'Cirurgia é arte': quem é o médico investigado por mortes e lesões de pacientes que exaltou, no dia da suspensão, marca de 25 mil procedimentos

Investigado pela Polícia Civil e afastado de suas funções pela Justiça por suspeita de estar envolvido em dezenas de casos de negligência médica que teriam provocado lesões graves e mortes em Novo Hamburgo (RS), o cirurgião João Batista do Couto Neto, de 46 anos, exibe em suas redes sociais, como forma de propaganda pessoal, a marca de mais de 25 mil cirurgias realizadas em 19 anos de profissão – uma média de cerca de 1,3 mil por ano. O profissional que, segundo as investigações, pode ter feito mais de 100 vítimas ao longo da carreira, é participativo na internet, onde tem 15,7 mil seguidores no Instagram, além de outros 13 mil, no Facebook.

Em Goiás: Sequestradores de empresário alemão que perdeu R$48 milhões em criptomoedas podem ter feito outras vítimas

Transplante de urgência, internação na noite de Natal: mãe vive expectativa de doar o fígado à filha que nasceu com cirrose grave

Ao GLOBO, nesta quarta-feira (28), o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) afirmou que já abriu uma sindicância e, paralelamente à polícia, investiga o caso, que corre em sigilo. Caso entenda que as denúncias são procedentes, o órgão pode suspender o registro do médico, que ainda consta como regular. No Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, há pelo menos uma dezena de processos contra o profissional por queixa de erro médico. A maioria, em Novo Hamburgo.

Há pouco mais de duas semanas, no dia 12 de dezembro, quando foi afastado por 180 dias das mesas de cirurgia por decisão da Justiça gaúcha, Couto Neto comentou sobre a marca de "mais de 20 mil cirurgias realizadas" e exaltou o exercício da Medicina. A postagem já acumula 250 comentários, entre críticas – que estão sendo apagadas no perfil – e, também, elogios à sua atuação.

"Atuar como médico é sempre um grande desafio. Temos plena consciência e certeza de praticar a medicina para a melhor saúde dos pacientes", escreveu. "E com esta responsabilidade e maturidade, nos sentimos confortáveis em afirmar que realizamos mais de vinte mil cirurgias e procedimentos durante os últimos 19 anos, cumprindo os mais elevados preceitos médicos, honrando esta profissão que é a melhor tradução de minha vida."

Na publicação, em meio a elogios feitos por pacientes que dizem estar com o profissional há anos, ou que narram já ter tido a vida salva por ele, há também a descrição, por parte de outras pessoas, de um homem que já tinha sua atuação questionada, inclusive por colegas de profissão. São vários os que o acusam de erro médico.

"Se vocês fossem funcionários do hospital e já vissem tudo que ele fez, não iriam estar falando isso", disse uma seguidora, que se identifica como Ruthiele Warttman. "Só ouvi relatos horríveis dele por vários funcionários", acrescentou uma outra. Os comentários foram apagados em seguida.

"Um cirurgião muito ativo, extremamente requisitado, faz de 200 a 300 cirurgias por ano. O Dr.João faz mais de 1.300. Uau ! Tudo pelo amor ao próximo, hein!, provocou um outro seguidor.

Daniel Fernandes é um dos que foram indignados ao perfil do cirurgião após a notícia de que ele havia sido afastado de suas funções. Sua mãe teria sido mais uma das vítimas de negligência por parte do doutor. Sem revelar detalhes, ele diz que tem um áudio enviado por Couto Neto a ele após a piora no quadro de sua mãe, e que pretende entregá-lo à polícia.

– A minha mãe foi vítima dele, teve perfurações no estômago e bexiga. Já passou por nove cirurgias e ainda vai fazer outra – contou à reportagem.

No seu perfil on-line, João Couto Neto dá dicas aos seguidores com fotos, vídeos e artes digitais sobre como lidar com casos de hérnia, inflamação de apêndice, retirada de vesícula etc. Em outra publicação, o médico define cirurgia como "uma arte" e ressalta a importância de se ter atenção durante os procedimentos.

"Cirurgia é uma arte. Absolutamente tudo importa. Atuamos de forma minuciosa e delicada para um resultado de excelência. E a grande obra é o paciente curado, saudável e pronto para enfrentar os mais decisivos desafios da sua vida", disse na postagem.

