Cobertura de esgoto no Brasil é pior que no Iraque

Índices podem explicar epidemias como dengue e zika (Foto: REUTERS/Sergio Moraes)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Números podem explicar a proliferação de epidemias como dengue e zika

  • Crise fiscal dos governos estatais agravou a situação

Levantamento feito pela empresa gestora de investimentos Miles Capital revela que o Brasil tem índices de cobertura de água e esgoto piores que os de países como o Iraque, a Jordânia e o Marrocos. Dos 209 milhões de brasileiros, 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto, e 35 milhões não recebem água potável. O ranking foi elaborado com dados do Instituto Trata Brasil, da Unicef e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Isso significa que a cobertura de água e esgoto no país é de 83,3% e 51,9%, respectivamente. No Iraque, por exemplo, esses números são de 88,6% e 86,5%. Até países com PIB (Produto Interno Bruto) menor que o do Brasil se saem melhor no ranking: é o caso do Peru e da África do Sul. Os números podem ajudar a explicar a proliferação de doenças como dengue e zika – duas epidemias que atingiram os brasileiros nos últimos anos.

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Empresários defendem que a solução para o problema é a privatização das estatais estaduais, já que hoje apenas 6% dos municípios são atendidos pela iniciativa privada nesse setor. A maioria das empresas públicas de saneamento está no negativo e depende de investimentos dos governos estaduais para se manter funcionando – algumas exceções são a Sabesp (SP), a Copasa (MG), a Sanepar (PR) e a Compesa (PE).

"Muitas companhias estaduais estão com problemas de endividamento e baixa capacidade de captação, o que dificulta qualquer planejamento de expansão da rede", defende o diretor da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), Percy Soares Neto, em entrevista à Época Negócios.

A crise fiscal dos governos estaduais foi um dos fatores que agravou a situação. Empresas privadas têm se interessado menos em investir no ramo por conta da falta de licitações e de regulamentação adequada. Pela legislação atual, contratos de concessão podem ser renovados automaticamente, sem novas licitações. Isso permite que as estatais dominem o ramo, mesmo sem oferecer melhorias para a população.

"Todos os setores intensivos em capital, como energia elétrica e telecomunicação, já venceram essa barreira (com as privatizações). Saneamento ficou para trás e virou um retrato do século 19", argumenta Teresa Vernaglia, presidente da BRK Ambiental - ex-Odebrecht Ambiental.

Teresa conta que em 2012, quando a BRK Ambiental assumiu o saneamento básico da cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, apenas 9% do município tinha acesso à coleta de esgoto e os hospitais tinham 3 mil internações por diarreia por ano. Seis anos depois, o índice de cobertura saltou para 94% e o número de internações caiu para 108.

"Diante desses avanços num curto espaço de tempo, é inadmissível permitir que pessoas continuem morrendo por falta de saneamento básico. Esse quadro precisa mudar", defende a empresária.