Ciganos de Roma estão atordoados com ameaças do governo

Por Terry DALEY
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Membros da comunidade cigana no acampamento River Village na periferia de Roma, na Itália, em 19 de junho de 2018

Em um empoeirado acampamento de ciganos na periferia de Roma, a vida transcorre como sempre, apesar das ameaças de um controverso censo étnico e deportações em massa por parte do novo ministro do Interior italiano, Matteo Salvini.

O ministro de extrema direita, alvo de críticas por se negar, na semana passada, a autorizar a chegada de um barco com 630 imigrantes, nesta semana provocou de novo indignação quando anunciou medidas especiais como um censo segundo a origem étnica da comunidade cigana e a expulsão dos que careçam de nacionalidade italiana.

Medidas rejeitadas inclusive por seu aliado de governo, a formação antissistema Movimento 5 Estrelas, por serem inconstitucionais.

Para Marcello Zuinisi, fundador e representante legal da Associação Nacional Rom, uma organização que defende os direitos dos ciganos na Itália, trata-se mais de ameaças que de ações.

"Conheço Matteo Salvini, tivemos várias conversas", contou Zuinisi à AFP.

"Não acredito que vá fazer nada. Só fala", aponta Zuinisi no acampamento River Village, perto da circunvalação que rodeia a capital italiana, um lugar dominado por trailers e pequenos pré-fabricados estacionados sobre a terra.

Como muitos acampamentos de ciganos, trata-se de um lugar completamente afastado dos centros residenciais e não conta com água corrente nem saneamento.

O pedido de Salvini de fazer uma avaliação da situação dos acampamentos dos ciganos, por considerá-los centros de delinquência, é rejeitado firmemente por Zuinisi.

"A agência nacional de estatísticas, Istat, realizou um amplo relatório no ano passado sobre onde e como vivem as diversas comunidades ciganas", lembrou o dirigente.

"O que sim é dramático é que não sabemos aonde foram parar os sete bilhões de euros outorgados a Itália pela Comissão Europeia para dar casa, trabalho, saúde e escola às comunidades ciganas", denunciou Zuinisi, que pediu uma investigação sobre o tema.

"Nenhum centavo chegou aos acampamentos. Não deram nem uma aspirina", afirmou indignado.

- Ciganos, o inimigo público -

O coletivo dos ciganos é um dos inimigos públicos escolhidos por Salvini para dar uma explicação ao complexo problema de insegurança que afeta a Itália.

Seu número parece superdimensionado. Segundo a organização sem fins lucrativos 21 de Julho, na Itália vivem entre 120.000 e 180.000 ciganos, dos quais cerca de 16.400 residem em 148 acampamentos reconhecidos legalmente, como River Village.

A associação diz que cerca de 9.600 vivem em acampamentos informais menores, em grande parte povoados por romenos.

Os acampamentos formais se distribuem em 87 cidades e povoados de todo o país.

Um total de 43% são cidadãos italianos, enquanto o resto provém de países do Leste da Europa e cerca de 3.000 são apátridas.

Em Roma, há 17 acampamentos, dos quais apenas seis, incluindo o River Village, são reconhecidos legalmente.

Apesar de representarem apenas 0,3% da população da Itália, os ciganos são odiados, discriminados e costumam ser acusados de roubos de apartamentos, de traficar ferro e cobre e de muitos assaltos, de modo que não conseguem trabalhos estáveis.

Um exemplo corrente: o taxista que levou a equipe da TV-AFP ao acampamento River Village sugeriu que levassem um lança-chamas para destruí-lo.

O ódio na capital se multiplicou pelas denúncias contra duas organizações criminosas lideradas por famílias sinti (um dos três principais grupos chamados de ciganos) que residem há décadas em zonas periféricas e controlam a venda de estupefacientes.

"Se Salvini vier aqui, o receberemos com amabilidade. O que ele precisa é ver como vivemos", assegura Habibi Mehmedi, de 18 anos.

"Há delinquentes, mas a maioria de nós somos italianos e não cometemos nenhum delito", afirma.