Ciro, Tebet e Bivar se fragilizam com partidos fragmentados e palanques dissidentes

*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 21.01.2022 - Ciro Gomes durante lançamento de sua pré candidatura pelo PDT. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 21.01.2022 - Ciro Gomes durante lançamento de sua pré candidatura pelo PDT. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - A desistência do ex-governador de São Paulo, João Doria (PSDB), estreitou as candidaturas de centro à Presidência da República, mas não reduziu os desafios dos pré-candidatos que devem concorrer com o presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em outubro.

Mesmo com recursos robustos do fundo eleitoral e um grande contingente de deputados, prefeitos e vereadores país afora, Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB) e Luciano Bivar (União Brasil) enfrentam divisões internas, palanques duplos e até esvaziamento dentro de seus próprios partidos.

Os três terão como desafios frear a debandada de aliados, conquistar palanques fiéis nos estados e conseguir mobilizar uma militância que consiga medir forças com apoiadores do presidente e do ex-presidente, dois líderes com uma ampla base social.

Disputando a Presidência pela quarta vez, Ciro Gomes é o único dos três pré-candidatos de partidos de centro que tem uma militância mais orgânica nas ruas e, principalmente, nas redes sociais.

Seu ponto fraco para a eleição deste ano são os palanques frágeis na maioria dos estados. Dentre os maiores colégios eleitorais, o PDT concorrerá a governos estaduais com nomes competitivos apenas no Ceará, Rio de Janeiro e Maranhão.

No Ceará, base eleitoral de Ciro, o partido vive uma crise com o PT em torno da escolha do candidato à sucessão.

De um lado, os petistas endossam a reeleição da governadora Izolda Cela (PDT), que ascendeu ao governo em abril com a renúncia de Camilo Santana (PT). Do outro, o núcleo mais ligado aos irmãos Ferreira Gomes defende a candidatura de Roberto Cláudio (PDT), ex-prefeito de Fortaleza.

A disputa interna na coalizão escalou nas últimas semanas, com ameaças de rompimento de lado a lado. Caso a parceria se mantenha, Ciro terá que dividir o palanque cearense com o ex-presidente Lula.

No Rio e no Maranhão, os pré-candidatos do PDT flertam abertamente com a candidatura petista ao Planalto.

Em sabatina ao UOL e à Folha de S.Paulo, Rodrigo Neves, pré-candidato ao Governo do Rio, criticou os ataques de Ciro a Lula e disse que o petista foi "o melhor presidente do Brasil desde a redemocratização".

No Maranhão, o senador Weverton Rocha (PDT), pré-candidato ao governo, tem o apoio de uma parcela do PT e fechou nesta terça-feira (24) uma aliança com o PL, partido de Bolsonaro.

Com os novos apoios, deixou a eleição nacional em segundo plano. Em vídeo gravado para apoiadores de Imperatriz, cidade com economia ancorada no agronegócio e forte viés bolsonarista, Weverton deixou claro sua estratégia.

"Não quero nem saber quem vai ser o próximo presidente da República. Eu vou bater na porta e lutar pelo desenvolvimento não só do sul do Maranhão, mas de todo o nosso estado", afirmou.

Mesmo com palanques divididos nos estados, o partido aposta na força da militância e no plano de governo de Ciro para mobilizar a militância, conquistar novos eleitores e alavancar a votação para a Presidência e para o Congresso Nacional.

Partido de porte médio, o PDT tem 19 deputados, 1 governador, mais de 300 prefeitos eleitos em 2020 e terá cerca de R$ 250 milhões de fundo eleitoral, segundo estimativa da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político).

Pré-candidata ao Planalto pelo MDB, a senadora Simone Tebet enfrenta cenário semelhante, com dissidências dentro de seu próprio partido e conflitos nos estados com os potenciais aliados PSDB e Cidadania.

A senadora é encarada como um nome leve e que pode ser apoiado nos estados sem gerar rejeição para os candidatos locais.

Por ser uma candidatura feminina, também não gera discussões quanto ao uso do fundo eleitoral, já que 30% desses dos cerca de R$ 350 milhões que o partido terá de fundo eleitoral deve ser obrigatoriamente usado em candidaturas de mulheres.

Por outro lado, aliados avaliam que falta à senadora musculatura política para garantir o engajamento dos aliados em sua campanha ao Planalto. Mesmo a parceria com o PSDB ainda é uma incerteza, já que grupos tucanos resistem a priorizar a senadora sul-mato-grossense.

Os rachas nos estados também não ajudam. A trinca MDB, PSDB e Cidadania só está junta em torno de um nome próprio apenas no estado de São Paulo, com a pré-candidatura à reeleição do governador Rodrigo Garcia (PSDB).

Mas união não é garantia de engajamento na campanha de Simone Tebet, já que Rodrigo tem em seu arco de alianças partidos que vão apoiar Bolsonaro, caso do PP.

