Ciro faz aceno à esquerda e ao empresariado para tentar romper isolamento

GUSTAVO URIBE E MARINA DIAS
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Em convenção, Ciro defende bandeiras da esquerda para atrair PSB e PC do B

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Durante o lançamento oficial de sua candidatura ao Planalto, nesta sexta-feira (20) em Brasília, Ciro Gomes (PDT) fez um discurso calculado, com acenos ao empresariado mas, principalmente, a partidos de esquerda, para tentar romper com o isolamento em que se viu mergulhado nos últimos dias.

Rechaçado por empresários e com dificuldades de fechar alianças -nesta quinta-feira (19) Ciro perdeu o centrão para Geraldo Alckmin (PSDB) e não anunciou nenhuma sigla aliada no evento que chancelou sua candidatura-, o presidenciável do PDT convocou "todas as forças políticas que tenham espírito público" para transformar o Brasil. 

Apesar das inúmeras referências à necessidade de priorizar os que mais precisam, Ciro afirmou que as mudanças não serão feitas apenas pelos pobres e pela classe trabalhadora, mas também por aqueles que estão "na ponta da nossa indústria, produção e comércio".

"Não é só com os trabalhadores e os pobres, a quem devo primeiro a minha atenção, que acho que o Brasil precisa mudar. O colapso da economia brasileira atinge também, de forma grave, aqueles que estão na ponta da nossa indústria, e na produção ou no nosso comércio. Também para eles o projeto nacional de desenvolvimento é, de igual forma, urgente", declarou durante seu discurso de trinta minutos.

Há duas semanas, o presidenciável foi vaiado por empresários em evento promovido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) ao dizer que revogaria pontos da reforma trabalhista. Esta semana, ele causou mal-estar no setor ao enviar uma carta se posicionando pela interrupção das negociações entre Embraer e Boeing.

Depois de elencar números sobre desemprego, segurança e outros dados que, segundo ele, "doem no fundo da alma" mas refletem a dificuldade para a recuperação da economia, Ciro citou o ex-presidente Lula (PT) e disse que o povo já viu, "no passado recente, que é possível ser diferente quando o governo é conectado com o povo".

"Depois de tudo o que houve com o ex-presidente Lula, a nossa responsabilidade aumenta muito. São 207 milhões de pessoas que temos que vestir, empregar, garantir que se alimentem e tenham cuidado médico decente. Todas elas já viram no passado recente que é possível ser diferente quando o governo é conectado com o povo. Convidamos todas as forças políticas que realmente tenham compromisso com o Brasil, espírito público e amor ao nosso povo para nos ajudar a transformar nosso país", completou.

A fala de Ciro tem destinatário certo: PSB e PC do B, siglas mais alinhadas à esquerda com as quais têm negociado uma possível aliança. 

Após o revés que o fez perder o centrão -formado por DEM, PP, PR, SD e PRB-, o candidato tenta atrair os outros dois partidos e evitar o isolamento político total na corrida ao Planalto. Sozinho, Ciro tem apenas 33 segundos de tempo no horário eleitoral na TV.

Ele tenta unificar esse grupo depois de flertar com partidos de espectro mais à direita, e insiste na polarização com Jair Bolsonaro (PSL), que lidera as pesquisas sem Lula. Na convenção, Ciro fez referências ao capitão reformado sem citá-lo nominalmente, e disse que era preciso acabar com a política do "ódio".

Ainda durante seu discurso, Ciro disse que a geração de emprego é a "primeira e mais urgente" tarefa, caso seja eleito em outubro, e repetiu que "comete erros", mas "nenhum deles por desonestidade intelectual". "Querem desgastar o carteiro para que o brasileiro não leia a carta", disse em referência às críticas de que tem temperamento explosivo.