O cigarro eletrônico é perigoso? A ciência ainda tem dúvidas

Por Ivan COURONNE, Paul RICARD
Dispositivos para cigarro eletrônico à venda em Nova Délhi

Quais são os efeitos do vaporizador para a saúde? Esta pergunta recorrente volta à pauta após a decisão da Índia de proibir os cigarros eletrônicos, mas a ciência não pode, por enquanto, dar uma resposta definitiva.

- O que os cigarros eletrônicos contêm? -

O 'vaping' consiste em inalar vapores gerados pelo aquecimento a altas temperaturas de um líquido no interior do cigarro eletrônico.

Os líquidos contêm, na maioria dos casos, nicotina, uma substância que causa dependência e pode afetar o desenvolvimento do cérebro antes dos 25 anos e, segundo certos estudos, ter um efeito nefasto nos adultos.

Por outro lado, não incluem muitas substâncias perigosas encontradas no cigarro como o alcatrão (cancerígeno) ou o monóxido de carbono (causa de doenças cardiovasculares).

Mas o vapor contém partículas finas que penetram nos pulmões. Há "muitas substâncias potencialmente tóxicas", concluiu um informe da Academia de Ciências americana publicado em 2018.

Entre eles, metais (níquel, chumbo...) procedentes provavelmente da bobina utilizada para aquecer o líquido, assim como aditivos considerados seguros na indústria agroalimentar, mas vinculados a doenças pulmonares ou não estudados sob sua forma vaporizada.

Será necessário esperar estudos de décadas de duração para ter a certeza dos efeitos a longo prazo dessas substâncias nas células do corpo.

- O 'vaping' é perigoso? -

Os pesquisadores têm ainda pouca perspectiva sobre os cigarros eletrônicos, vendidos desde meados dos anos 2000.

Para as pessoas que já fumam, o consenso científico atual é que substituir o cigarro pelo vaporizador é menos nocivo: a nicotina fica, mas as substâncias cancerígenas presentes nos cigarros deixam de ser inaladas.

"Embora seja difícil quantificar com precisão a toxicidade a longo prazo do cigarro eletrônico, evidentemente esta é muitíssimo menor que a do cigarro tradicional", indicou em 2015 a Academia de Medicina francesa.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) se mostra mais prudente, tomando como referência um informe de 2014: "os SEAN (Sistemas Eletrônicos de Administração de Nicotina) são provavelmente menos tóxicos que os cigarros, mas não há provas suficientes para quantificar o nível preciso de risco", estima.

Em qualquer caso, "os SEAN são inquestionavelmente nocivos e deverão ser regulados".

Por outro lado, nos Estados Unidos, uma misteriosa epidemia de doenças pulmonares agudas causou várias mortes este verão e levou centenas de pessoas a emergências médicas.

A maioria tinha comprado líquidos com THC, a substância psicoativa da cannabis, mas se ignora ainda qual ingrediente, entre os muitos aditivos, pode ter danificado os pulmões.

- Os vaporizadores ajudam a parar de fumar tabaco? -

Um estudo britânico publicado em fevereiro no New England Journal of Medicine observou que os cigarros eletrônicos eram mais eficazes que os adesivos e outros produtos de substituição.

Mas ainda não há provas suficientes, segundo a OMS, que cita três estudos de 2016 e 2017. A possibilidade de que o vaping desempenhe um papel para ajudar a deixar o tabaco "não está clara" e varia muito segundo o tipo de cigarro eletrônico, conclui o organismo.

Por todas estas razões, a OMS não inclui o cigarro eletrônico no arsenal recomendado para parar de fumar tabaco, e considera que não deve ser promovido como tal enquanto não houver mais dados disponíveis.

Esta posição provocou a reação dos fabricantes de cigarros eletrônicos, que falam de "desinformação", mas também de alguns especialistas da luta contra o tabaco, que defendem a eficácia do novo produto.

- Os jovens, chaves do debate? -

Uma das preocupações ante estes produtos diz respeito ao seu uso por parte de não fumantes, especialmente jovens e adolescentes, alvo do marketing de muitas marcas.

Vários estudos demonstram que os jovens não fumantes que começam a usar vaporizadores são mais suscetíveis a passar para o cigarro.

A proteção da juventude é o argumento invocado pela Índia em seu anúncio, nesta quarta-feira, de proibição dos cigarros eletrônicos.

Nos Estados Unidos, as autoridades falam de epidemia nos colégios, com um domínio dos aromas frutados, menta e mentol.

Na terça-feira, Nova York se tornou o segundo estado da União, depois de Michigan, a proibir a comercialização dos cigarros eletrônicos aromatizados.

Esta decisão chegou dias depois do presidente Donald Trump anunciar que seu governo tomaria uma medida similar nos próximos meses em nível federal.