Clássico de Gonzaguinha inspira curta produzido por alunos da Universidade Estácio de Sá

A sétima arte entra em ação para fazer um grito de alerta, poético, sobre a dura vida de um músico de rua. Corta para um cenário único, onde a história se repete de modo contínuo, dia após dia. O cantor se apresenta. Na sua frente, o chapéu, no chão, onde são depositados pequenos valores em dinheiro que são a fonte do seu sustento. A voz e o violão, conscientemente ou não, escondem a melancolia de quem tem uma intimidade imensa com uma rotina que se recusa a sair de cena. Ter o asfalto como palco é sobrevivência, não objetivo. Afinal, qual artista não sonha com as luzes da ribalta? Esta descrição diz muito sobre o curta-metragem “Quando eu soltar a minha voz”, criado por alunos do curso de Cinema da Estácio Maracanã em parceria com a produtora universitária Nucine Filmes, com sede na mesma unidade.

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“Sangrando”, canção de Gonzaguinha (1945-1991) lançada em 1975, é a fonte de inspiração para contar a história de um artista que, como dizem os versos do compositor nascido e criado no Morro de São Carlos, no Estácio, tem brilho nos olhos, tremor nas mãos e o corpo suado “transbordando toda a raça e emoção”. Emoção, aliás, é o que a equipe deste projeto está sentindo com o anúncio da exibição do trabalho, no próximo dia 13, no festival de cinema internacional The Student World Impact Film, em Nova York (EUA), que começa no mesmo dia.

Moradora da Tijuca, a cineasta Cátia Castilho, que estudou Cinema na Estácio, unidade Rio Comprido, e é coordenadora de produção da Nucine Filmes, destaca a importância de contar esta história e de levá-la para ser exibida no país que é referência em produção cinematográfica.

— Um filme brasileiro ser selecionado para estar neste festival, em que obras de vários países serão exibidas, é um prêmio e tanto. Para a nossa alegria, também recebemos a notícia de que os curtas participantes vão entrar no streaming, na Amazon Prime. Nós somos a única produtora de cinema dentro de uma universidade que trabalha distribuição nacional e internacional dos filmes produzidos por nossos alunos. Somos um laboratório dentro do curso de Cinema que faz cinema de verdade. “Quando eu soltar a minha voz” é o trabalho de conclusão de curso dos alunos que se graduaram no final de 2019. Este curta mexe com o espectador ao jogar luz sobre a difícil luta pela sobrevivência que um artista de rua enfrenta todos os dias. O cantor é negro, o que revela também situações de racismo e de ter que encarar um desafio a mais para buscar o reconhecimento profissional — diz.

Diretor do curta-metragem, Guilherme Menezes Telles, de 26 anos, morador de Vila Isabel, vibra com o voo alto do trabalho de conclusão de curso da sua turma.

— Eu decidi cursar Cinema pelo encantamento que tenho em assistir a novas histórias, em conhecer personagens interessantes. Então, quis para a minha vida profissional poder contar as minhas próprias histórias. A exibição deste filme nos Estados Unidos é de uma importância enorme porque mostra para o mundo um pedaço do Rio, que é a Cinelândia, e um pouco das pessoas desta cidade incrível — observa Telles.

Na tela, o recorte do Rio é, mais precisamente, a calçada em frente ao Theatro Municipal, onde o protagonista de “Quando eu soltar a minha voz” se apresenta. Nos bastidores, no entanto, o cenário é a Tijuca. Não só pela localização da nova sede da Estácio como pelo significado da Rua Jaceguai, onde, no início da carreira, Gonzaguinha tocava com amigos em um sobrado que não existe mais e deu lugar a um edifício residencial.

— Visitamos esta rua que fez parte da vivência do Gonzaguinha, que fica perto da Praça Varnhagen, para buscarmos uma memória deste artista, que, através da sua obra, está presente no filme inteiro. “Sangrando” é central, tem uma simbologia na dramaturgia, dentro do discurso do nosso artista que luta para conseguir viver ou sobreviver de arte. Vou dar um spoiler: só no final, o nosso ator, Emerson Rodrigues, canta a música inteira. Este curta, além de ter este foco no artista de rua, conta uma história de amor. É realmente um belo filme — elogia a coordenadora da Nucine Filmes.

O romance se entrelaça com o ofício do protagonista da trama.

— No chapéu, além de dinheiro, alguém sempre deposita um bilhete de amor. Não fica claro para o espectador quem é a pessoa que se apaixona pelo artista. No final, a identidade é revelada de uma forma bonita. Este é um amor construído que nasce em meio à luta pela sobrevivência de ambos. É um filme que emociona e merece ter uma carreira de sucesso, como já se desenha — conclui a cineasta.

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