Clínicas privadas adotam regras diferentes para vacinar contra Covid

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP - 01/12/2021 - Vacinação contra Covid-19 na capital paulista; imunização pode ser feita nas redes pública e particular.  (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP - 01/12/2021 - Vacinação contra Covid-19 na capital paulista; imunização pode ser feita nas redes pública e particular. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem uma regulamentação, clínicas particulares têm adotado diversas formas para vacinar contra a Covid-19 na cidade de São Paulo. A imunização nesses locais foi iniciada na semana passada.

Nesta segunda-feira (6), a reportagem procurou 25 clínicas particulares de vacinas na capital paulista e em cidades da Grande São Paulo. Quatro delas confirmaram que estão comercializando o imunizante da AstraZeneca, importado dos EUA, com preços e regras diferentes.

As demais unidades disseram preferir esperar um pouco mais para ter o produto ou não disponibilizarão a vacina contra Covid por causa da concorrência com a rede pública.

Na unidade da Clivan na Pompéia, zona oeste da capital, a vacina contra a Covid custa R$ 290 e qualquer um, a parir de 18 anos, pode ser vacinado, inclusive com a segunda dose de reforço (ou quarta dose), que sábado (4) foi liberada pelo Ministério da Saúde para quem tem a partir de 50 anos --pessoas entre 18 e 49 anos ainda não estão incluídas nesta fase da vacinação de acordo com o PNI (Plano Nacional de Imunizações).

A vacina da AstraZeneca não é recomendada para menores de idade.

Segundo Vanice Costa, enfermeira responsável do local, a clínica segue, em parte, porém, o que prega o PNI: só aplica a terceira ou a quarta doses para quem foi vacinado com a dose anterior há ao menos quatro meses. Como na rede pública, é necessário levar comprovantes de identidade e de vacinação.

Desde sábado até o início da tarde desta segunda, a Clivan já havia vacinado 40 pessoas contra a Covid-19, que precisaram agendar horário. Segundo a clínica, todas tinham mais de 50 anos.

A enfermeira diz que um médico da clínica é comunicado sobre as pessoas que são imunizadas lá e que há um plantão 24 horas para atender em caso de algum efeito colateral. E esse é um dos motivos, na visão dela, que atraem pessoas que preferem trocar o serviço público pelo privado, além da comodidade de ser atendido com hora marcada.

"Não podemos fazer nada diferente do que diz a bula da vacina, neste caso, seguir o intervalo de quatro meses entre uma dose e outra e não vacinar menores de 18 anos", afirma.

Na Vila Andrade, zona sul, a mesma vacina custa R$ 420 em uma unidade da rede Santa Clara. E ao contrário da clínica da zona oeste, quem tem menos de 50 anos só toma a quarta dose se tiver atestado médico recomendando a imunização por causa de alguma comorbidade.

A gestora Marina Almeida conta que nesta segunda-feira a clínica recusou o agendamento para um homem de 48 anos que procurava reforçar a imunização antes de sua faixa etária ser liberada na rede pública, sem ter nenhum problema de saúde que justificasse.

Como cada frasco de vacina contra Covid tem dez doses e dura 48 horas depois de aberto, a Santa Clara só faz a imunização quando monta um grupo de interessados --nesta segunda havia três inscritos.

O mesmo ocorre em duas unidades da Vacinarte, na Lapa (zona oeste) e no Tatuapé (zona leste). A clínica cobra R$ 300 a dose e exige atestado médico de qualquer pessoa a partir de 18 anos, independentemente da idade.

Na semana passada, a ABCVac (Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas), em um tira-dúvidas em seu site, publicou que, para tomar a quarta dose, pacientes que não estejam elegíveis nas orientações do PNI devem aguardar orientação médica.

Em nota nesta segunda, a associação disse que não compete a ela avaliar as indicações de aplicação, mas ao fabricante e às entidades científicas. E que, no cotidiano das clínicas, "algumas vacinas são realizadas com prescrição médica na modalidade off label e que, nestes casos, contam com a aprovação de entidades científicas".

"Nestas circunstâncias, se corresponsabilizam o médico prescritor, e o profissional responsável técnico pelo estabelecimento", diz a nota.

Na semana passada, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou à reportagem que não "regulamenta o uso off label" de medicamento, ou seja, prescrito por conta e risco de médico.

O Ministério da Saúde, por sua vez, afirma que avalia os efeitos do fim da emergência sanitária, decretada no mês passado, sobre a lei que instituiu a vacinação contra a Covid no país. "A pasta recomenda a não comercialização de vacinas Covid-19 até a conclusão da análise", disse.

Foi com o fim da emergência sanitária que a rede particular teve autorização para vender vacinas, inclusive farmácias --neste fim de semana, duas unidades da rede Drogaria São Paulo começaram a vacinar na capital paulista e dizem estar seguindo as mesmas regras da imunização da rede pública.

A SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) publicou um documento na última quinta-feira (2) dizendo que o sistema privado deve disponibilizar a vacina contra a Covid-19 apenas para os grupos elencados no PNO (Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação),

"A oferta de vacina no sistema privado para as pessoas que têm recomendação, mas não podem ou não querem ser vacinadas no sistema público, pode contribuir para o desejável aumento da cobertura vacinal, sobretudo no que diz respeito às doses de reforço para os públicos definidos no PNO", publicou a asssociação.

A médica Isabella Ballalai, vice-presidente da entidade médica, diz, contudo, que é preciso haver uma normatização mínima da rede particular para evitar situações que possam aumentar ainda mais as dúvidas da população quanto à vacina.

"A gente viu isso em toda a pandemia, quando um governo falava uma coisa e um município dentro do mesmo estado fazia outra. Isso gerou insegurança e pessoas deixaram de se vacinar porque não estavam tranquilas", avalia.

A médica lembra que o Ministério da Saúde recomenda o que está regulamentado. E, em uma crítica à imunização fora de hora, comenta que nenhum país está vacinando com duas doses de reforço quem tem 18 anos, por exemplo. "Não há experiência lá fora para se embasar que isso valha a pena, que é seguro", diz.

"A gente não acha que uma quarta dose em uma pessoa de 18 anos vá prejudicar a saúde dela, mas ainda não foi definido como necessário", completa.

Ballalai contou já ter sido informada de paciente atrás da quinta dose da vacina --atualmente disponível apenas a idosos com alto grau de imunossupressão, maiores de 60 anos, e que tenham tomado a vacina anterior há ao menos quatro meses.

A associação, ela ressalta, foi contra a entrada de vacinas contra a Covid-19 na rede privada enquanto uma vacinação robusta e gratuita não fosse concluída.

Ballalai ainda alerta para a necessidade de as clínicas serem rígidas com controles. Ela reforça, por exemplo, a necessidade de se descontar o período que o frasco ficou fora da geladeira da validade de 48 horas depois de aberto.

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