Declaração sobre aborto pode selar o divórcio de Ciro Gomes com o campo progressista

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Ciro Gomes walks during the national convention of the Democratic Labor Party (PDT), in Brasilia, Brazil January 21, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
O pré-candidato do PDT à Presidência Ciro Gomes. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Se estivesse passando por uma esteira de raio-X para identificar posição política, Ciro Gomes teria demonstrado afinidade com o campo progressista ao dizer, na sabatina realizada pela Folha de S.Paulo e o portal UOL, na quarta-feira (20/4), que era contra a flexibilização do porte de armas, a privatização da Petrobras, a independência do Banco Central e a reforma trabalhista e a favor das cotas raciais e da instituição de um programa de renda mínima no país.

A mesma esteira de raio-X teria mostrado, porém, um pezinho direito atolado no campo conservador ao identificar posições favoráveis do pré-candidato do PDT à Presidência em relação a prisão após condenação em segunda instância e contra a legalização da maconha.

Mas o que um eventual eleitor identificado com o campo conservador e que não necessariamente abraça Jair Bolsonaro deve ter gostado mesmo foi de ter ouvido o pedetista dizer que o aborto é “uma grande tragédia humana e social”.

A estratégia do pré-candidato vai ao encontro de seu diagnóstico sobre o eleitor brasileiro —que, segundo ele, apoia medidas à esquerda na economia e à direita nos valores.

Não foi a primeira vez que Ciro chamou a questão do aborto de “tragédia”.

Ciro tem por propósito não confrontar a população cristã e católica do Brasil, como disse em uma entrevista em 2018. Naquele ano, ele declarou não ser tarefa do presidente, e sim do Congresso, discutir o tema.

Ao ser questionado novamente sobre o assunto, ele voltou a dizer que não era papel do presidente responder isso. Repetiu também que o aborto é uma “grande tragédia humana e social” e que a grande questão era saber sobre qual o papel do Estado em relação a ela.

Ao se esquivar da casca de banana, ele a arremessou em direção ao adversário petista, a quem não poupou em momento algum da sabatina. “Ninguém pode ser a favor do aborto, só o Lula. Em sua leviandade de quem mandou no Brasil por 14 anos, se apresenta agora simplificando essa questão e aí (leva) o Bolsonaro ganha 4 pontos na pesquisa.”

Ciro não teve tempo nem espaço para aprofundar a questão que disse ter sido simplificada pelo rival, mas a demarcação de território ficou evidente.

Se em 2018 ele se tentou se apresentar como a alternativa à esquerda mais confiável do que Fernando Haddad, herdeiro dos votos de Lula mas também do antipetismo em disputa, dessa vez ele vai a campo sem tanto pudor em pedir votos à direita.

Para isso, topa marchar ao lado de lideranças como Luciano Bivar, presidente do União Brasil responsável por incubar o projeto bolsonarista no ventre de seu antigo PSL, partido nanico que lançou o capitão à disputa em 2018 e saiu dela com a maior bancada da Câmara. Ao se juntar ao DEM, a legenda passou a ter o maior naco dos fundos partidário e eleitoral.

Bivar é o mesmo líder político que via uma “alma íntegra” em Jair Bolsonaro e o classificava como representante do que há de mais verdadeiro e contundente contra o status quo e o politicamente correto.

Em artigo publicado naquele ano no site do PSL, ele defendia que era hora de “passar uma borracha no passado” e lamentava que o Brasil havia perdido o senso de autoridade, de justiça, de trabalho, de limites, de ordem e progresso”. “Hoje, sofremos com a relativização dos valores sociais, morais e éticos”, cravou o dirigente antes de ser “queimado” pelo capitão.

Ciro, ao ser questionado em 2018 sobre os temas que poderiam confrontá-lo com a moral religiosa nacional, ao menos defendia que o Estado não tinha nada que se meter para agravar a “tragédia” do aborto, e sim proteger, agasalhar, aconselhar e arranjar alternativas de adoção para quem deveria ser a única responsável pela decisão: a mulher.

Por escassez de tempo ou espaço no programa de governo, esse adendo não apareceu em seu comentário na última sabatina.

Talvez porque não queira correr o risco de dar mais quatro pontos a Bolsonaro numa disputa em que ele já nada de braçada. Ou porque esteja em fase de testes para, quem sabe, conseguir amarrar em seu barco quem estava alimentando e cortejando o capitão na última eleição.

Ciro, mesmo mantendo posições que o identificam ainda com o campo progressista, parece ter priorizado a busca pelos votos dos 70% dos brasileiros que são ex-bolsonaristas, em suas contas. A guinada à direita não seria exatamente uma guinada, mas uma repaginação menos envergonhada de quem já foi ministro de Fernando Henrique Cardoso e do próprio Lula.

O risco é deixar o ex-chefe nadar sozinho em um campo onde Ciro mais poderia avançar. A declaração sobre o aborto e a proibição das drogas é quase um pedido de divórcio com os eleitores progressistas não identificados com o petista.

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