'Médico do corpo clínico'

Nesta terça-feira, o Hospital Regina, onde Couto Neto vinha atuando, afirmou à reportagem que colabora com as autoridades na investigação, mas que o médico não possui vínculos trabalhistas com a unidade, somente “usava a estrutura do hospital para exercício de sua profissão”. O cirurgião exaltava o trabalho feito no hospital e exibia, ainda, a logomarca dele em publicações.

"Identificação que carregamos com orgulho", disse ao publicar uma foto de seu crachá, onde é identificado como "médico do corpo clínico" do Regina. No aniversário da unidade particular de saúde, ele comentou que era lá onde vinha realizando a maior parte de seus procedimentos: "Tenho realizado a maioria das minhas cirurgias no Hospital Regina: um centro de excelência pela forma como cuida dos pacientes e também pela efetividade em garantir a melhor saúde não apenas para os hamburguenses, mas sim para grande parte da população das cidades vizinhas. Quantos nascidos nele, retornaram e continuam a retornar para tratar seus males?", escreveu.

De acordo com a página de Couto Neto, ele é formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL) e graduado em Cirurgia Geral, em 2003, pelo Hospital Nossa Senhora da Conceição, de Porto Alegre. Possui ainda diversas especializações ao longo da carreira em cirurgia do aparelho digestivo, vídeocirurgia, entre outros. É membro da Sociedade Brasileira de Vídeocirurgia (Sobracil), do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e, também, da Sociedade Brasileira de Hérnia.

Procurada nesta terça-feira, a defesa de Couto Neto disse que ainda não vai se manifestar porque está “aguardando a integralidade do inquérito”. O médico já foi à delegacia de Novo Hamburgo que investiga as acusações. Mas optou por não responder as perguntas dos investigadores.

'Não conseguimos entender por que ele fazia isso com as pessoas'

As investigações são lideradas pelo delegado Tarcísio Kaltbac, da Polícia Civil em Novo Hamburgo. De acordo com ele, o médico, que só atuava na rede particular, chegava a acumular até 25 cirurgias em um mesmo turno de plantão e o número de supostas vítimas – hoje em 73 – pode chegar a 100.

Uma das linhas da investigação da polícia é que esse comportamento visava a aumentar os ganhos financeiros, mas levava à negligência e aos erros médicos. Para o delegado, a quantidade de cirurgias impedia Couto Neto cuidar corretamente das intervenções e dos pós-operatórios. Mas os investigadores ainda tentam entender como falhas tão graves foram cometidas, o que leva à hipótese de crueldade deliberada.

— Não conseguimos entender por que ele fazia isso com as pessoas. Às vezes, operava uma região do corpo, mas cortava outra que não tinha a ver com a cirurgia. Houve casos de pessoas que definharam no hospital, morrendo aos poucos. Isso é recorrente nos depoimentos — afirmou Kaltbach, que defende uma avaliação psiquiátrica do médico — Ainda vamos evoluir para traçar o seu perfil.

O delegado contou que, além dos depoimentos, longos e numerosos, há documentos, prontuários e relatórios médicos a serem encaminhados e analisados pela perícia. Por isso, ainda não há previsão para o fim do inquérito.

— É estarrecedor o que ele fazia. Temos fotos de pessoas com a barriga aberta, apodrecendo, e ele não receitava nada, nenhum medicamento. Dizia que não era nada e que tudo ia passar. Temos relatos de tentativa de suicídio dentro do hospital, por causa de tanta dor — acrescentou Kaltabach.

Há duas semanas, a polícia realizou uma operação de busca e apreensão e pediu a prisão preventiva do médico. Mas a Justiça negou a prisão e determinou apenas o afastamento do cirurgião, por entender que, fora do centro cirúrgico, Couto Neto não oferecia riscos à sociedade.

A polícia também vai investigar a conduta dos hospitais em que o cirurgião trabalhava. Especialmente o Hospital Regina, que concentra todas as denúncias registradas. A depender da investigação, a direção do hospital pode responder por crime de omissão.

— Ainda não temos como concluir se houve crime por parte do hospital. Mas à medida que sobe muito o número de cirurgias para um único profissional, o hospital deveria ter atentado a isso. Eles tinham ciência. Até porque ele precisava reservar os blocos cirúrgicos — disse o delegado.