Cloroquina e TrateCov: entenda por que o remédio é ineficaz contra o coronavírus e as contradições em torno do aplicativo

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RIO — A recomendação de medicamentos ineficazes como a cloroquina contra a Covid-19, por parte do Ministério da Saúde, bem como o aplicativo TrateCov, lançado pela pasta em janeiro, estiveram entre os tópicos centrais de uma série de depoimentos prestados à CPI da Covid nas últimas semanas. Senadores abordaram os os temas, relacionados às possíveis falhas do governo federal diante da pandemia, em sabatinas dos ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello, Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta, bem como do atual titular da pasta, Marcelo Queiroga, e da secretária de Gestão do Trabalho da pasta, Mayra Pinheiro.

O GLOBO reuniu abaixo as respostas para as principais dúvidas sobre as substâncias e a ferramenta virtual elaborada pela Saúde. Confira.

Por que a cloroquina não funciona contra a Covid-19?

A cloroquina, bem como a hidroxicloroquina, sua derivada, foi elaborada na década de 1940 como uma droga para combater casos de malária, doença causada por um protozoário. Provocada pelo Sars-Cov-2, um vírus, a Covid não pode ser combatida pelo remédio, conforme demonstram estudos clínicos nacionais e internacionais realizados no ano passado, contrariando a hipótese defendida em meio à pandemia por membros das classes médica e política. A insistência na cloroquina faz com que a população se sinta incentivada a desrespeitar o isolamento, com a falsa garantia de que encontrará amparo na substância, o que não condiz com a realidade.

Qual a posição da Organização Mundial da Saúde?

A OMS emite alertas, desde julho do ano passado, para que países não utilizem a cloroquina para tratar casos de Covid. O aviso foi repetido em setembro e em março deste ano, quando a instituição também pediu para que a substância não seja utilizada em tentativas de prevenir a infecção pelo coronavírus. A Food and Drug Administration (FDA), que regula a utilização de medicamentos nos Estados Unidos e serve como parâmetro mundial para o tema, já havia realizado o veto em junho de 2020. A cloroquina pode implicar efeitos colaterais cardiovasculares, como arritmia, e neurológicos, agravados com o uso indiscriminado do medicamento.

Como e até quando o remédio foi utilizado no Brasil?

O país utiliza a cloroquina há 70 anos para tratar a malária e passou a utilizá-la no ano passado contra a Covid, por decisão do governo federal. O Ministério da Saúde recomendou que médicos prescrevessem a droga — conforme afirmou Mayra Pinheiro à CPI — e a distribuiu remessas de comprimidos a estados e municípios, a partir de abril de 2020. O GLOBO mostrou que os repasses duraram pelo menos até o mês passado, já com o ministro Marcelo Queiroga à frente da pasta, contrariando o relato dele aos senadores, no início do mês. Uma parcela expressiva das cápsulas saiu do Laboratório das Forças Armadas, mobilizado pelo governo para ampliar a produção de cloroquina.

O que foi o TrateCov e qual a relação dele com a cloroquina?

O TrateCov foi um aplicativo virtual lançado no início deste ano pela Saúde, na gestão de Eduardo Pazuello, para atender pacientes com sintomas de Covid e recomendar remédios ineficazes, incluindo a cloroquina, na tentativa de impedir o avanço da doença. Apesar de Pazuello negar, a ferramenta foi disponibilizada para download e divulgada por meio das redes sociais do ministério com foco inicial em Manaus, onde houve colapso do sistema de Saúde e do abastecimento de oxigênio hospitalar. Houve repercussão negativa diante da recomendação indiscriminada de cloroquina e a plataforma saiu do ar em seguida.

Houve ação hacker na divulgação do TrateCov?

Pazuello afirmou à CPI que seu ministério havia produzido um protótipo do aplicativo, disponibilizado online em uma ação hacker. Mayra Pinheiro apresentou outra versão aos senadores: segundo ela, o jornalista especializado em dados Rodrigo Menegat teria feito uma extração indevida do código que programa o funcionamento da ferramenta e retirado informações de contexto em publicações nas redes sociais. Menegat, na verdade, acessou dados que são públicos a todos os internautas. Em entrevista ao GLOBO, na tarde de ontem, ele se colocou à disposição da CPI para prestar esclarecimentos detalhados sobre o episódio.

Qual o impacto do acesso feito pelo jornalista ao código?

Em posse dos dados do TrateCov, de maneira possível para qualquer um que acessasse a ferramenta, Menegat conseguiu identificar a recomendação para uso de cloroquina com critérios quase ilimitados, a partir de características fornecidas por pacientes ao aplicativo. Um dos casos para o qual o jornalista chamou atenção foi a hipótese de o serviço prescrever cloroquina e outras duas substâncias (o vermífugo ivermectina, também ineficaz para o coronavírus, e o antibiótico azitromicina) para um bebê recém-nascido que apresentasse apenas dor de barriga e coriza. Além de Menegat, outros usuários fizeram simulações semelhantes.

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