Cirurgia do coração, quimioterapia e insumo: atos em rodovias prejudicaram atendimentos médicos

Os atos antidemocráticos nas estradas Brasil afora geraram complicações para quem precisa se deslocar por rodovias federais para receber atendimento médico ou depende delas para viabilizar tratamentos de saúde. Os protestos de caminhoneiros contra o resultado das eleições presidenciais, que deu vitória a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo, impediram o trânsito em diversas vias durante toda a semana. Perda de transplante, atrasos em sessões de quimioterapia e até risco para a produção de vacinas foram alguns dos problemas enfrentados por quem necessita de cuidados específicos e paliativos.

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Nesta terça-feira, véspera do feriado de Finados, os bloqueios dos manifestantes impediram a realização de um transplante de coração, por exemplo. Um paciente de São Paulo, que não teve a idade revelada, estava agendado para receber o órgão de um jovem de 21 anos, internado em Goiás. Após a morte encefálica do rapaz ser registrada pelo Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), no entanto, a equipe médica não deu continuidade ao procedimento, por conta do engarrafamento nas estradas que ligam os dois estados. A informação foi confirmada ao GLOBO pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP).

O rapaz que doaria o coração também doou outros órgãos. Ao todo, foram retirados rins e córneas, destinados a pacientes de Goiás, e fígado, com destino ao Distrito Federal. No total, cinco pessoas foram beneficiadas. Um sexto indivíduo seria submetido a uma cirurgia cardíaca, mas a operação foi inviabilizada pelo cenário das rodovias. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), o "coração também estava apto para captação, mas não foi captado".

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Segundo a SES-GO, no entanto, as autoridades médicas paulistas não aceitaram o órgão. Em nota, a secretaria destacou que "as rodovias federais em Goiás foram totalmente desbloqueadas na noite de terça-feira, e não foram impeditivo para o envio do coração até o aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia". A instituição ressaltou que aguarda resposta da SES-SP sobre o assunto.

Questionada, a secretaria de São Paulo alegou que o transporte do órgão exige rapidez e que deveria chegar ao doador em até quatro horas. Em comunicado enviado ao GLOBO, a pasta destacou que "as equipes técnicas responsáveis consideraram que, devido a bloqueios, não seria possível realizar a operação de forma que o órgão chegasse com segurança ao paciente".

A SES-GO salientou ainda que tentou dar prosseguimento ao processo, selecionando um receptor para o Distrito Federal. No entanto, não houve compatibilidade entre a pessoa e o doador do coração.

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Ao menos cinco pacientes com câncer teriam perdido atendimentos por terem ficado presos na estrada no município de Taquara, no Rio Grande do Sul. Além disso, uma paciente teria perdido uma cirurgia oncológica ginecológica.

De acordo com a Associação Hospitalar Vila Nova, que administra o Hospital Bom Jesus, os registros mostram que somente atendimentos do primeiro horário da manhã foram prejudicados. Apesar do inconveniente, todos conseguiram ser atendidos no dia.

O Instituto Butantan, um dos principais produtores de vacinas do país, teve uma carga de 520 mil ovos comprometida. O carregamento seria destinados para a produção de 1,5 milhão de doses contra a Influenza.

Nas redes sociais, a entidade informou que, caso a viagem não fosse finalizada até o final da manhã de terça, a fabricação corria riscos pela falta de matéria-prima. Depois de oito horas de atraso, a carga chegou à sede do instituto, em São Paulo.