Cinco pontos que explicam a crise que levou o presidente do Sri Lanka a fugir

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O Sri Lanka, um país insular ao sul da Índia de 22 milhões de habitantes, ex-colônia britânica, há meses enfrenta uma crise econômica e política de grandes proporções, que culminou em protestos enormes e por vezes violentos e na fuga do presidente nesta quarta-feira (noite de terça no Brasil).

Uma grave escassez de moeda estrangeira deixou o governo de Gotabaya Rajapaksa sem capacidade de pagar por importações cruciais, incluindo alimentos, remédios e combustível, o que levou a cortes frequentes de energia que duram até 13 horas por dia.

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Segundo economistas, a crise é a pior desde que o relativamente próspero país do sul da Ásia, com PIB per capita e IDH ligeiramente superiores aos do Brasil, conquistou a independência em 1948, e se deve à má gestão econômica de sucessivos governos.

Com a fuga de Gotabaya, o o primeiro-ministro cingalês, Ranil Wickremesinghe, assumiu interinamente e decretou estado de emergência. A crise, no entanto, ainda parece longe de acabar.

Abaixo, cinco fatores que explicam os problemas que o Sri Lanka enfrenta hoje:

Cortes de impostos

Em novembro de 2019, o então recém-eleito presidente Gotabaya Rajapaksa cumpriu uma promessa de campanha e promulgou grandes cortes de impostos. Com o objetivo de estimular a economia local, a alíquota do imposto sobre valor agregado (IVA) – o imposto aplicado às importações e vendas domésticas – foi reduzida de 15% para 8%. Isso contribuiu para uma queda na receita do país.

A partir de março de 2020, a pandemia da Covid-19 acentuou a crise. A indústria de turismo, uma das mais lucrativas do país, responsável por 5% de seu PIB, parou, e as remessas enviadas por trabalhadores no exterior também diminuíram.

Dívida descontrolada

Como as reservas cambiais caíram quase 70% em dois anos, o país se viu sem capacidade de pagar sua já elevada dívida externa.

A maior parte da dívida foi contraída no mercado e está denominada em euros (36%). Parte dela (20%) também se deve a empréstimos consignados feitos da China pelo ex-presidente Mahinda Rajapaksa (2005-2015), o irmão mais velho de Rajapaksa e duas vezes primeiro-ministro, para investimentos agressivos em infraestrutura. Os outros principais credores incluem o Banco Mundial (10%), o Japão (9%) e o Banco Asiático de Desenvolvimento (15%).

Esses empréstimos já faziam com que, há anos, o Sri Lanka enfrentasse um problema de déficits gêmeos, isto é, de um déficit orçamentário ao lado de um déficit em conta corrente (saldo de todo o dinheiro que entra e sai no país).

“O Sri Lanka é uma economia clássica de déficits gêmeos”, disse um documento de trabalho de 2019 do Banco Asiático de Desenvolvimento. “Os déficits gêmeos sinalizam que o gasto nacional de um país excede sua renda nacional e que sua produção de bens e serviços comercializáveis ​​é inadequada.”

Em fevereiro, o país ficou com apenas US$ 2,31 bilhões em reservas, frente a pagamentos de dívidas de cerca de US$ 4 bilhões para 2022, incluindo um título soberano internacional de US$ 1 bilhão com vencimento em julho.

Em uma revisão da economia do país divulgada em maio, o FMI disse que a dívida pública subiu para "níveis insustentáveis" e as reservas cambiais eram insuficientes para o seu pagamento no curto prazo. O fundo pediu que o país reestruturasse sua dívida externa antes que um programa de resgate pudesse ser finalizado.

Orgânicos fracassados

Em abril de 2021, o governo do Sri Lanka introduziu a proibição de fertilizantes químicos feitos no exterior. A proibição das importações visava combater o esgotamento das reservas de moeda estrangeira do país, embora o presidente tenha argumentado que a mudança tinha o objetivo de promover a saúde ambiental e humana.

A alteração, contudo, foi desastrosa. Os agricultores estavam mal preparados para tal transformação súbita, e, com apenas fertilizantes orgânicos locais disponíveis, ocorreu uma diminuição considerável na safra do país, incluindo a de chá, segundo principal produto da pauta de exportações do país (17%), depois de tecidos e roupas (52%).

A proibição de fertilizantes foi suspensa antes do final do ano após grandes protestos, mas a reversão chegou tarde demais para salvar a próxima safra. Segundo especialistas agrícolas, a produção anual de arroz caiu em até 30%. Esta queda forçou os cingaleses a dependerem ainda mais das importações, esgotando ainda mais as reservas.

Falta de tudo

A escassez de moeda estrangeira levou o país, que depende muito de importações, a ter dificuldade para comprar itens essenciais no exterior, incluindo alimentos, remédios e combustível. A situação já terrível agravou-se com o aumento dos preços dos grãos e dos combustíveis em todo o mundo causado pela guerra na Ucrânia.

Em abril, após o governo não conseguir pagar US$ 52 milhões 37 mil toneladas de diesel que aguardavam descarregamento, houve o anúncio de cortes diários de energia de até 13 horas.

Todos os produtos começaram a faltar. A falta de papel e tinta levou jornais a reduzirem suas páginas, e escolas a cancelarem aulas. Hospitais adiaram procedimentos por não terem suprimentos médicos vitais, anestésicos e produtos químicos para realizar testes diagnósticos. Os fornos a lenha se tornaram mais comuns devido à falta de gás.

Em junho, o governo decretou uma semana de quatro dias úteis para o 1,5 milhão de servidores públicos, para que, às sexta-feiras, cultivassem os próprios alimentos. Em junho, a inflação chegou a 54,6% na taxa anualizada.

Cultura nepotista

O modo como a política cingalesa opera também contribuiu para a insatisfação popular. A família Rajapaksa dominou a política do Sri Lanka durante grande parte das últimas duas décadas e, nos últimos anos, cada vez mais administra o governo do país insular como se fosse um negócio de família.

O irmã do atual presidente, Mahinda Rajapaksa, governou o país de 2005 a 2015. No período, encerrou a guerra civil de três décadas no país, reprimindo a insurgência dos Tigres Tâmeis por meio do uso da força militar brutal, gerando acusações de abusos generalizados dos direitos humanos.

Os Rajapaksas ficaram brevemente fora do governo após perderem nas eleições de 2015, mas voltaram ao poder com Gotabaya Rajapaksa — que foi ministro da Defesa quando o irmão era mandatário — se lançando candidato presidencial em 2019.

Após a eleição, o ex-presidente voltou ao governo como primeiro-ministro. Vários outros cargos importantes foram entregues a membros da família. Há um ano, quando a economia já parecia rumar para o colapso, outro dos irmãos, Basil, foi nomeado ministro das Finanças. Isso tudo contribuiu para uma percepção de nepotismo e impunidade.

No início de abril deste ano, protestos enormes pedindo a renúncia do presidente Gotabaya Rajapaksa começaram na capital, Colombo.

Em maio, apoiadores do governo atacaram brutalmente os manifestantes. Posteriormente, o primeiro-ministro Mahinda renunciou e foi substituído por Ranil Wickremesinghe, agora presidente interino, após a fuga de Gotabaya do país.

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