Cientistas transformam a oxitocina, proteína conhecida como 'hormônio do amor', em música; ouça

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RIO — Ao observarem semelhanças entre sequenciação de proteínas e a forma como é montada uma partitura, cientistas resolveram descobrir a sonoridade de 18 proteínas com várias funções biológicas, sendo que a maioria está atrelada à regulação das emoções, cognição, sensação ou desempenho. Entre elas, ganhou destaque a oxitocina, conhecida como "hormônio do amor". Os pesquisadores viram que a música gerada a partir dela contém partes recorrentes por causa da repetição de certas pequenas sequências de aminoácidos, que são as menores partes que compõem uma proteína. Por isso, para que chegassem ao resultado mostrado, chamado de "música proteica", eles atribuiram uma nota musical para cada aminoácido e juntaram os dados por meio de um programa de computador. O objetivo da equipe é atrair atenção das pessoas para temas científicos, despertando interesse delas pelo assunto.

Segundo o pesquisador Peng Zhang, da Universidade Rockefeller, nos EUA, a proteína receptora da oxitocina gerou a música favorita na opinião da equipe responsável pelo estudo, publicado nesta quarta-feira na revista "Heliyon".

"Esta sequência de proteínas produziu um tema principal identificável que se repete no ritmo ao longo da peça, bem como alguns motivos e padrões interessantes que se repetem independentemente do nosso algoritmo. Houve também algumas progressões harmônicas agradáveis; por exemplo, muitos dos acordes de sétima se resolvem naturalmente", afirmou Zhang.

Por outro lado, a música gerada a partir do gene supressor tumoral p53, uma proteína que previne a formação do câncer, produziu frases "particularmente fascinantes", segundo os autores, soando quase como uma tocata, um estilo sem repetições.

"Existem muitas analogias surpreendentes entre proteínas, os blocos básicos de construção da vida e notação musical. Essas analogias podem ser usadas não apenas para ajudar no avanço da pesquisa, mas também para tornar a complexidade das proteínas acessível ao público", disseram os coautores do estudo Zhang e o professor Yu Zong Chen, da Universidade Nacional de Cingapura, em texto assinado por ambos no portal "The conversation".

Embora não seja novidade a criação de músicas com base na estrutura das proteínas, os autores reconheceram que as anteriores não eram tão agradéveis para escutar, então dessa vez eles buscaram uma forma de torná-las mais atraentes ao público em geral.

"Ao nos concentrarmos em um estilo musical, podemos orientar mapeamentos mais complexos de combinações de padrões de aminoácidos com vários recursos musicais", disse Yu Zong Chen.

Portanto, a equipe escolheu como inspiração a clássica "Fantasie Impromptu", composição para piano criada por Frédéric Chopin em 1834. No entanto, os cientistas disseram que a mesma técnica poderia ser desenvolvida e aplicada a diversos estilos musicais, incluindo pop e jazz.

"Somos biólogos computacionais que acreditam que ouvir o som da vida em nível molecular pode ajudar a inspirar as pessoas a aprender mais sobre biologia e ciências computacionais. Embora a criação de música com base em proteínas não seja nova, diferentes estilos musicais e algoritmos de composição ainda precisam ser explorados. Então, lideramos uma equipe de alunos do ensino médio e outros acadêmicos para descobrir como criar música clássica a partir de proteínas", afirmaram. "Nossa esperança é que este trabalho incentive os pesquisadores a compor música de proteínas de diferentes estilos e inspire o público a aprender sobre os blocos básicos de construção da vida".

Os autores descreveram as proteínas como cadeias compostas por pequenas unidades de 20 aminoácidos possíveis, cada uma marcada por uma letra do alfabeto, cuja estrutura se assemelha a uma sequência de notas musicais. Para criar a música proteica, eles mapearam uma nota para cada aminoácido com base na frequência com que aparecem na proteína. Também relacionaram outros aspectos de sua bioquímica a características musicais. Dessa forma, um aminoácido de tamanho maior teria, por exemplo, um comprimento de nota mais curto e vice-versa.

Ainda que o algoritmo tenha aprimorado a musicalidade geral das canções de proteína, os pesquisadores acreditam que ainda há muito progresso a ser feito.

"Acreditamos que o próximo passo é explorar mais estilos musicais e combinações mais complexas de propriedades de aminoácidos para melhorar a musicalidade e novas peças musicais. Outro próximo passo, um passo muito importante, é aplicar a inteligência artificial para aprender conjuntamente propriedades complexas de aminoácidos e suas combinações com relação às características de vários estilos musicais para a criação de música protéica de musicalidade aprimorada", avaliou Chen, em comunicado divulgado no site "Eurekalert".

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