O que quer Ciro Gomes, afinal?

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Former presidential candidate Ciro Gomes attends a protest to demand the impeachment of Brazil's President Jair Bolsonaro and against his handling of the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil, September 12, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
O pré-candidato à Presidência pelo PDT, Ciro Goes. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Posso ser desmentido pelas próximas pesquisas, mas conheço um total de 0 pessoas que estão dispostas a abandonar Jair Bolsonaro ou alguma alternativa à direita ao capitão para dar um voto de confiança a Ciro Gomes após os ataques proferidos pelo ex-governador do Ceará aos ex-aliados petistas. A recíproca, porém, é verdadeira. 

Quem hesitava em dar um novo voto de confiança ao ex-presidente Lula e via em seu ex-ministro uma alternativa viável já não vê mais —ao menos é o que se percebe pelas manifestações majoritárias das redes sociais (de novo, posso ser desmentido quando institutos de pesquisa forem a campo para apurar o cômputo expandido das avaliações).

A estratégia do pré-candidato do PDT está clara. Ele quer se descolar do campo progressista para se colocar como a melhor opção anti-Lula até 2022. Por contraditória que pareça, a ideia é obter votos não da esquerda frustrada com o PT, mas dos bolsonaristas arrependidos que já não veem no atual presidente a figura adequada para o enfrentamento que se desenha.

A um ano e um mês da eleição, é um balão de ensaio compreensível, mas que exige uma delicadeza de gestos e jogo de cintura que Ciro já demonstrou não ter.

Em uma entrevista, o ex-ministro de Lula disse acreditar que o ex-aliado conspirou para a queda de Dilma Rousseff em 2016. Como resposta, recebeu um sermão da ex-presidenta, que o acusou de mentir e mergulhar no fundo do poço para reverter a sua baixa aprovação popular.

A tréplica fez Ciro voltar à carga. Pelas redes, ele reafirmou que Lula foi um dos maiores responsáveis pela desestabilização do governo de sua sucessora. E apontou “movimentos erráticos” que resultaram em sua queda.

Aparentemente, Ciro queria apontar a contradição do atual favorito nas pesquisas ao repetir movimentos de reaproximação com os mesmos grupos que, estes sim, conspiraram contra Dilma. A começar pelos próceres do atual MDB.

Era um ponto.

Mas, da forma como foi exposto, se tornou um desastre de comunicação completo. Ciro deu munição para quem desconfiava de sua conversão ao estilo soft, paz e amor, que envolvem piscadelas a grupos conservadores e líderes religiosos, como Júlio Lancelloti, convidado recente de suas lives.

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Como resposta à ex-aliada, Ciro disse ter errado quando lutou contra o impeachment de “uma das pessoas mais incompetentes, inapetentes e presunçosas que já passaram pela presidência”. Detalhe: o impeachment que ele agora referenda abriu o caminho para a reforma trabalhista, o teto de gastos, as intervenções militares nas favelas, a política de preços da Petrobras e tudo o mais que ele mesmo vem criticando desde então.

Sobrou o quê?

Com a postagem, Ciro selou um caminho sem volta e de difícil acesso até 2022. Parece improvável imaginar que quem saiu às ruas em defesa do impeachment vai se encantar agora com a nova fantasia, a de antipetista-raiz, que Ciro desfila em praça pública. Ciro, vale lembrar, foi ministro de Lula, é sócio de uma das vitrines do governo petista, a transposição do rio São Francisco, e até outro dia se posicionava como um dos grandes críticos do processo que levou o ex-presidente à prisão.

Se a ideia era avacalhar os ex-aliados, a memória recente dos eleitores não permitirá contradições. Para isso existem opções genuínas como o próprio Bolsonaro, antipetista antes mesmo de virar modinha, e seu provável desafiante que sairá das prévias do PSDB. Todos disputam o posto de candidato anti-Lula sem um histórico de alianças a pesar sobre a coerência.

A nova troca de farpas entre Ciro e o PT encerra antecipadamente um mal ajambrado ensaio de cessar-fogo, que se tornou imperativo quando ele foi hostilizado nos protestos organizados pela esquerda em favor do impeachment e da democracia.

Dias antes, Ciro havia colocado as diferenças com o MBL de lado para participar de outra manifestação, esta à direita do campo onde circulou nas duas últimas décadas. Lá ele tem transitado sem riscos de vaias. Mas certamente não figurará entre as preferências de quem vê no mesmo palanque representantes do Novo, do União Brasil (a junção de PSL com DEM) e do próprio PSDB.

Periga ficar no vácuo.

Não faz muito tempo, Ciro era o típico candidato que, com ou sem chances de ser eleito presidente, ajudava a qualificar o debate em torno de ideias e justiça social. Devia isso aos conselhos do filósofo Roberto Mangabeira Unger, um pensador dos dilemas brasileiros contemporâneos que talvez não sobreviva à barafunda das redes sociais onde o ex-governador cearense tenta surfar.

O posto agora é ocupado agora por uma plataforma eleitoreira que tem como estrategista o publicitário João Santana, considerado um mago das campanhas petistas —e que se tornou, ele mesmo, um figura hostil e hostilizada pelo partido após o tratoraço da Lava Jato.

Preso, investigado e condenado, Santana parece ter colocado o próprio ressentimento no centro da fórmula que, acredita ele, pode transformar Ciro em uma opção viável ao favoritismo de Bolsonaro e Lula.

Tem tudo para dar errado.

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