Clarice Lispector inspira quatro peças em cartaz nos palcos cariocas

Pedro Tinoco, Especial para O GLOBO

RIO — Além do musical “A hora da estrela ou o canto de Macabéa”, que acaba de estrear no Rio com Laila Garin no papel principal, o centenário de nascimento de Clarice Lispector motiva a chegada (ou a volta) de outros espetáculos aos palcos cariocas.

Um deles, inédito, também entrou em cartaz nesta quinta-feira (5) no Sesc Copacabana e é concebido por uma das maiores especialistas sobre a obra da escritora. Formada em Letras, professora universitária, Clarisse Fukelman tem textos seus publicados em edições de livros da autora e, nos últimos anos, comandou por quatro vezes “A hora de Clarice”, tributo realizado no dia do aniversário da homenageada, também no Sesc. Essa experiência levou-a à concepção da dramaturgia do espetáculo “Ao redor da mesa, com Clarice Lispector”.

— Clarice virou um mito, intocável, sua obra passou a ser vista como um pacote só e isso prejudica muito a sua leitura. Ela tem, desde o primeiro livro, um olhar crítico sobre a cultura e a sociedade brasileiras. Também foi pioneira ao abordar questões como preconceito, opressão feminina, a velhice. A peça procura mostrar isso — diz Clarisse Fukelman.

Na trama, a Clarice dos anos 60 (Gisela de Castro), ali com seus 40 anos e ainda às voltas com o livro “A paixão segundo GH”, marco de sua carreira, encontra-se com a Clarice do final da década seguinte, já no final da vida (Ester Jablonski, também diretora da montagem). Ana Barroso e Joelson Medeiros, também no elenco, interpretam personagens criados pela escritora, enquanto a direção musical de Liliane Secco costura as cenas com temas que fazem referência a composições de que Clarice Lispector gostava ou citou em sua obra.

— O encontro das duas Clarices revela diferentes pontos de vista dela sobre o mesmo assunto. A intenção é oferecer um aperitivo, para que o público saia e procure seus textos sobre idosos, relações familiares, o desejo de criar, o desafio de se lançar como escritor, entre outras questões — diz a criadora de “Ao redor da mesa”.

Outra peça em cartaz é um sucesso já visto por mais de 65 mil pessoas em cerca de 450 sessões. “Missa para Clarice — Um espetáculo sobre o homem e seu deus” chega ao ano do centenário da autora em temporada no Teatro Maison de France. Criada, dirigida e estrelada por Eduardo Wotzik, a peça mergulha na obra de Clarice, levada ao palco na forma de uma celebração religiosa. No papel de um “arauto clariceano” e apoiado por uma dupla de “beatas” (Cristina Rudolph e Natally do Ó), Wotzik comanda a missa, com direito a cantos coletivos e pedidos para a plateia sentar e levantar.

No lugar de orações ou passagens bíblicas, porém, a liturgia é construída com trechos de contos, livros e entrevistas da autora. O ritual cênico, uma reflexão em torno de religião e arte baseada nos escritos de Clarice, ganha corpo com a iluminação de Fernanda Mantovani, a direção de arte de Analu Prestes e a música do compositor polonês Henryk Gorecki (1933-2010).

— Tenho a alegria de estar em cena dialogando com Clarice. Uma benção que os deuses do teatro têm me permitido. Clarice me faz companhia e me ensina todo dia. Sem dúvida alguma é a artista que conheço que chegou mais perto do Mistério — conta Wotzik.

O terceiro espetáculo em cartaz é “Maravilhoso escândalo”, inspirado no romance “Água viva”, dirigido por Gabriel Bulcão.

“Ao redor da mesa”

Onde: Sesc Copacabana — Rua Domingos Ferreira, 160 (2547-0156). Quando: De qui. a dom., 20h. Até 29/3. Quanto: R$ 30. Duração: 70 min. Classificação: 12 anos.

“Missa para Clarice”

Onde: Teatro Maison de France — Av. Presidente Antonio Carlos 58 (2544-2533). Quando: Sex. e sáb., 20h, dom., 18h. Até 5/4. Quanto: R$ 60 a R$ 70. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos.

“Maravilhoso escândalo”

Onde: Teatro Glaucio Gill — Pça Cardeal Arcoverde s/nº (2332-7904). Quando: Sex., sáb. e seg., às 20h30. Dom. às 19h30. Até 30/3. Quanto: R$ 50. Duração: 75 min. Classificação: 12 anos.