Cinema russo é tema de festival gratuito na internet

Sérgio Rizzo
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Presença rara entre os lançamentos nos cinemas brasileiros e também nos catálogos de streaming, a produção contemporânea russa surpreende quem talvez imagine, pelo noticiário da era Putin, que não há espaço no país para filmes de crítica sociopolítica e sobre tabus comportamentais.

A maior parte dos oito títulos selecionados pelo 1º Festival de Cinema Russo, disponíveis gratuitamente até o dia 30 na plataforma Spcineplay, demonstra uma independência que, em alguns casos, aponta para a tentativa de modernizar a tradição de realismo social dos tempos de URSS.

No ótimo drama “O homem que supreendeu a todos” (2018), escrito e dirigido pela dupla Aleksey Chupov e Natasha Merkulova, um guarda florestal (Evgeniy Tsyganov) descobre ter câncer em estado avançado. Embora família e amigos procurem convencê-lo a resistir, ele se prepara para a morte.

Mas, angustiado pelo tempo escasso que lhe resta, escandaliza a pequena (e conservadora) comunidade onde vive ao fazer algo tredemendamente inesperado. Essa virada da narrativa ocorre de modo admirável, mantendo a pegada realista e, ao mesmo tempo, abrindo uma fresta dolorosa para o poder do desejo.

“Arritmia” (2017), por sua vez, representa contraponto às inúmeras séries de TV sobre medicina, sobre médicos e hospitais, como “Grey's anatomy” e “House”, protagonizadas por super-heróis vestidos de branco, e com tecnologia hospitalar de ponta a serviço da vida. No filme de Boris Khlebnikov, vemos um lado B desse universo asséptico.

Jovem médica (Irina Gorbacheva) enfrenta dificuldades no casamento com um paramédico (Aleksandr Yatsenko). A rotina de trabalho dos dois escancara a precariedade do sistema de saúde, mas o filme diz muito também quando nos leva, com a ajuda da eficiente direção de arte, a envelhecidos apartamentos da classe trabalhadora — que inclui médicos com pouco dinheiro e sem glamour.

A polícia e a justiça recebem seu quinhão de crítica no engenhoso suspense “O texto” (2019), dirigido por Klim Shipenko com base em romance de Dmitriy Glukhovskyi (que assina o roteiro). Já viu “O dilema das redes”? Aqui, o foco está no smartphone — e em como o que guardamos nele nos deixa vulneráveis.

Na trama, jovem (Alexander Petrov) sai da cadeia disposto a acertar as contas com quem o mandou para lá. Seu plano de vingança o deixa, por acaso, com o celular do seu algoz em mãos. Ao assumir a identidade do outro em mensagens de texto, ele desencadeia um audacioso jogo de gato e rato com traficantes.

A exemplo dos filmes anteriores, “O texto” não oferece solução mágica para os personagens e não está disposto a passar a mão na cabeça do espectador. Sua representação de sociedade repleta de mazelas aponta para instituições corrompidas, nada confiáveis, e para um angustiante sentimento de desespero.

A representação do universo do balé alimenta o drama “Bolshoi”, de Valeri Todorovsky, que recria, com abordagem às vezes semidocumental, os bastidores da escola da célebre companhia moscovita fundada no século XVIII. Em destaque, a amizade (e a rivalidade) entre duas jovens bailarinas ao longo de anos.

Os dramas do festival incluem “O francês” (2019), de Andrei Smirnov, que revisita em preto e branco a URSS pós-Stálin, e “O coração do mundo” (2018), de Natalia Meshchaninova (roteirista de “Arritmia”), sobre um jovem solitário que trabalha em fazenda de treinamento de animais.

A seleção traz ainda a desajeitada comédia romântica “Vamos nos divorciar” (2019), de Anna Parmas, e a animação “O reino gelado: terra dos espelhos” (2018), de Alexey Tsitsilin e Robert Lence, inspirada na mesma história de Hans-Christian Andersen que deu origem a “Frozen” e já exibida no Brasil em 2019.