Citação nazista na cultura e agenda econômica não se misturam, dizem analistas

JÚLIA MOURA
SÃO PAULO, SP, 09.05.2015 - MERCADO-FINANCEIRO: Gráficos das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa, na Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1605091712526881

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mercado financeiro brasileiro não reagiu à fala de Roberto Alvim, agora exonerado do cargo de secretário da Cultura, em que parafraseou trecho de discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista, de Adolf Hitler, sobre as artes.

Nesta sexta-feira (17), a Bolsa de Valores brasileira subiu 1,52%, a 118.478 pontos, próximo a máxima histórica, em um dia positivo para os mercados globais. O real foi a moeda que teve o melhor desempenho na sessão e a cotação do dólar recuou 0,62%, a R$ 4,1640. 

Segundo economistas, o discurso nazista na cultura não se mistura com a agenda econômica e o episódio é apenas mais uma polêmica do governo de Jair Bolsonaro.

O pronunciamento de Alvim, publicado em vídeo na rede social da Secretaria Especial da Cultural, provocou uma onda de indignação nas redes sociais na madrugada desta sexta.

"[Quando vi o vídeo] fiquei horrorizado, deu vontade de vomitar. Achei que era fake. É preocupante um cara do primeiro escalão do governo falando de Goebbels. Mas a questão moral é outro espaço, é vida privada, outro fórum [que não o mercado financeiro]", diz Samuel Pessôa, pesquisador do da FGV e sócio da consultoria Reliance.

Para o economista, esse episódio não sinaliza uma piora da economia. "É um cara maluco que falou uma coisa horrorosa e foi demitido. A sociedade teve uma reação muito rigorosa e a economia está melhorando. O mercado não tem posição política e opera com base em projeção de ganhos. Enquanto economia vai bem, vida que segue."

"Sempre que há uma polêmica no governo Bolsonaro, as instituições o constrangem. Se houver sinais claros de que a democracia está em crise, deve haver reação. Eu vou para a rua. Não parece ser esse o caso", completa Pessôa.

"Por incrível que pareça, está tudo ótimo [no mercado]. Vi a notícia, me preocupei não com o mercado, mas com o país. Contudo, isso é opinião pessoal e não é relevante. Nesse governo, esse tipo de coisa tem sido irrelevante, pois o governo tem aprovação da população nas pesquisas e está passando reformas, é isso que importa", afirma José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

Para agentes, as rápidas reações do ministro Dias Toffoli, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidentes do STF (Supremo Tribunal Federal), da Câmara e do Senado, respectivamente, em pedir a saída de Alvim, contribuíram para que não houvesse reações no mercado financeiro. 

"Sou judeu e me preocupo muito [com o discurso de Alvim]. É triste vermos uma cena assim, fico pensando os predicados que o levaram a ocupar o cargo. No entanto, economicamente, não há impacto, pois não interfere na aprovação das reformas, que é a métrica pela qual o mercado vai avaliar o governo", diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Segundo João Mauricio Rosal, economista-chefe da Guide Investimentos, o mercado chegou a se preocupar com possíveis reações de outros países com relação ao Brasil no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que acontece entre 21 e 24 de janeiro, mas o receio cessou com a demissão de Alvim.

"O evento de hoje não abala a pauta econômica do governo. Essa foi mais uma retórica política, um embate de Bolsonaro e associados na seara moral e comportamental que não está relacionado à agenda econômica", diz Rosal.

"Há um descolamento [do mercado] dessas polêmicas. No segundo semestre do ano passado, já ignorávamos as declarações do governo. Por enquanto, o que importa é o Guedes [ministro da Economia] e sua equipe econômica, o que falam e o que vão fazer", diz Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos. Ela conta que, na corretora, todos se chocaram com o vídeo de Alvim, mas se tranquilizaram ao ver que não houve efeito no mercado.

Para Nelson Marconi, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV, a separação entre polêmicas do governo e agenda econômica pode ser prejudicial. "É muito ruim tentar dissociar as duas coisas. Uma eventual continuidade desse discurso [de Alvim] gera um autoritarismo que interfere na pauta econômica e é um tiro no pé, pois, em nome de uma agenda econômica, você topa a perda de liberdade da sociedade e a degradação das entidades sociais e isso é péssimo para a economia", diz Marconi.

O economista lembra que muitos investidores estrangeiros saíram do país em 2019 e que os movimentos do mercado financeiro brasileiros são predominantemente domésticos. "São pessoas que estão preocupadas em ganhar dinheiro no curto prazo. Esperam se beneficiar das privatizações previstas pelo governo e não se preocupam para o resto", diz o professor. 

Em 2019, houve saída de R$ 39 bilhões de investimentos estrangeiros do mercado de ações, sem considerar IPOs (oferta inicial de ações) e follow-ons (oferta subsequente de ações). Neste ano, o déficit é de R$ 6 bilhões.

Nesta sexta, o Ibovespa, maior índice acionário do país abriu em forte alta após dados da economia chinesa. Apesar de ter crescido em 2019 no menor ritmo em 29 anos (6,1%), devido ao impacto da guerra comercial com os Estados Unidos, o PIB (Produto Interno Bruto) do país veio em linha com as expectativas.

Investidores se animaram com a aceleração dos investimentos, da produção industrial e das vendas no varejo no quarto trimestre na China e veem sinais de uma retomada mais forte da economia., que beneficiaria o Brasil.