Em outras cinco unidades da federação, por outro lado, a expectativa é de embates diretos entre os partidos da coalizão, caso do Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Amazonas e Rio Grande do Sul.

Neste último, ainda há chance de composição entre PSDB e MDB caso o ex-governador tucano Eduardo Leite decida concorrer a um novo mandato em outubro.

Presidente nacional do MDB, o deputado federal Baleia Rossi (SP) vê com otimismo a pré-candidatura de Tebet. Ele diz que pesquisa que balizou a escolha da senadora mostrou que 59% dos brasileiros consideram a polarização ruim para país e e 40% do eleitorado quer "uma novidade com experiência".

Ele ainda afirma que as negociações para alinhamento nos estados ficarão para um segundo momento: "As conversas com o PSDB estão muito avançadas. Precisamos concluí-las para, a partir daí, nos voltarmos para os estados", diz.

Mas o partido ainda precisa enfrentar dissidências internas: no Nordeste, por exemplo, os diretórios do MDB dos nove estados estarão em palanques ligados ao ex-presidente Lula.

Mesmo em estados da região onde o partido terá candidatura própria, caso de Alagoas e da Paraíba, a ordem unida é de apoio a Lula. Os diretórios do Ceará e Piauí também darão apoio ostensivo ao presidenciável petista.

Pré-candidato a governador da Paraíba, o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) elogiou a pré-candidata a presidente de seu partido, disse que está aberto a recebê-la no estado, mas reafirmou sua posição de apoio à Lula.

"Posso recebê-la na Paraíba. Mas o fato de recepcioná-la não significa alteração de rumos do MDB local que apoia, convictamente, com segurança do que está a fazer, Lula", disse em entrevista à Arapuan FM, na segunda-feira (23).

Fora do Nordeste, em estados onde o MDB tem candidatos competitivos, caso de Roraima, Amazonas e Pará, os aliados devem apoiar Tebet, mas manterão uma postura de menor engajamento na campanha nacional para buscar votos tanto de lulistas como de bolsonaristas.

Até mesmo em Mato Grosso do Sul, seu estado natal, Tebet não é unanimidade. Em sua pré-campanha ao governo do estado, o ex-governador André Puccinelli não faz menções à presidenciável do seu partido.

Ambos eram politicamente próximos: Tebet foi vice-governadora de Puccinelli entre 2011 e 2014. Mas a relação entre os dois estremeceu em 2018, quando a senadora desistiu de assumir a candidatura ao governo do estado após o ex-governador ter sido preso.

Apadrinhado pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB), o pré-candidato tucano Eduardo Riedel já abandonou uma possível candidatura da terceira via e informou que está "fechado com Bolsonaro". O presidente deve retribuir o apoio ao tucano nos próximos dias.

O marido de Tebet, o deputado estadual Eduardo Rocha (MDB), é secretário de Governo da gestão Azambuja e deve estar no palanque de Riedel.

A candidatura ao Planalto de Luciano Bivar (União Brasil) é a que possui maior nível de isolamento e grandes chances de ser cristianizada –jargão político que remete a Cristiano Machado, candidato a presidente em 1950, que sucumbiu com adesão dos correligionários a outro candidato.

O partido criado a partir da fusão do PSL e do Democratas vai para a eleição como a legenda mais rica do país, com um fundo de financiamento de campanhas estimado em R$ 770 milhões.

Por outro lado, deve ir para a eleição como um candidato à Presidência com baixa taxa de conhecimento do eleitorado e baixo engajamento nas redes sociais.

A União Brasil não tem a eleição presidencial como foco principal e mira as suas energias para ampliar a bancada no Congresso Nacional e eleger governadores.

Com ao menos 13 pré-candidatos a governos estaduais, o partido se move de acordo com as conveniências locais.

Três governadores do partido que devem concorrer à reeleição anunciaram que vão apoiar o presidente Jair Bolsonaro: Mauro Mendes (Mato Grosso), Wilson Lima (Amazonas) e Marcos Rocha (Rondônia).

Os pré-candidatos a governador do partido em estados da região Nordeste, caso de ACM Neto (Bahia), Rodrigo Cunha (Alagoas), Miguel Coelho (Pernambuco) e Sílvio Mendes (Piauí) vão no sentido contrário e buscam distanciamento do presidente em uma região na qual ele tem baixa avaliação.

Em sabatina à Folha de S.Paulo e ao UOL nesta quarta-feira (25), ACM Neto afirmou que deve votar em Bivar "como cidadão", mas manterá o seu palanque aberto na Bahia.

"Não vamos assumir um palanque. Nós não vamos fechar com uma candidatura apenas em respeito à essa construção mais ampla que está acontecendo. Isso não significa nenhuma divergência com o presidente Luciano Bivar, ele respeita a nossa decisão aqui na Bahia", afirmou.

A tendência é que o cenário se repita em estados como Goiás e Santa Catarina, onde a União Brasil terá candidatos competitivos em âmbito estadual.

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