Ciro tem que criticar Bolsonaro e parar de atacar Lula, diz deputado Túlio Gadêlha, do PDT

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***FOTO DE ARQUIVO*** RECIFE, PE, 18.04.2018 - Túlio Gadêlha, namorado de Fátima Bernardes. (Foto: Bernardo Dantas/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** RECIFE, PE, 18.04.2018 - Túlio Gadêlha, namorado de Fátima Bernardes. (Foto: Bernardo Dantas/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Filiado ao PDT desde 2007, o deputado federal Túlio Gadêlha (PE) discorda da estratégia do presidenciável do partido, Ciro Gomes, de atacar o ex-presidente Lula (PT), apostando no derretimento de Jair Bolsonaro (sem partido) e na ausência dele no segundo turno da corrida ao Planalto em 2022.

"Ciro tem que criticar Bolsonaro e parar de atacar Lula. Ciro não vai conquistar os votos de [eleitores de] Bolsonaro", afirma o parlamentar à reportagem, por telefone, do Recife.

Ciro já combatia Bolsonaro, mas passou a mirar Lula com mais afinco desde a volta do petista ao páreo, em março. Para Gadêlha, que defende soma de forças do chamado campo progressista, o caminho ideal seria o de reconciliação com o ex-presidente.

O deputado, que reclama de falta de democracia interna no PDT, teve divergências com o comando do partido nas eleições municipais de 2020 e se afastou de Ciro e do presidente da sigla, Carlos Lupi.

Eleito em 2018, após se tornar conhecido nacionalmente como namorado da apresentadora da TV Globo Fátima Bernardes, Gadêlha analisa se tentará mais um mandato. "Não sei se terei fôlego e saúde mental para aguentar mais quatro anos de Bolsonaro", diz, revelando temor com a chance de reeleição.

O presidenciável do PDT teve 6% de intenções de voto no primeiro turno na mais recente pesquisa do Datafolha, atrás de Lula (41%), Bolsonaro (23%) e do ex-juiz Sergio Moro (7%).



PERGUNTA - Como vê a movimentação de Ciro e do PDT para 2022?

TÚLIO GADÊLHA - Não tenho achado que seja uma estratégia interessante os ataques ao Lula. No momento em que mais o país precisa de estadistas para vencer esta crise, vemos as nossas maiores referências entrarem em conflito. Isso tem me preocupado e me afastado desses projetos. Até o [Leonel] Brizola, para usar uma referência do PDT, dizia que o campo progressista dividido é escada para a direita conservadora subir. E é isso que está acontecendo.

Como pedetista, considera que a legenda deva ter nome? A candidatura de Ciro é legítima?

TG - Com certeza, a candidatura de Ciro é legítima, é necessária. Acho que, [sobre] ter candidatura, cabe avaliar, discutir o momento. Tanto PDT quanto PT têm que fazer essa avaliação. Em 2018, não estávamos atravessando uma pandemia nem passando por um período de uma política genocida.

Vivemos hoje um momento completamente diferente: extermínio da população brasileira, desemprego em níveis inimagináveis, a retirada de direitos da população mais carente, a destruição das políticas públicas, a entrega do Estado brasileiro, das suas riquezas naturais.

E o que propõe?

TG - A nossa insistência é em tentar se discutir uma via desse campo progressista que seria imbatível: uma chapa construída por Lula e Ciro, ou por Ciro e Lula. Qual outro candidato hoje no cenário nacional enfrentaria essa aliança com chances reais de vencer?

As críticas concomitantes de Ciro a Bolsonaro e a Lula podem ter algum efeito prático, atraindo, por exemplo, um eleitorado mais à direita?

TG - Acho que os bolsonaristas arrependidos não são suficientes para levá-lo ao segundo turno. O bolsonarismo ainda é muito forte no país e há muitos defensores do governo, por incrível que pareça. E acreditar em um segundo turno entre Lula e Ciro é viver uma ilusão.

Qual é, então, seu pleito em relação à pré-candidatura de Ciro?

TG - Ciro tem que colocar a candidatura dele, tem que defender o projeto nacional de desenvolvimento, que nós tanto falamos, tem que dialogar com outros partidos, mas tem que criticar Bolsonaro e parar de atacar Lula. Ciro não vai conquistar os votos de [eleitores de] Bolsonaro. Ele pode conquistar os votos dos 40% de indecisos, e para isso não precisa atacar Lula.

O sr. saudou a informação de que Lula e Ciro se encontraram em 2020 e chamou o gesto de "o começo do fim do governo Bolsonaro". Por que acha que houve essa cisão?

TG - Esse distanciamento se deu pelos olhos de ambos em pesquisas, que apontam para direções diferentes de uma aproximação. Ciro teria condições se buscasse composição com o Lula. Parece mais uma disputa de vaidade do que qualquer outra coisa. E isso é muito ruim. O Brasil perde com isso.

O PT poderia fazer como foi feito na Argentina [onde a ex-presidente Cristina Kirchner concorreu como vice]: entender que existe um momento de rejeição muito grande e tentar compor com outra liderança que dialogue com as pautas que o partido defende.

Lula almoçou com Fernando Henrique Cardoso [PSDB], com quem rivalizou nas últimas sete eleições.

TG - É disso que estou falando. Para vencer o bolsonarismo, precisamos unir forças. E infelizmente o que a gente tem visto é divisão.

