Civilização corre risco com tensões provocadas pela Covid-19, diz Putin

IGOR GIELOW
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*ARQUIVO* O presidente Russo, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* O presidente Russo, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pandemia da Covid-19 acirrou tensões em todas as áreas, aumentou a desigualdade e multiplicou contradições. A civilização humana corre risco de ser destruída porque a situação pode sair ainda mais de controle.

Para evitar tal "distopia cruel", a única saída para as nações é buscar esforços coordenados na economia e se livrar das "fobias" no trato com países que veem como adversários.

O quadro realista e bastante sombrio foi pintado por Vladimir Putin, o presidente que há 21 anos dá as cartas na Rússia. Ele falou pela primeira vez desde 2009 ao Fórum Econômico Mundial, baseado em Davos (Suíça), mas que neste ano vive sua primeira edição virtual.

Putin começou elencando os riscos colocados pela pandemia. "Há uma natureza sistêmica de ameaças", afirmou, comparando o momento atual da humanidade com os turbulentos anos 1920 e 1930, que assistiram a pandemia da gripe espanhola, a crise do entreguerras, a Grande Depressão e a ascensão do nazifascismo e do comunismo soviético.

"Um conflito quente não é possível, acho, porque seria a destruição do mundo. Mas a situação é imprevisível se sair de controle", disse Putin, que tem à disposição 4.310 ogivas nucleares, 1.572 delas para pronto emprego.

"Não estou falando nada de novo", repetiu algumas vezes. Como ocorreu no discurso do líder chinês Xi Jinping, na segunda (25), coube a um presidente autocrático desfiar obviedades sobre os problemas das sociedades -a russa inclusa.

Putin criticou o esforço dos países desenvolvidos em assegurar para si doses de vacinas contra a Covid-19. "A pandemia vai continuar se houver centros não controlados", afirmou, em referência a países mais pobres sem cobertura de imunizantes.

A Rússia tem promovido no exterior sua vacina, a Sputnik V, com foco justamente em nações mais periféricas.

Obviamente sem falar dos protestos maciços ocorridos no sábado (23) em seu próprio país, que pediram a soltura do opositor Alexei Navalni, disse que "o descontentamento público leva à intolerância e à divisão da sociedade", e que governos não podem "ter a ilusão de que dá para enterrar" os problemas.

Apontou o dedo para o poder das grandes corporações americanas de tecnologia. Para ele, o interesse público não é necessariamente igual ao do monopólio exercido pelas gigantes, citando sua influência no processo político americano sem dar nomes. "[Isso] restringe as opções, e vocês entendem bem o que quero dizer."

Por todo o tom apocalíptico, Putin vendeu algum otimismo e sacou uma receita convencional para o enfrentamento da crise. Previu que ela só será superada com o "aumento do papel dos governos" com "estímulos fiscais, como já se vê em países desenvolvidos e em desenvolvimento".

Para ele, é hora de "reduzir as desigualdades". Essa abordagem quase keynesiana contrasta com o Putin de 12 anos atrás, quando o mundo afundava em recessão. Ali, o então premiê dizia que o Ocidente tinha de evitar os erros da União Soviética e driblar a tentação do protecionismo estatal.

O presidente listou seu primeiro avanço na relação com os Estados Unidos, a outra superpotência nuclear do planeta. Após conversa na terça (26) com o novo chefe da Casa Branca, Joe Biden, ficou acertada a extensão por cinco anos do Novo Start -o último acordo de limitação de armas atômicas vigente.

A medida já foi aprovada na Duma (Câmara baixa do Parlamento russo) nesta manhã. "É um primeiro passo", afirmou Putin, que de todo modo vê um mundo "menos estável e previsível, em que conflitos regionais se multiplicam".

Ele mesmo teve de lidar com um recentemente, a mediação da guerra entre Armênia e Azerbaijão. "Acabamos com o derramamento de sangue", afirmou, dividindo os louros com EUA e França, que participavam minoritariamente do grupo negociador.

Também citou a sua difícil relação com a Turquia e o Irã no papel de estabilizar a guerra civil na Síria como um exemplo de sucesso possível em prol da paz mundial e fez uma rara deferência à Europa, continente em que enfrenta as principais resistências.

"Líderes europeus como [o premiê alemão] Helmut Kohl diziam que a Rússia é parte da Europa, uma só civilização. Nós compartilhamos essa opinião. A Europa e a Rússia são parceiros naturais", afirmou.

A fala vem após sete anos como um pária para a maior parte dos países da União Europeia por ter anexado a Crimeia da Ucrânia, após a queda do governo pró-Moscou de Kiev em 2014.

Isso não impede, claro, os negócios: a Alemanha, que recebera Navalni quando o opositor foi envenenado na Rússia, não descartou o megaprojeto de gás natural em conjunto com o Kremlin. Nem a França deixou seus trabalhos com gás no Ártico.

A abertura foi parcial. Putin criticou "pressão por sanções ilegítimas", como ele vê aquelas aplicadas pelo Ocidente, e o "uso unilateral da força, que é perigoso". Ainda assim, falou como um europeu legítimo ao falar que é preciso combater a crise climática, o aquecimento global e a poluição dos mares.

Disse ver um espaço comum não só de Lisboa aos montes Urais, na divisa russa com a Ásia, mas "até Vladivostok", a principal cidade do extremo oriente de seu país.

"A competição entre países nunca irá parar. Mas em pontos críticos, esforços coordenados ocorrem em situações que mudam nossa vida. Esta é a situação agora. Precisamos lidar com problemas reais", disse Putin.