Cinemas do Brasil pedem que governantes determinem fechamento contra o coronavírus

Giuliana de Toledo
Sala do Cine Roxy, em Copacabana, em foto de setembro de 2018

SÃO PAULO - Os cinemas do país, representados pela Feneec (Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas), estão pedindo o próprio fechamento diante da pandemia de coronavírus. Para isso, porém, fazem um apelo para que os governantes determinem que esses lugares encerrem as portas durante o surto.

Apesar de parecer contraditório, os locais dentro de shoppings em cidades ou estados que ainda não pediram a suspensão das atividades estão evitando tomar sozinhos a iniciativa de parar as atividades em razão dos contratos que têm com os centros comerciais. Pelo texto padrão, assim como as lojas, os cinemas têm o dever de permanecer abertos, sem poder determinar o próprio calendário, geralmente sob pena de multa.

Uma exceção são os casos de “força maior”, mas enquadrar as precauções contra o coronavírus nessa cláusula depende da “interpretação jurídica”, explica Caio Silva, diretor executivo da Abraplex (Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex), outra entidade do setor, que endossa a posição da Feneec.

— Seria muito melhor se houvesse uma determinação oficial para fechar — diz ele, que, apesar da situação confusa entre exibidores e proprietários de shoppings, nega que haja uma pressão dos donos dos centros de compras. A maior preocupação, afirma, é com a burocracia em si da discussão, que dá insegurança aos empresários.

A nota de apelo da federação, emitida na segunda-feira, também cita as complicações burocráticas como entrave. “Infelizmente o fechamento das salas por iniciativa das empresas demandaria negociações com cada uma das empresas administradoras de cada shopping onde existe uma sala de cinema, o que seria penoso e lento. Os shoppings pertencem a diferentes grupos econômicos, com participação de investidores, fundos de previdência, fundações e outros, o que demandaria diversas instâncias de negociação, resultando num prazo para solução dos problemas que a saúde pública não tem”, escrevem.

Procurada pela reportagem, a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) não comentou o posicionamento da Feneec até a conclusão da reportagem.

Nesta quarta-feira, o governador de São Paulo, João Doria, determinou que os shoppings da Região Metropolitana sejam fechados gradualmente, com o prazo máximo de segunda-feira (23). Os estados do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Goiás e a cidade de Salvador (BA), entre outros, também já adotaram medidas semelhantes.

Segundo Sérgio Sá Leitão, secretário de cultura e economia criativa do governo de São Paulo, apesar dos pedidos dos exibidores, não houve uma decisão focada nos cinemas da iniciativa privada no estado, porque a Procuradoria Geral paulista entendeu que não há base legal para isso, disse ao GLOBO na terça-feira.

Leia abaixo a nota completa da Feneec:

“A Feneec (Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas) vem a público pedir aos governadores e prefeitos que determinem o fechamento das salas de cinema de seus estados e cidades, na forma da lei. As empresas exibidoras entendem que a grave situação colocada pela pandemia da Covid-19 é urgente e demanda uma resposta rápida que somente o Estado está habilitado a tomar. Infelizmente o fechamento das salas por iniciativa das empresas demandaria negociações com cada uma das empresas administradoras de cada shopping onde existe uma sala de cinema, o que seria penoso e lento. Os shoppings pertencem a diferentes grupos econômicos, com participação de investidores, fundos de previdência, fundações e outros, o que demandaria diversas instâncias de negociação, resultando num prazo para solução dos problemas que a saúde pública não tem. O bem estar dos espectadores de cinema e dos funcionários das empresas de cinema é hoje a nossa prioridade”.