Cientistas usam Tik Tok para mostrar bastidores da busca por vacinas contra a Covid-19

João de Mari
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(Foto: Reprodução/Twitter)
O biofísico Rômulo Neri em vídeo no Tik Tok (Foto: Reprodução/Twitter)

Ao ritmo do funk carioca, o cientista Rômulo Neri, 27 anos, anuncia em um vídeo repleto de figurinhas: “a vacina vem, a vacina vem”. A postagem, publicada esta semana na plataforma Tik Tok, funciona como uma espécie de boletim sobre a corrida pela vacina contra a Covid-19 e é resultado de uma ação da Organização das Nações Unidas, a ONU, para atualizar e aproximar o público do trabalho que vem sendo realizado na pesquisa pelas vacinas.

No vídeo, Rômulo, que é um dos três cientistas brasileiros selecionados para compartilhar os bastidores dos trabalhos que vem sendo realizado na pesquisa pelas vacinas, discorre sobre os resultados dos testes de segurança da vacina CoronaVac, que teve liberação da importação de 6 milhões autorizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), nesta sexta-feira (23).

“O resultado do estudo feito com 600 voluntários mostrou que a maioria não teve reações adversas à vacina. Dor de cabeça, que foi o sintoma mais recorrente, apareceu em apenas 15% das pessoas”, afirma Rômulo. “No próximo vídeo vou mostrar como ela funciona, como ela foi feita e o que a gente precisa para aprová-la”, promete aos seus seguidores da rede social.

Rômulo — e mais dois brasileiros — faz parte da chamada “Equipe Halo”, formada por um grupo de pesquisadores que trabalham com as pesquisas pelas vacinas em países espalhados pelo mundo.

Os cientistas têm a missão de aproximar o público das discussões sobre a imunização da Covid, tentando tornar o assunto acessível e didático para públicos de diferentes idades e perfis.

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De acordo com a ONU, o TikTok foi escolhido para sediar a ação pois permite aos pesquisadores contar histórias sérias de uma forma criativa e envolvente. De fato, o aplicativo chinês que surgiu em 2016 vem conquistando fãs e seguidores ao redor do mundo e hoje estima-se que são mais de 2 bilhões de downloads do aplicativo.

“Vacinas não são questões individuais apenas. O sucesso da vacina depende da adesão coletiva dela e precisamos garantir que a gente imunize a maior parte da população”, comenta Rômulo sobre a iniciativa.

Rômulo é formado em biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e estuda os mecanismos que fazem o organismo desenvolver imunidade contra o novo coronavírus. Antes da pandemia, o biofísico dedicava suas pesquisas aos vírus próximos do Chikungunya, que foi seu foco durante o mestrado e, agora, no doutorado.

Para ele, é necessário recuperar o sentimento de confiança na ciência brasileira em parte da população De fato, os brasileiros confiam pouco na ciência. Segundo pesquisa do centro de pesquisa americano Pew Research Center, pulicado em setembro deste ano, o Brasil é o país do mundo com a maior proporção de pessoas que não confiam em cientistas. São 36% dos brasileiros que disseram ter pouca ou nenhuma confiança em pesquisadores científicos.

“O Brasil sempre foi muito bem visto na comunidade de medicina internacional, temos o SUS e uma história muito boa em lidar com doenças. Carlos Chagas, por exemplo, foi o primeiro e até os dias atuais permanece como único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa”, conta Rômulo.

A expectativa agora é gerar engajamento entre o público da rede social e conseguir conscientizar os usuários de que ciência é muito importante — divertida.

Os dois pesquisadores brasileiros, além de Rômulo, são Gustavo Cabral de Miranda e Natalia Pasternak. Gustavo de Miranda lidera a pesquisa de desenvolvimento de vacinas contra o novo coronavírus, assim como vacinas para chikungunya e zika vírus, no Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Natalia atua como pesquisadora visitante do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas (LDV), e diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência. Enquanto Rômulo Neris tem como foco de sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro a forma como o sistema imune reage ao novo coronavírus.

De acordo com a ONU, novos nomes serão anunciados em breve.