Temos a oportunidade de tirar de uma vez por todas o bolsonarismo, mas a fratura do campo progressista pode dar mais quatro anos de governo para Bolsonaro. Imagine o pesadelo. Nunca um governo demorou tanto para passar. Mais importante para o Brasil hoje é tirar Bolsonaro. Eu avalio dessa forma.

Ciro acha que pode ser a terceira via e, por isso, acena à centro-direita e aos liberais. É o caminho?

TG - A polarização se tornou ainda mais aguda após a volta de Lula, o que dificultaria a consolidação de uma terceira via, segundo as pesquisas.

Mas uma terceira via que combine as forças de centro e um projeto progressista, para mim, é uma contradição. As forças de centro nunca foram progressistas, são conservadoras. Se Ciro está em um partido que defende um Estado robusto para combater as desigualdades do país, mas se alia a um grupo político que não entende que esse deva ser o caminho, há um erro ou na construção do programa ou na construção das alianças.

Ele vai ter que ter muito jogo de cintura para responder sobre essa equação. De que lado, de fato, ele estará? Eu sei de que lado o PDT está, pela sua história, pelos seus líderes, pela sua tradição. Mas essa tentativa de se buscar a direita compromete muito o discurso de Ciro Gomes.

Ciro costuma falar que a candidatura dele é algo pacificado no PDT. Como isso é tratado internamente? O sr., como deputado, é ouvido?

TG - Olha, o PDT tem um problema grave que há muitos anos tentamos sanar, que é a falta de democracia interna. Em grande parte dos estados existem comissões provisórias nas direções partidárias. Aqui em Pernambuco, a gente vive uma comissão provisória há 27 anos.

O sr. levantou esse debate quando entrou em conflito com a legenda na eleição do Recife em 2020. [O partido deixou de lado a pré-candidatura de Gadêlha para se aliar a João Campos (PSB). Gadêlha declarou apoio a Marília Arraes (PT) no segundo turno.]

TG - Um partido, se não tem diretório eleito, não tem filiados participando ativamente dos rumos e das discussões. Quando se tem uma comissão provisória, na prática é a instância superior que decide.

Isso dificulta a interlocução com a direção nacional?

TG - Esses dirigentes estaduais não são eleitos pela base. Então, qual o contato que a base do partido vai ter com as decisões de cúpula, se não existem eleições para cargos de representação? Não existe crítica porque não existe democracia interna.

Por que não vemos outros membros do partido expressando esse tipo de descontentamento?

TG - Muitos parlamentares do PDT que defendem o projeto [de Ciro] são dirigentes partidários porque recebem da direção nacional uma autorização para comandar o partido em seus estados.

Muitos precisam de um [candidato a] presidente para se reelegerem. Se [esse postulante] for preparado (o que Ciro é), se tiver programa (o que a gente tem), é interessante para esses parlamentares estarem amparados em um palanque nacional. Mas será que é hora de pensar na nossa eleição apenas? Olhar para o seu projeto pessoal em detrimento da situação que vive o país?

Essa discussão o PDT não fez. E não faz porque a estrutura não é democrática.

Chegou a transmitir a sua posição a Ciro ou a Lupi?

TG - Você acredita que nós não nos falamos desde o processo do Recife? O partido afirmou e reafirmou o compromisso com a nossa candidatura aqui, mas às vésperas da convenção destituiu a nossa comissão [municipal provisória] para compor uma aliança com o PSB, com o compromisso de ter o PSB no palanque de Ciro em 2022. E agora o PSB sinaliza para uma aliança com Lula. E qual palanque o PDT vai ter aqui no estado?

Cogita sair do partido?

TG - Hoje estou focado no mandato. Tentando entregar o melhor trabalho possível às pessoas que me elegeram e ao povo de Pernambuco. Acho que estou conseguindo entregar o mandato ao qual me comprometi, trabalhando muito.

E pretende tentar a reeleição?

TG - A gente está construindo. É algo que está no horizonte. Agora, eu não sei se terei fôlego e saúde mental para aguentar mais quatro anos de Bolsonaro. É um ambiente muito hostil, com o povo sofrendo e os que estão nos espaços de poder fazendo chacota do sofrimento. Por isso a minha insistência em construir uma alternativa progressista para o país, tentar unir essas pontas.

Com seu posicionamento crítico, teme alguma consequência ou punição dentro do PDT?

TG - Isso cabe à direção do partido avaliar. Mas o que estou falando é o que o nosso partido sempre foi: um partido que defendeu os mais pobres, os excluídos, os marginalizados, os povos indígenas, os quilombolas. Um partido que teve grandes figuras, como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Alceu Collares, Abdias Nascimento, Edialeda do Nascimento.

O que eu falo talvez não encontre respaldo na cúpula partidária, mas sem dúvida encontro esse respaldo na base partidária, nos movimentos, nos filiados, naqueles que compreendem a história do PDT e sabem a importância desse partido para os tempos de hoje.

RAIO-X

Túlio Gadêlha, 33

Filiado ao PDT desde 2007, foi eleito em 2018 para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados, depois de derrotas nas candidaturas a deputado federal em 2014 e a vereador em 2012. Coordenou em Pernambuco a ULB (Universidade Leonel Brizola), braço de formação política da sigla, e ocupou cargos na Juventude Socialista do PDT e na Fundação Leonel Brizola Alberto Pasqualini. Formado em direito, tem atuação ligada ao movimento estudantil e a comunidades rurais e indígenas.

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