'Clarice Lispector — A descoberta do mundo': A vida e a obra de uma autora

Clarice Lispector é um enigma — fértil, prazeroso, inesgotável. Quanto mais nos aproximamos, menos sabemos — e mais queremos. Que o diga seu sempre crescente número de seguidores — no Brasil e no exterior. Mas devemos controlar a ansiedade. “Toda vida é uma missão secreta”, cravou a autora em “A paixão segundo G.H.”. Mas, afinal, 102 anos após seu nascimento, ainda não deu tempo de decifrar os mistérios de Clarice? Não. Melhor assim. Muito melhor. Como demonstra o documentário “Clarice Lispector — A descoberta do mundo”, com direção de Taciana Oliveira, que divide o roteiro com Teresa Montero, incansável pesquisadora e divulgadora da causa clariciana.

Material de arquivo e fotos com cenários da infância, juventude e maturidade alinhavam um fio condutor de biografia tão particular, vivida com raríssima intensidade. A participação da escritora no programa “Os mágicos”, da TVE, em dezembro de 1976 — material inédito e resgatado — revela um olhar oblíquo mas firme, e as falas curtas, com sua “célebre” língua presa ao relembrar fatos dolorosos ou expor sua filosofia de vida: “Amar os outros é a única salvação individual que conheço”.

Econômica ao falar de si, Clarice empolgava seus admiradores. Em coleta que levou alguns anos, Taciana ouviu familiares (o filho Pedro, sobrinhas), amigos (Maria Bonomi, Ferreira Gullar, Luiz Carlos Lacerda, Sara Escorel)e parceiros profissionais (Alberto Dines, Paulo Rocco, Álvaro Pacheco). Narrações com vozes diferenciadas resgatam trechos de suas obras, cartas para familiares e amigos, sobrepostas muitas vezes a paisagens que apontam o mar como elemento principal. Ao fundo, uma evocativa trilha sonora.

Sem esgotar o mistério Clarice, e somando-se à recente exibição de “O livro dos prazeres”, “A descoberta do mundo” (mesmo título do livro que reuniu suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil) amplia as possibilidades de aproximação a uma Autora (sim, com A maiúsculo), que também exercia plenamente a sua nobre função de dona de casa, como ressaltou a amiga Marina Colasanti. Sentada ao sofá, máquina de escrever no colo, filhos Pedro e Paulo em torno, cachorro Ulisses pelo chão, carinho especial pelas assessoras domésticas e personagens do dia a dia. Clarice. Simples assim