Claudia Rodrigues: as terapias tradicionais e experimentais que controlam a esclerose múltipla há 20 anos

Na batalha contra a esclerose múltipla há duas décadas, a atriz Claudia Rodrigues mantém a mobilidade em um estado surpreendente em sua condição. Anda sozinha e sua dificuldade para caminhar é quase imperceptível. A fala arrastada é perfeitamente compreendida. A artista de 52 anos está assim graças à intensa dedicação a tratamentos de ponta.

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Nesta semana, ela ficou instalada em um hotel na zona sul de São Paulo, ao lado de uma clínica médica, onde está se submetendo a mais uma nova tecnologia contra a doença ainda em fase de estudos, mas promissora. Chamado de REAC, a técnica de origem italiana consiste em um aparelho que ativa o cérebro com ondas magnéticas. Não invasivo, o dispositivo no formato de uma caneta emite as ondas por meio de pontos específicos da orelha. As regiões estimuladas são associadas à cognição, como a fala e a locomoção.

Esse é o sexto tratamento em que Claudia topou participar como voluntária. Os avanços têm sidos extraordinários. A atriz não parece ser a mesma pessoa de 2015, antes de se submeter ao primeiro procedimento médico para a doença: um transplante de medula óssea. Naquela ocasião, ela não conseguia dar mais de cinco passos sem precisar de uma cadeira de rodas, seu corpo e sua face estavam retorcidos pela doença. Enfrentava uma depressão severa onde não tinha mais forças para lutar pela vida. Tinha vergonha de sair de casa por conta de suas tremedeiras que a impossibilitava de comer ou beber em público, e precisava de ajuda para fazer coisas pequenas, como um simples banho.

— Ela estava definhando em um processo degenerativo muito rápido. Se uma pessoa conversava sobre o mar, ela respondia sobre a noite e assim por diante. Quando a levei no médico, ele disse que não tinha como melhorar, era dali para pior, e o que podíamos fazer era aumentar o tempo de vida útil e a qualidade de vida que ainda restava — diz a ex-empresária e atual namorada de Cláudia, Adriane Bonato.

Naquela época, os médicos fizeram uma análise dos resultados e chegaram a fazer um cálculo para classificar a esclerose de 0 a 10. Onde zero é a cura e dez a morte. Os especialistas colocaram a artista como 8.9 — apenas um ponto para chegar no grau 9, tido como estado vegetativo e um caminho sem volta para o óbito. Elas então ouviram dos médicos que os pacientes com esclerose múltipla não retrocediam nessa escala.

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— Eu me senti na lama. O médico virar e falar para você que não tem como melhorar, é daí para pior. Deu vontade de falar: ‘abre um caixão aqui que eu já me deito nele, então’ — diz a atriz.

Após o transplante de medula, a doença de Claudia estagnou e tirou da atriz a sensação de fadiga e cansaço, que a impossibilitava até de fazer a fisioterapia e a hidroginástica, importantes para retardar a atrofia muscular que a doença causa.

— Eu era como um saco de batatas que precisava ser segurada e ajudada o tempo inteiro. Se me soltassem eu desabava no chão — diz a atriz.

Cláudia também faz uso de uma técnica batizada de “terapia Bemer” -- uma manta térmica que melhora a circulação e a oxigenação dos tecidos. A terapia, pelo aumento da energia eletromagnética, promete estimular o metabolismo e dá energia.

Canabidiol

Afora a cirurgia, o procedimento com maior impacto foi o canabidiol. O composto da Cannabis, consumido no dia a dia, deu fim às tremedeiras e a deixou independente para executar movimentos do dia a dia, como comer, tomar banho e amarrar os sapatos.

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— Foi revoltante quando o Conselho de Medicina Federal restringiu o uso do canabidiol. A Claudia teria que parar de tomar, e eu posso falar que seríamos fora da lei, porque usaríamos mesmo assim. Se eles não tivessem revogado a decisão, estaríamos lutando e manifestando contra. Hoje, mesmo com a Claudia sendo registrada na Anvisa, e a empresa que nos fornece sendo americana, às vezes o remédio fica preso na alfandega e precisamos entrar com tramites judiciais para soltá-lo. Na última vez, por exemplo, ela ficou um mês sem tomar o medicamento e retrocedeu bastante — diz Bonato.

O pacote de procedimentos faz com que Cláudia registrasse no último exame de controle melhora de 77% nas funções cognitivas. A massa encefálica voltou a crescer mais do que o previsto.

— Das 71 lesões cerebrais que eu tinha, 42 eram buracos negros, ou seja, lesões mais graves. Segundo os últimos exames, eu perdi cerca de 32 deles, eles estão cicatrizados e não são mais considerados lesões. Ao todo devo ter apenas 40 lesões cerebrais agora — diz a atriz com a felicidade estampada no rosto.

— Agora consigo lembrar de nomes do meu passado, números de telefone antigos. Coisas que antes era uma névoa espessa e pesada que não me ajudava a me lembrar de nada — afirma Rodrigues.

Novo passo

Em março, a atriz irá para os Estados Unidos para se submeter a um tratamento em testes chamado de “indução de choque térmico”, que, como o nome já indica, usa o método de resfriar o cérebro a baixas temperaturas. A tese é que isso pode reduzir as sequelas da doença.

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— Quero voltar a trabalhar. Não quero mais ficar no modo privativo, quero voltar a sair, voltar a viver — diz esperançosa.