“É um clima de guerra”: percepções de um médico em meio ao coronavírus

Anita Efraim
·3 minuto de leitura
Nurse wearing respirator mask holding a positive blood test result for the new rapidly spreading Coronavirus, originating in Wuhan, China
Máscaras, luvas, toucas e outros itens de proteção estão escassos no mercado (Foto: Getty Creative)

Desde que o coronavírus começou, em janeiro deste ano, médicos do Hospital das Clínicas, em São Paulo, estão se preparando para quando o contágio chegasse ao Brasil. “O que a gente quer fazer é se preparar para o pior cenário possível”, relata Ricardo Vasserman, médico residente que trabalha no local.

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O Brasil ainda não atingiu o pico da doença, ainda assim, os dias dos médicos têm sido intensos e difíceis. Ricardo conta que vive uma mistura de sentimentos: “é um clima de guerra, de tensão, sabemos que estamos diante de uma situação muito intensa, que vamos precisar estudar muito pra saber o que está acontecendo”.

Com o risco de contaminação, muitos médicos têm de se afastar das famílias e amigos, especialmente dos que são de grupos de risco. “Eu, pessoalmente, estou longe da minha namorada também. Não sei nem quando vou vê-la. É uma situação única. Eu tento nem pensar muito no que está acontecendo”, diz.

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O médico e outros colegas têm recebido muitas mensagens de apoio, o que dá forças para enfrentar o dia a dia.

Na visão de Ricardo, o Hospital das Clínicas está em uma boa situação financeira, por enquanto. Para ele, a fragilidade da instituição são os EPIs: Equipamentos de Proteção Individual. São máscaras, gorros, luvas, aventais, tudo necessário para que os profissionais da saúde não se contaminem com o vírus.

Com a percepção desse problema, Ricardo foi um dos médicos que criou a campanha de financiamento coletivo para levantar fundos para o Hospital das Clínicas. O objetivo é arrecadar R$ 10 milhões para comprar materiais básicos.

Durante o dia, ele dedica parte do tempo a esse projeto e outra parte com os pacientes no ambulatório e na Unidade de Terapia Intensiva.

Para entrar em um ambiente contaminado, ele chega a ficar cinco minutos se paramentando para encontrar um paciente contaminado e sente as mãos grossas de tanto lavar e passar álcool gel. A máscara fica na cara por até 12 horas seguidas – antes, eram seis horas, mas, para economizar, aumentaram esse tempo.

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Um problema apontado por Ricardo é que, com o excesso de informação, as pessoas querem comprar esses equipamentos de proteção individual, como máscaras. No entanto, só pessoas com sintomas devem usá-los. “Nós estamos há uma semana treinamento para usar corretamente esses equipamentos, e as pessoas não têm essa informação, acabaram comprando muito desses EPIs e acabou no mercado”, afirma. O hospital, inclusive, chegou a receber doações de pessoas que compraram caixas de máscaras e perceberam que não usariam.

Para Ricardo, é difícil para a população entender que ainda não se sabe tudo sobre o COVID-19. “Estamos falando de uma doença que começou em janeiro deste ano. Estamos construindo informação todos os dias. Isso é ciência”, explica.

O Hospital das Clínicas tem seguido as orientações dadas pela Organização Mundial da Saúde, o que inclui o pedido para que as pessoas fiquem em casa. O principal objetivo dessa medida é achatar a curva de contaminação. “Sabemos que há consequências sérias na economia, mas somos médicos e entendemos que precisamos pensar na vida em primeiro lugar”, pondera.

Se o número de casos não deixar de subir, o sistema de saúde pode colapsar, ou seja, não haverá mais leitos para atender pacientes – o mesmo que aconteceu na Itália. Algumas regiões do país Europeu também tiveram campanhas para evitar a “paralisação” de algumas cidades. Nesta sexta-feira, o país registrou o recorde de mortes pelo coronavírus: 919 mortes em 24 horas.