Cláudia Raia posa nua e fala sobre vida sexual: 'Por que é errado ser uma mulher que gosta de sexo que nem eu, uma transarina?'

Inês Garçoni
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Claudia Raia

Um metro e 79 centímetros de altura, 52 anos de idade, 36 de carreira, 19 novelas e 15 musicais, fora os que produziu. Tudo em Cláudia Raia é grande. Inclusive a desinibição com que tira a roupa no estúdio, em frente de pelo menos dez pessoas. “Já não tinha vergonha antes. Agora, perdi o filtro também”, diz a atriz, que acaba de lançar no IGTV, canal de vídeos do Instagram, uma série em que fala sobre tudo, sem papas na língua. Batizada de #50etantas, a atração vai ao ar toda quinta-feira, tem mais de 300 mil visualizações por semana e aborda temas pertinentes às mulheres que cruzaram a barreira de meio século ou estão se aproximando dela.

Sexo anal, falta de vergonha na cara, inadequação fashion — não tem assunto sobre o qual Cláudia, recém-contratada por uma grande marca de beleza, não fale. Além disso, a despeito da dificuldade de se produzir teatro no Brasil, há duas semanas a atriz roda o país com o musical “Conserto para 2”. Em cena, doze personagens e dois únicos atores: ela e Jarbas Homem de Melo, com quem é casada desde 2012 e vive, em São Paulo, ao lado de Enzo e Sofia, de 22 e 16 anos, filhos do casamento com o ator Edson Celulari, rompido em 2010, após 17 anos de união.

“Se aos 52 sou assim, acelerada, imagina aos 18? Misericórdia, nem eu mesma me aguentava”, brinca. “Eu não andava, quicava. Casei na Candelária, né, amor?, com um esplendor que nem cabia no carro! E com o Alexandre Frota, o que resume tudo. Imagina quem eu era?”, pergunta, às gargalhadas. A seguir, um pouco da mulher divertida que ela se tornou aos 50 e tantos.

Meu corpo, minhas regras

“Eu faço o que acho bonito, legal. É diferente posar nua hoje e antes. Lá atrás, fui a pessoa que mais fez ‘Playboy’ — quatro ensaios e cinco capas —, mas sempre encarnava uma personagem, tinha uma coisa teatral no ensaio. Fiz mesmo e não me arrependo. Tive uma carreira de sex symbol e usei isso ao meu favor, mas logo no início da carreira vi que eu tinha dois caminhos a seguir. Pensei: ‘Bom, se for por aqui, minha carreira vai acabar aos 30’; ‘se eu for por ali, posso me tornar uma atriz respeitada, que é o que quero ser’. Escolhi o último caminho e acho que funcionou. Mas acho um saco quem diz ‘ah, não quero que a pessoa me ache bonita’, ‘não vou com esse decote para as pessoas não acharem que sou sexy’... Que preguiça.”

Nova Hebe

“Tive a ideia do canal para mulheres de 50 porque sonhava em ter um programa para conversar com as pessoas. A apresentadora madura, que tem glamour, é engraçada e popular, foi embora com a Hebe. Fiquei com vontade de ser essa pessoa. No Brasil, a mulher ‘morre’ quando faz 40 anos e só renasce aos 80, 90, quando vira a velhinha fofa. A mulher do meio não existe, nem na publicidade nem na casa das pessoas. Mas ela é muito potente: os filhos estão criados e a carreira, estabelecida. Por isso, não é bem vista num país machista. ‘Essa roupa não é para você’, ‘cabelo longo com essa idade?’. Ela acredita nesse discurso. Com a maturidade, percebi isso na pele. Mas não aceitei. Sou como um trator, passo por cima das pessoas. Mas a maioria das mulheres não é assim. Eu sou porque fui criada por mulheres — meu pai morreu quando eu tinha 4 anos e ficamos eu, minha avó, minha mãe e minha irmã, quatro mulheres poderosas de calças compridas.”

Sexo sem filtro

“Quero falar sobre o que der na telha, sem filtro. Já que estou encalacrada sendo essa mulher de 52, por que não posso falar sobre sexo anal, por exemplo, algo que incomoda tanta gente? O homem vai lá e quer te obrigar a dar o cu! Não gosto, dá licença? Porra. Por que tenho que fazer algo que detesto para agradar alguém? Com a maturidade, descobri que posso dizer do que gosto e não gosto — na verdade, sempre disse, mas o feminismo veio para reforçar isso. Outra coisa: por que é errado ser uma mulher que gosta de sexo que nem eu, uma ‘transarina’? Por que no Brasil quem gosta de sexo é vista como puta? A gente tem vergonha de dizer que gosta. E quanto mais velha, pior. Se for mãe então… ‘O que é isso, mãe, está saindo com todo mundo?’. Todo mundo, não! Se estou solteira, estou testando. Ah, mas não pode, a sociedade não deixa porque você é mãe. Então, temos que falar sobre isso. Talvez eu não consiga grandes resultados, mas estou abrindo portas para quem vem atrás de mim.”

Assédio e coruja

“Quando eu tinha 13 anos, fui estudar balé em Nova York e fiquei hospedada na casa de um bailarino amigo da minha mãe. Um dia, ele sentou ao meu lado e começou a conversar, colocou a mão na minha perna, e daqui a pouco a mão veio subindo, subindo… Imediatamente olhei para o lado para ver o que me cercava, o que eu poderia usar para me defender. Quando ele veio com mais força, peguei a primeira coisa que alcancei, uma coruja de cristal, e ‘pow!’ na cabeça dele. Não seria diferente porque fui criada para jamais abaixar a cabeça para nada. Felizmente, só passei por isso uma vez na vida.”

'No Brasil, a mulher morre quando faz 40 anos e só renasce aos 80, 90, quando vira a velhinha fofa', reflete Claudia Raia. Confira a entrevista completa