Cinco anos depois, a vida de uma família transformada pelo zika vírus e a microcefalia

No dia 15 de novembro de 2015, o Ministério da Saúde decretou epidemia do zika virus no Brasil. Desde abril daquele ano, a alta no número de casos da doença em hospitais do país, em especial no Nordeste, fez com que médicos alertassem o governo. As mulheres grávidas eram a principal preocupação. Naquele ano, a advogada Mila Mendonça, que vive em Salvador, teve a doença durante a gestação de seu segundo filho. “Tive a zika mas, como todo mundo, não dei atenção porque parecia mais uma gripe”, conta. “Quando eu falei para a obstetra, ela nem anotou no prontuário, ninguém ligava para a zika”, completa. A gravidez correu bem até agosto de 2015, quando Mila e o pai do menino, o também advogado Rodrigo Gomes, descobriram que o filho tinha microcefalia decorrente da síndrome congênita do zika vírus. Os efeitos da infecção em fetos - cujo sistema nervoso central é comprometido pelo vírus - ainda não eram totalmente conhecidos. “Eu chorei até dormir, fui dormir cansada de chorar”, disse Mila em janeiro de 2016, quando o casal contou sua história pela primeira vez à BBC News Brasil. “Foi um dia bastante difícil, mas foi importante para gente ter o acompanhamento médico, porque o médico falou: ‘Olha, Vocês podem sofrer essas 24 horas, mas a partir de amanhã é vida que segue’”, lembrou Rodrigo, na reportagem de 2016. Em dezembro daquele ano, Gabriel nasceu com a circunferência da cabeça medindo 32 centímetros, número dentro da faixa que caracteriza a doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cinco anos depois, a BBC News Brasil conversou novamente com o casal para saber como a vida seguiu. Hoje, Gabriel divide a rotina entre sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e nutrição, tudo para otimizar a qualidade de vida. “Tem os desenhos que ele gosta. Ele ama o Lucas Netto! Bote um diferente! Quando você coloca o que ele quer, ele fica quieto, parecendo um anjo”, brinca Mila. “Ele é uma criança extremamente feliz. Onde ele pode, está dando risada, se divertindo, está brincando do jeitinho dele, interagindo com a gente”, relata Rodrigo. Apesar de exames apontarem que Gabriel é surdo, o pai tem certeza de que ele não é. “A gente em 2019 fez uma cirurgia para estirar o máximo possível a perna dele para poder facilitar de ele sentar. Foi uma cirurgia muito difícil para a gente, porque foi muita dor para ‘Gabi’, ele sofreu muito e engraçado que era a música que o acalmava”, lembra Rodrigo. Antes da operação, Gabriel não conseguia esticar a perna direita, devido à síndrome de artrogripose – que provoca contraturas nas articulações e redução no tônus muscular e, assim como a microcefalia, está relacionada a casos de infecções pelo zika vírus durante a gravidez. A chegada de Gabriel fez o pai retomar um hobby que estava esquecido. Ele voltou a fazer apresentações musicais para arrecadar fundos para o ONG aBRAÇO à microcefalia, fundada por Mila e um grupo de mães em Salvador. O espaço oferece serviços de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e nutrição para crianças com microcefalia, e sessões de psicoterapia para as mães. A aBRAÇO também realiza oficinas com profissionais especializados, que dão dicas sobre brincadeiras, cuidados com a visão, audição e nutrição das crianças, entre outras atividades. Em cinco anos, o número de famílias atendidas pelo projeto passou de oito para 302. Confira no vídeo. E confira também o vídeo que fizemos com Mila, Rodrigo e Gabriel em 2016: https://youtu.be/v1DVR4AMZ8w Reportagem: Fernando Otto Coordenação: Adriano Brito

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