Coalizão que governa a Itália entra em colapso, e primeiro-ministro deve renunciar hoje

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O governo de unidade da Itália está prestes a ser desfeito nesta quarta-feira, após o primeiro-ministro do país, Mario Draghi, não alcançar maioria durante um voto de confiança no Senado.

À frente nas pesquisas para as próximas eleições gerais, dois partidos de direita, a Força Itália, de Silvio Berlusconi, e a Liga, de Matteo Salvini, se recusaram a votar durante a moção. Já o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) declarou-se "presente e não votante" — isto é, se absteve.

Todos os partidos integravam o governo, que é composto por todas as principais siglas italianas, com exceções do ultradireitista Irmãos da Itália. Com as três ausências, Draghi perde a maioria.

Mesmo antes da sessão no Senado se encerrar, Draghi se dirigiu ao Palácio de Quirinal, sede da Presidência da República, para se reunir com o presidente do país, Sergio Mattarella, e oficializar sua renúncia. Com as três ausências, não houve quórum para validar a sessão no Senado, mas isto foi indiferente, pois o premier já deixara claro que só ficaria no governo se tivesse um amplo mandato.

Antes da votação, os dois partidos de direita se disseram dispostos a ficar no governo, contanto o MS5 saísse e fosse formada uma nova coalizão. "Os partidos de centro-direita querem um 'novo pacto' de governo e vão contribuir para a solução dos problemas do país, mas só com um novo Executivo, profundamente renovado, liderado igualmente por Draghi e sem o o Movimento 5 Estrelas", disseram em nota.

A exigência entrava em choque direto com uma demanda do próprio premier no Senado mais cedo. Em discurso, Draghi, deu sinais de que pretendia permanecer no cargo, após cinco dias de crise.

Para isso, no entanto, impôs como condição que os partidos da coalizão governista se alinhassem às suas propostas. Draghi afirmou que a Itália precisa de um “governo forte e coeso”, sustentado por “um acordo de confiança sincero e concreto”.

— A única maneira de continuarmos juntos é reconstruir esse pacto do zero, com coragem, altruísmo, credibilidade. O povo italiano, em particular, está pedindo isso — disse ele, que está no cargo há 17 meses.

Ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE) nomeado há 17 meses, Draghi disse que foi convidado a criar um governo para enfrentar a pandemia, bem como emergências econômicas e sociais. O amplo apoio permitiu que seu governo agisse rapidamente e aprovasse reformas, acrescentou.

— Acho que um primeiro-ministro que nunca enfrentou eleitores precisa do apoio mais amplo possível no Parlamento — disse Draghi, em alusão à sua condição de nunca ter sido eleito para o Parlamento.

Confirmada sua renúncia, Mattarella pode convidar os partidos a tentarem formar um novo governo até o final da atual Legislatura, no final do primeiro semestre do ano que vem, ou então convocar novas eleições gerais. As datas prováveis para o pleito, caso seja esta a opção, são 25 de setembro ou 2 de outubro.

Os motivos para o afastamento do premier são diferentes: a Liga e a Força Itália têm esperança de que, caso haja eleições antecipadas, possam chegar ao poder, pois as pesquisas mostram uma clara vantagem da direita. Já o M5S perdeu influência na política, e busca reconstruir sua identidade, com clamores públicos por maiores gastos sociais.

A crise foi deflagrada na quinta-feira da semana passada, quando o M5S se absteve de votar a favor de um pacote de gastos proposto pelo governo. Draghi então apresentou sua renúncia a Mattarella, mas este a recusou, convidando-o a realizar uma consulta com os partidos da base — isto é, a votação do Senado nesta quarta-feira.

Nos últimos dias, houve uma série de clamores públicos pela permanência de Draghi, em um momento em que a Itália enfrenta forte inflação, a perspectiva de uma recessão na Europa, a necessidade de aprovar reformas para ter acesso ao fundo da União Europeia de € 200 bilhões (R$ 1,1 trilhões) para a retomada pós-pandemia e um cenário internacional complexo com a guerra na Ucrânia.

Mais de mil prefeitos, incluindo os administradores dos 10 principais centros urbanos, assinaram uma petição pela permanência do premier, assim como o fizeram grupos de categorias profissionais. Houve também manifestações pela continuidade do governo nas principais cidades italianas, ações incomuns em um país onde a rotatividade na política tem sido alta.

O fim do governo insere uma alta dose de incerteza na política italiana, e sua repercussão foi imediata. A ministra dos Assuntos Regionais, Mariastella Gemini, anunciou sua saída imediata do Força Itália. Já o ministro do Exterior, Luigi di Maio , afirmou que o dia de hoje significa "uma página sombria para a Itália".

"A política falhou, diante de uma emergência a resposta foi a de não saber assumir a responsabilidade de governar. O futuro dos italianos foi usado como em um jogo. Os efeitos dessa escolha trágica permanecerão na História", escreveu no Twitter.

O último político italiano a conquistar um claro mandato nas urnas, sem exigir a formação de uma coalizão, foi Silvio Berlusconi, em 2008.

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