Clã Bolsonaro ataca imprensa uma vez a cada 14 horas

Ataques, críticas e tentativas de descredibilização foram encontrados em 73% dos tweets em que os membros da família Bolsonaro mencionaram jornais, jornalistas ou a imprensa de modo geral - Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Ataques, críticas e tentativas de descredibilização foram encontrados em 73% dos tweets em que os membros da família Bolsonaro mencionaram jornais, jornalistas ou a imprensa de modo geral - Foto: AP Photo/Eraldo Peres

O presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus filhos políticos usaram o Twitter 801 vezes para atacar a imprensa entre 1º de janeiro de 2021 e 5 de maio de 2022. Isso representa um ataque a veículos, jornalistas ou a atividade da imprensa a cada 14 horas.

O dado é resultado de uma análise realizada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), principal entidade de defesa de jornalistas hoje no país, que examinou quase 15.000 tweets e retweets feitos pelo presidente, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

O estudo permitiu mapear uma rede de ataques que envolve influenciadores e atores políticos em suas ofensivas contra a liberdade de imprensa no Brasil.

Ataques, críticas e tentativas de descredibilização foram encontrados em 73% dos tweets em que os membros da família Bolsonaro mencionaram jornais, jornalistas ou a imprensa de modo geral. O vereador Carlos Bolsonaro, que gerencia parte das redes sociais do pai, foi o integrante que mais atacou, somando 351 publicações, respostas e compartilhamentos hostis. Quase 90% das vezes em que mencionou a imprensa, foi com hostilidade. Eduardo soma 340 ataques, Flávio, 76, e Jair Bolsonaro, 34, ou metade de suas referências ao jornalismo.

Dados dos monitoramentos de ataques e violência de gênero contra jornalistas, conduzidos pela Abraji, mostram que atores estatais foram os principais agressores em 2021 — e que esse padrão vem se mantendo em 2022. Entre janeiro e abril deste ano a entidade identificou 156 episódios de agressão física ou verbal, ou outras formas de cercear o trabalho jornalístico, como restrições de acesso à informação, exposição de dados pessoais, processos civis ou penais, assassinato, assédio sexual e uso abusivo do poder estatal.

O último e mais grave episódio desta natureza foi o assassinato do jornalista britânico Dom Philips em companhia do indigenista Bruno Pereira na região do Vale do Javari, no oeste do Amazonas.

Ataques interligados

Nesses últimos 801 dias analisados, os membros do clã Bolsonaro lideram como os principais autores de ataques virtuais, ao lado de aliados e apoiadores do governo. Em abril deste ano Eduardo Bolsonaro usou sua conta no Twitter para debochar da prisão e tortura da jornalista Míriam Leitão durante o regime militar. A agressão ecoou entre parte dos internautas que apoiaram a atitude do deputado.

Em junho, o repórter Lucas Neiva e a editora Vanessa Lippelt, do site Congresso em Foco, foram alvos de ofensas e ameaças após publicação de matéria que revelava a mobilização de um fórum anônimo para produzir conteúdo desinformativo em prol do presidente. Lippelt sofreu ameaças de estupro por parte de apoiadores.

A análise dos tweets e casos como estes mostra uma rede de conexões entre contas que são frequentemente respondidas e retweetadas, formada por figuras conhecidas no cenário político nacional, ocupantes de cargos públicos e eletivos, e influenciadores.

Entre as figuras com muitos seguidores e que acabam ecoando os ataques do clã presidencial, ou sendo utilizados por ele para estas ofensivas estão o influenciador Kim Paim, o ex-secretário especial de Cultura do governo, Mário Frias, o comentarista político Rodrigo Constantino e o pastor Marco Feliciano.

Ao todo foram coletados 14.918 tweets entre 1º de janeiro de 2021 e 5 de maio de 2022. Entre estes, 1.097 mencionam “jornal”, “jornalismo”, “jornalista”, “jornazista”, “imprensa”, “mídia”, “blog”, “blogueiro(a)”, “notícia” e “matéria” – 7,3% do total.

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