Ciro acena para eleitores cristãos em busca da vida pós-eleição

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Presidential candidate Ciro Gomes attends a televised debate in Sao Paulo, Brazil September 30, 2018.   REUTERS/Nacho Doce
Ciro Gomes durante a campanha de 2018. Foto: Nacho Doce/Reuters

Na semana passada, o ex-presidente Lula se encontrou e posou para fotos ao lado do bispo primaz da Assembleia de Deus.

Ciro Gomes, seu provável concorrente na disputa, postou no Twitter um vídeo com a Bíblia em uma mão e a Constituição, em outra. A mensagem era que os livros não eram conflitantes.

Os acenos da esquerda em direção ao eleitorado cristão são uma prévia do que deve acontecer nas eleições de 2022.

Os gestos indicam que a religião terá, mais do que nunca, assento central nos debates sobre a sucessão.

Mostram também que, seja quem for o vencedor, a margem para pautas que desagradem a base cristã do eleitorado (aborto, direitos igualitários, leis anti-homofobia), será mínima.

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Com Jair Bolsonaro, essa margem é igual a zero. Em 2018, ele soube dialogar com o chamado campo conservador e lá fixou sua trincheira com o slogan “Deus acima de todos”.

Enquanto os adversários tentam construir pontes, o presidente abre espaço em seu governo para lideranças religiosas, casos de Damares Alves (Mulheres) e Milton Ribeiro (Educação), e promete indicar para o Supremo Tribunal Federal um ministro “terrivelmente evangélico”.

Isso não significa que o campo está consolidado.

Lideranças progressistas veem no cristianismo manifestado pelo presidente a mesma autenticidade de uma nota de R$ 3. Sobretudo num trecho determinante do Novo Testamento. O que versa sobre amar ao próximo como a ti mesmo. Na leitura bolsonarista, a norma cristã não vale para quem faz perguntas incômodas.

Em seu último levantamento, o Datafolha mostrou um empate técnico entre Lula e Bolsonaro se fossem às urnas apenas os eleitores evangélicos.

Ciro tenta cavar seu espaço numa disputa em que os dois favoritos somam quase 70% das intenções de voto entre todos os segmentos sociais.

Para isso, tem deixado de lado a postura agressiva e o linguajar técnico, duas marcas de sua personalidade, e dado ouvidos ao publicitário João Santana.

Certamente a lição número 1 do ex-marqueteiro das campanhas petistas é uma observação básica de qualquer aula de sociologia para iniciantes: quem não entendeu a dinâmica e a complexidade da religião no Brasil não entendeu o Brasil. A lição número dois é que não se ganha eleição sem essa compreensão.

Em 2018, uma pesquisa Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que oito em cada dez brasileiros (79%) concordam total ou parcialmente que é importante, para um candidato a presidente, acreditar em Deus. Isso embora apenas 29% dos eleitores digam que é importante, para esse candidato, ter a mesma religião que eles.

Há exatos dez anos, o Brasil aparecia em terceiro lugar em um ranking entre nações onde mais se acreditava em Deus. A maioria dos entrevistados (51%) diziam crer “definitivamente” em uma entidade divina. O país ficava atrás apenas da Indonésia e da Turquia.

Ninguém arriscaria dizer que o país se dessacralizou de lá pra cá. Pelo contrário. Hoje é praticamente possível discutir política sem religião e vice-versa.

Sem essa compreensão, não existe vida após as eleições para qualquer candidato.

Em tempo. Osmar Terra, símbolo do terraplanismo sanitário do governo durante a pandemia, fez na CPI o que mais tem feito nos bastidores do governo: espalhar desinformação e previsões equivocadas sobre uma doença que, apostava ele, mataria no máximo 4 mil pessoas no país. Muita gente subestimou a gravidade da situação, mas mudou de ideia diante dos fatos. Não parece ser o caso do ex-ministro da Cidadania e conselheiro informal do presidente. Ao fim de seu depoimento, a única conclusão possível é que o problema do país não é o que ele diz. É quem dá ouvidos ao que ele diz.

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