Claudio Castro nega que secretário de Saúde não sabia da criação do Comitê Científico

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RIO — Em nota enviada nesta quarta-feira, o governador em exercício Claudio Castro afirma que o secretário de Saúde Carlos Alberto Chaves tinha conhecimento da criação do Comitê Científico. Nesta terça-feira, Chaves negou ter participado da criação do Comitê Científico do governador Claudio Castro. No comunicado, o Palácio Guanabara ainda aifrma que " é ilação dizer que este comitê promoverá políticas de tratamento precoce"

"É importante esclarecer que o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, sempre teve conhecimento da criação do comitê, o qual está dentro da estratégica de enfrentamento à Covid-19.. É importante frisar que este comitê não está subordinado à Secretaria de Estado de Saúde, já que o tema tem repercussões que extrapolam os limites delegados à pasta, havendo a necessidade de ampliação do escopo de trabalho e debates. O Governo do Estado reitera o respeito à ciência, às boas práticas clínicas e, sobretudo, o reconhecimento aos milhares de pesquisadores espalhados pelo mundo que estão se dedicando na busca por soluções e alternativas para o enfrentamento à Covid-19.", diz trecho da nota.

O GLOBO revelou que a maioria dos escolhidos por Castro é defensora do tratamento precoce da Covid-19 com medicamentos sem eficácia. Em coletiva de imprensa convocada nesta terça-feira para comentar as ações da pasta, Chaves disse ainda que não possui vinculo com nenhum deles e ainda não conversou com nenhum dos escolhidos pelo governador.

— Quem me conhece sabe disso. Não tive nenhuma participação e nem sabia. Não tenho vínculo com ninguém. Soube hoje. Se é político ou não vocês decidam. Eu sou técnico e não me envolvi nisso. Não tive tempo, estava levando vacinas. Não tenho tempo para isso, tenho tempo para salvar vida e correr atrás — disse

Ao ser questionado se o Comitê terá algum papel na secretaria, Chaves negou:

— Comigo não.

Procurado pelo GLOBO, Carlos Alberto Chaves não retornou o contato até a publicação dessa reportagem.

RIO — Depois que o governador Cláudio Castro escolheu o infectologista Edimilson Migowski como presidente do novo comitê científico estadual de enfrentamento à Covid-19, O GLOBO questionou a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde o médico leciona, sobre a controvérsia que ele criou ao defender soluções sem eficácia comprovada para a doença, como o tratamento precoce à base do antiparasitário nitazoxanida. Por nota, a reitoria da universidade pontuou que o professor se posiciona por ele próprio e que não compactua com as crenças dele.

"Não houve indicação da UFRJ para o Governo do Estado", diz ainda o comunicado.

A UFRJ escreveu também que a questão da prática clínica é regulamentada pelos conselhos regionais e federal de Medicina, não pela universidade.

"Na UFRJ, ele não é médico. Não temos protocolos com medicação precoce em nossos hospitais", diz a instituição.

Segundo a universidade, Migowski é ligado ao Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG/UFRJ). De acordo com a plataforma Lattes, Migowski tem títulos de mestrado em Pediatria e doutorado em Doenças Infecciosas e Parasitárias, ambos pela UFRJ. O currículo informa que Migowski mantém, desde 2002, os cargos de Professor Adjunto e Chefe do Serviço de Infectologia Pediátrica da UFRJ. Ele foi diretor do IPPMG/UFRJ de 2011 a 2017.

Nas redes sociais, Migowski defende o uso da nitazoxanida, um vermífugo, como tratamento prévio para sintomas de Covid-19. No ano passado, o governo federal chegou a dizer que o remédio reduziria a carga viral em pacientes infectados, mas em janeiro o Ministério da Saúde informou à Câmara que decidiu não incorporar a nitazoxanida ao tratamento da doença.

Em outubro, Migowski fez uma live com o médico Guili Pech, que também faz parte do comitê. O tema foi “A ditadura da medicina baseada em evidências e o uso da nitazoxanida”. Em março deste ano, um perfil de Instagram chamado "Fique Bem", também administrado por Migowski, divulgou uma live intitulada "Lockdown é para gestores incompetentes".

Num outro post desta conta, publicado no mesmo mês, o infectologista Mauro Schechter, também da UFRJ, chegou a convidar Migowski para um debate sobre as terapias defendidas pelo hoje presidente do comitê científico estadual de combate à pandemia.

"Edimilson, várias vezes lhe convidei para um debate público sobre tratamento de Covid-19. Somos ambos infectologistas, ambos professores da UFRJ. Aguardo sua resposta" escreveu ele. Segundo Schechter, Migowski nunca respondeu ao convite.

Os únicos métodos de prevenção à Covid-19 preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) são o uso de máscara, a higienização frequente das mãos e o distanciamento social. Outros pesquisadores da área de doenças infecciosas pleiteram publicamente a restrição das atividades comerciais para conter o contágio do vírus. Entre eles, o infectologista da UFRJ Roberto Medronho, ex-presidente do comitê científico criado pelo governador afastado Wilson Witzel.

A indicação de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 também já foi repudiada por pesquisadores renomados do ramo de infectologia, como Celso Ramos, da UFRJ, ex-membro do comitê científico de combate à Covid-19 da prefeitura.

— É uma questão de muito tempo atrás, que na década de 1970 já tentávamos combater. O Brasil tem índices altíssimos de resistência a medicações antimicrobianas, e uma das causas disso é o uso reiterado delas. Costumo dizer que o uso desses remédios se dá por três vias: por via oral, via venosa e por via das dúvidas, que é a mais comum. Por via das dúvidas, 'pimba', vamos dar para ver se ela faz alguma coisa — disse o especialista ao GLOBO.