Cientistas veem uso político da interrupção do teste de vacina por parte de Bolsonaro

Rafael Garcia
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SÃO PAULO - Cientistas da área biomédica manifestaram preocupação sobre a maneira com a qual o presidente da república se manifestou sobre a interrupção do teste da vacina CoronaVac. Ouvidos pelo GLOBO, especialistas afirmam que a declaração pode minar a credibilidade da população nos imunizantes que serão essenciais para combater a Covid-19.

Na manhã desta terça-feira (9), ao comentar a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de interromper o o teste, Jair Bolsonaro disse que o governador de São Paulo, João Doria, "queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la", e afirmou que o episódio é "mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

A declaração se deu após a Anvisa, na noite anterior, ter anunciado à imprensa a suspensão dos testes ante um caso de "evento adverso" não especificado, alguns minutos depois de comunicar a decisão ao Instituto Butantan, que testa no Brasil a vacina da empresa chinesa Sinovac.

Um boletim ocorrência divulgado hoje mostrou que o voluntário morreu por suicídio, não por causa de uma reação à vacina. A maneira com que o anúncio foi feito ontem, porém, levou cientistas a se preocuparem com uso político da agência governamental.

— Eu vejo um estrago feito pela fala do presidente que é difícil mensurar — diz a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência e colunista de O GLOBO.

— Ele gera desinformação sobre vacinas como um todo, não só com relação à CoronaVac. Com isso, a população fica desnorteada e pode começar a duvidar do processo cientifico por trás do desenvolvimento das vacinas.

Segundo Natália, após emergir a informação de que o caso de evento adverso relatado ter sido um suicídio torna ainda mais grave a politização do caso.

— Debochar da morte de uma pessoa porque ela serve aos seus interesses politicos é um ato de crueldade inconcebível.

Para a cientista também é preocupante a maneira com que a Anvisa anunciou sua decisão de interromper os testes, num comunicado obscuro e sem consultar o Butantan.

— A gente estranha como aconteceu esse processo porque a gente sempre espera que nossa agência regulatória possa ser técnica e soberana — afirma. Natália ressalta que o comitê independente de monitoramento que avalia eventos preocupantes no teste clínico julgou não ser necessária a interrupção, mas este não foi consultado pela Anvisa ontem.

— O comitê de monitoramento foi informado do caso. Se o comitê não julgou necessário interromper testes e a Anvisa avaliou que precisava de mais informações, ela teria de procurar o Butantan — afirma.

Comportamento 'infantil'

Para Roberto Lent, neurocientista e professor titular da UFRJ, não parece ter evidência de alguma violação no protocolo de troca de informações com a Anvisa, mas o modo como o presidente explorou a situação é preocupante.

— A declaração do presidente é lamentável, é cruel com a população e é infantil do ponto de vista político ou psicológico — diz Lent. — É como uma criança que vê o colega cair e fala "bem feito!", mas nesse caso se trata do presidente da República, que está lidando com a vida de milhões de brasileiros.

Para o médico José David Urbaez, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, o modo com que o episódio se transcorreu é indício de uso político da situação.

— Bolsonaro errou de uma maneira grotesca, mas isso não surpreende porque faz parte do modus operandi dele — disse.

— Isso gera o pior que você pode gerar para uma vacina, que é a desconfiança — completa o infectologista.

Para Urbaez, não há nada que leve a crer que o episódio do voluntário morto tenha sido tratado de maneira inadequada no estudo da CoronaVac.

— Esses eventos fazem parte do roteiro de todo teste de vacina e medicamento, não tem nada de estranho ou conspiratório.

Segundo o infectologista, é preciso esclarecer à população, porém, que esse tipo de ocorrência é tratado com reserva, porque o ensaio clínico precisa garantir a privacidade dos voluntários e de suas famílias.

Ocorrência esperada

Para Margareth Dalcomo, pneumologista da UFRJ, o teste da CoronaVac tem demonstrado até aqui ser um processo responsável.

— A despeito de todas as diferenças e desavenças, o Brasil tem conseguido manter um excelente protagonismo no desenvolvimento de vacinas na fase 3 (etapa do teste que avalia eficácia) — afirma a cientista.

— Qualquer intercorrência como essa é absolutarmente esperada, como houve com a vacina da AstraZeneca, como houve com a vacina na Johnson & Johnson — afirmou.

Na opinião de Margareth, o caso da morte do voluntário, talqual foi relatado, "tem zero relação com a vacina".

— Independentemente de a interrupção do estudo ter sido ou não motivada por causas políticas, o estudo poderia ser retomado imediatamente — diz.