração de minérios nas terras indígenas, e o epidemiologista Cesar Victora, vencedor do prêmio Gairdner (considerado o Nobel da Epidemiologia), que apontou por diversas vezes os erros da política de corte de recursos para a ciência adotados pelo governo.

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