Circo Voador completa 40 anos na Lapa com show de Tom Zé e exposições

Lucinha Araújo não faz cerimônia ao recordar o que sentiu diante da empolgação de Cazuza, seu único filho, com a abertura do Circo Voador, no verão de 1982, ainda no Arpoador. “Não achava que ia dar muito certo. Mas, também, quem sou eu para achar alguma coisa, não é? Devia ter acreditado mais”, reconhece, sobre a casa de espetáculos que, contrariando as primeiras expectativas dela, acaba de completar 40 anos na Lapa. “O Cazuza chegou a levar a aparelhagem de som da nossa casa para as apresentações. O primeiro show do Barão Vermelho também foi lá, e eu me lembro de vender camisetas para ajudar os meninos.”

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O entusiasmo do roqueiro tinha lá suas razões. Ele participou, ao lado de Perfeito Fortuna, um dos idealizadores do Circo, das articulações para que o projeto ganhasse vida. “Estávamos tentando marcar uma reunião com o prefeito da época, Júlio Coutinho, mas não éramos recebidos”, narra Perfeito, então integrante do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. “O Cazuza descobriu que ele fazia cooper no Iate Clube. E lá fomos nós atrás dele.”

Da insistência dessa turma, que reunia também nomes como Bebel Gilberto e Márcio Galvão, ergueu-se a primeira estrutura. Foram dois meses de epifania no Arpoador, até o “rapa” da prefeitura desmontar tudo. A filosofia por trás da empreitada, porém, já havia criado raízes. “Tem a ver com o momento político em que nós, artistas, estávamos cansados de reclamar, em meio à ditadura. Queríamos realizar”, conta Perfeito, que, depois de muitas negociações com a prefeitura, conseguiu aterrissar a estrutura na Lapa, em outubro daquele ano. “Foi a concretização de uma ideia que não brigava com ninguém, abraçava todo o mundo.”

Ele permaneceu no Circo até o início da década de 1990 e hoje mantém a mesma filosofia na Fundição Progresso, também na Lapa. O vigor por trás dessas quatro décadas, afirma, é algo a ser exaltado. “As pessoas até hoje contam histórias do tipo ‘o Circo mudou a minha vida’ ou ‘conheci a minha mulher lá’. O que aconteceu ali interferiu em todos os movimentos culturais do Brasil.”

Diretora do Circo Voador desde 1991, Maria Juçá afirma que seus olhos continuam a brilhar por tudo o que acontece sob a lona, mesmo diante das dificuldades enfrentadas nos últimos anos. A casa ficou fechada durante todos os meses de isolamento da pandemia (“Já conseguimos nos reequilibrar financeiramente”, comemora) e enfrentou os ataques às instituições culturais que emergiram no país.

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Altos e baixos, porém, não são uma novidade por lá. Além de ter nascido em plena ditadura, o espaço chegou a ser fechado em 1996, depois de uma briga entre João Gordo, dos Ratos de Porão, e a comitiva do prefeito eleito, Luiz Paulo Conde. A estrutura foi, então, derrubada e, depois, reconstruída pela prefeitura, com a reinauguração em 2004. “Mesmo assim, está muito difícil manter os ânimos elevados. Estamos tirando a comemoração desses 40 anos a fórceps”, desabafa a diretora.

Para celebrar, os muros externos ganharam uma exposição com fotos em lambe-lambe de artistas que já passaram por lá, como Chico Buarque, Lenine, Xênia França e Pitty. Do lado de dentro, as palmeiras imperiais, doadas por Burle Marx em 1982, também receberam homenagens na forma de banners com declarações de amor escritas pelos frequentadores. “Essas palmeiras ‘ouvem’ as histórias mais doidas aqui. Cansei de ver gente abraçada a elas”, diverte-se Maria, ela própria testemunha de um bocado de casos.

Já viu Paulinho da Viola passando a própria roupa até não restar uma marquinha sequer e festas homéricas dadas por Tim Maia nos bastidores, regadas a uísque servido em bandejas de inox. “Ele não gostava de ficar no camarim antes do show, porque era ansioso. Mas, depois da apresentação, morava lá dentro. Só ia embora depois das 7h. Quando dizia que precisava fechar a casa, ele respondia: ‘Se você fizer isso, eu boto fogo no Circo’”, conta.

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As comemorações também têm se desdobrado em shows especiais ao longo do mês, com nomes como Duda Beat, Gilsons e Bala Desejo. Sábado será a vez de um gigante da música fazer as honras: Tom Zé sobe ao palco com o show de lançamento do álbum “Língua brasileira”. “Desde o início, fui descobrindo que as minhas apresentações eram bem recebidas lá”, afirma o cantor. “E a cada vez aumentavam o público e o entusiasmo. Vejo ser criada em mim uma visão do Circo como o lugar onde meu trabalho é diversão até para mim.

A mesma empolgação é compartilhada por Marina Lima, que hoje acha graça de ter nutrido uma certa implicância pelo lugar no começo da carreira. “Era muito restrito a bandas de rock masculinas, e eu achava que não tinha espaço para mim, uma mulher em carreira solo. Nunca era convidada para tocar lá e, então, não frequentava nem como público”, conta, em meio a risadas. Mas essa história mudou de rumo há dez anos, quando fez o primeiro show. “Tive a sensação de que eu e o Circo perdemos tempo. É um lugar emblemático da cidade. Subir naquele palco é como entrar para a Liga Carioca. Também assisti a shows memoráveis, inclusive internacionais, como o Franz Ferdinand.”

Marcelo D2 é outro artista a relatar as mais diferentes experiências. Xodó de Maria Juçá, ele próprio admite já ter pulado o muro por não ter grana para pagar os ingressos. “Lembro de ficar muito impressionado com o número de artistas que se via num só lugar. Escritores, poetas, diretores de cinema... Cheguei a ver show dos Ramones no meu aniversário e Tim Maia cantando ‘Sossego’, citando o meu nome no meio da música”, narra, mencionando também as experiências vivenciadas sobre o palco, com os shows históricos do Planet Hemp.

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Assim como D2 vivenciou a ascensão da própria carreira dentro do Circo, a casa segue abraçando nomes que despontam no cenário musical. Para muitos desses artistas, a temporada que se iniciou após os meses de isolamento tem sido especial. Letrux foi uma das primeiras a aterrissar por lá e apareceu no vídeo que celebrava a reabertura ao público. “O primeiro show foi caótico porque ainda era obrigatório usar a máscara”, recorda-se. “Mas pisar naquele palco e cantar foi emocionante, me deu fôlego para aguentar. E cá estamos!”

Dentro dessa retomada, Maria Juçá diz ter se emocionado particularmente com a apresentação de Djonga, um dos maiores nomes do rap contemporâneo. “Nunca vi alguém com tanta disposição para o enfrentamento”, afirma. “Ele vendeu seis mil ingressos em dois dias e, quando o vi no palco, entendi tudo.”

O mineiro, por sua vez, diz ter uma relação especial com o Circo e menciona a própria arquitetura circular como um ponto alto. “Ao mesmo tempo em que você está num lugar de show, parece estar na rua, em família, com a sua galera”, afirma. A história da casa, ele acrescenta, também entra na conta: “É um lugar onde Cazuza, um dos meus maiores ídolos, participou da fundação”.

Definitivamente, não tinha como dar errado.