Ciro Nogueira desenha estratégia de Bolsonaro para a campanha presidencial

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Brazil's President Jair Bolsonaro and his Chief of Staff Ciro Nogueira gesture during a ceremony to commemorate Forro Day, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil December 13, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro com seu ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Quem quiser entender como será a estratégia de Jair Bolsonaro para reverter o favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva apontado nas pesquisas de intenção de voto tem nas declarações recentes de Ciro Nogueira, cacique do PP atualmente alojado na Casa Civil, algumas pistas.

Essas pistas já haviam sido lançadas em artigos recentes assinados pelo ministro. Em um deles, o ex-aliado de Lula fez referência ao filme “Não olhe para cima” –que o próprio diretor, Adam Mckay, disse cair como uma luva, ou cometa, nas mãos de Jair Bolsonaro – para conclamar os eleitores a visualizar o dia seguinte de uma possível vitória do PT nas urnas. Nesse dia seguinte, escreveu, sentiríamos uma guinada em direção à Venezuela. É um velho recurso usado pelas hostes bolsonaristas para atacar os adversários toda vez que faltam ideias, e fatos, para apresentar ao público.

Em entrevista ao jornal Globo, as pistas de Ciro Nogueira ganharam formas mais nítidas. Pelo que ele deixa entrever, está em gestação no berço bolsonarista –esse encontro de cotovelos e cotoveladas no balaio onde se aninham líderes do centrão, militares e os (agora) órfãos do olavismo – uma mitologia segundo a qual a pandemia, uma enfermidade epidêmica mundialmente disseminada, por definição, só existiu no Brasil. Não fosse o coronavírus, “estaríamos perto da China”, nas palavras do ministro. Como se a China, onde os primeiros casos de Covid-19 foram registrados, aliás, e outras nações, hoje mais bem posicionadas no grid da retomada, também não tivessem enfrentado a doença.

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Na mitologia inventada por Nogueira, Jair Não Sou Coveiro Bolsonaro soube enfrentar a pandemia tão lindamente que a população nem precisou sair por aí promovendo saques e violências. Ele atribui a nota alta ao sucesso do auxílio emergencial, que o próprio Congresso teve de tirar do orçamento no muque diante da resistência da ala econômica do governo. A ideia inicial era distribuir R$ 200 de auxílio, com hora para acabar. Isso antes de Bolsonaro perceber que tinha na mão um ativo eleitoral para atravessar a tormenta caso conseguisse estourar o teto de gastos e jogar o pagamento das dívidas dos precatórios para o futuro distante.

Acontece que nada menos do que 80% dos eleitores dizem desaprovar o trabalho de Bolsonaro no combate à pandemia, segundo pesquisa Quaest/Genial. É contra essa percepção ampla e até aqui consolidada que Nogueira e companhia pretendem martelar a sua própria versão dos fatos.

O ministro se antecipa a uma possível aliança entre o PT e Geraldo Alckmin para conquistar os eleitores do centro que, ele sabe, serão cruciais na campanha. “O Lula que conheço e que vão conhecer na campanha é o Lula da Gleisi, do Zé Dirceu, do Vaccari. Esse é o Lula que tem muito mais identificação com Maduro do que com Macron”, aposta.

Outro fantasma que o estafe bolsonarista fará questão de colocar no centro da roda é Dilma Rousseff, apontada na entrevista como responsável pela “maior recessão da nossa história sem pandemia”.

O ministro aposta que essa associação, quando jogada nos ventiladores da campanha, vão afugentar os eleitores e fazer os votos migrarem automaticamente para Bolsonaro.

O próprio Bolsonaro tem usado a escada montada pelos neoaliados para oferecer um exercício de suposição ao eleitor: se está ruim, imagina se fosse outro o presidente?

Na falta de algum feito para apresentar, Nogueira confidencializou que está a cargo dele apresentar um projeto para a redução da maioridade penal – um canto da sereia que, num ano de eleições, em que reformas e grandes programas devem ser escanteados pelo Congresso, pode fidelizar ou ampliar a base conservadora do eleitorado.

Torcidas e espremidas, as cartas são mais ou menos essas. Chama atenção, na entrevista, o tempo gasto pelo ministro para justificar as escolhas sinceras e desinteressadas que levaram Bolsonaro e centrão ao colo um do outro. Ali, ele parece se antecipar aos ataques relativos às contradições entre o que fez Bolsonaro no governo e o que ele prometia em 2018.

Apoio em troca de cargos e dinheiro? Imagina, “os partidos estão no governo porque têm identificação com o projeto do presidente Bolsonaro”.

Emendas secretas? “Não existe essa história”. Afinal, “tudo está sendo executado com total acompanhamento da mídia e da população”, que num jogo de dedução já demonstraram capacidade para saber que se uma emenda chega até a cidade de Pedro II, onde o entrevistado nasceu, a única conclusão possível é que foi ele quem indicou.

Avanço do centrão/Casa Civil sobre a Economia? Não, Ciro está apenas aliviando Paulo Guedes do trabalho de dizer “não” aos aliados. “Além de amortecedor (das relações com outros Poderes, como prometia ao assumir a Casa Civil), agora eu sou um para-raio do Posto Ipiranga”.

Ah, bom.

Curioso que o porta-voz da estratégia bolsonarista para a campanha seja um ex-senador que já declarou que nem atende os telefonemas do ex-aliado Lula porque “ele é irresistível”.

O mesmo Ciro que até outro dia chamava o novo chefe de fascista e preconceituoso conta que mudou de opinião ao conhecer Bolsonaro de perto e se encantar por seu projeto. Um projeto que deu ao centrão poder inédito de decisão sobre o orçamento em troca de apoio e governabilidade.

Se a conversa não emplacar, o neoaliado poderá dizer que não foi por falta de tentativa.

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