Cocô cúbico e o prazer de se coçar estão entre vencedores do prêmio Ig Nobel

GABRIEL ALVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Por que os vombates, simpáticos marsupiais australianos, fazem cocô cúbico? A solução para o pontiagudo mistério, que envolveu a análise minuciosa do intestino dos animais e de seu conteúdo, recebeu o prêmio Ig Nobel deste ano na categoria de física.

A láurea, concedida pela revista de humor científico Annals of Improbable Research (Anais da pesquisa improvável), é uma sátira ao Prêmio Nobel. Mas engana-se quem pensa que os cientistas ficam chateados ao recebê-la.

"É uma grande honra ser reconhecido por isso. [O prêmio] estimula o interesse das pessoas pela ciência e traz reconhecimento a um animal que enfrenta ameaças de atividades humanas, o que justifica o esforço de conservação", diz à Folha Scott Carver, da Universidade da Tasmania, na Austrália.

A ideia de explicar o cocô cúbico apareceu durante um jantar, conta a pesquisadora Ashley Edwards, que trabalha com Carver.  "Estávamos conversando sobre o formato cuboide do cocô dos vombates durante o jantar, o que pareceu algo perfeitamente normal naquele momento, e nós começamos a pensar como deveriam ser organizadas as camadas de músculo intestinal para que os cubos fossem produzidos."

David Hu, do Instituto de Tecnologia da Georgia (EUA), diz que o próximo passo é descobrir como os animais se comunicam uns com os outros por meio das fezes cúbicas. 

A pesquisa pode ter aplicações médicas: "Quando há doenças no cólon, propriedades físicas do órgão podem mudar, e isso pode mudar a forma das fezes. Talvez médicos ou veterinários possam dizer algo sobre a saúde de um animal se virem bordas angulares ou faces planas nas fezes", especula.

Na categoria biologia do prêmio, Tomasz Paterek e colaboradores estudaram o efeito de magnetização em baratas vivas e mortas, também com possível aplicação prática.

"Baratas são adequadas para a pesquisa: elas são fáceis de manusear, têm o tamanho e a massa perfeitos e são fáceis de se adquirir", diz Paterek, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.

Depois de decifrar como organismos conseguem se comportar frente a campos magnéticos, será possível construir pequenas bússolas e sensores magnéticos inspirados nesses mecanismos biológicos.

Silvano Gallus, do instituto italiano Mario Negri, é o vencedor da categoria medicina. Ele observou que a presença de pizza na dieta pode ser um bom indicador de saúde --na Itália.

"Estou honrado em receber esse prêmio bizarro porém importante. Na verdade, os resultados são muito relevantes, uma vez que haja a interpretação correta: a pizza na Itália pode representar um indicador geral da dieta no país, que, como outras dietas mediterrâneas, já mostraram benéficos para a saúde, como menos risco de câncer intestinal e infarto."

Os vencedores do Ig Nobel ressaltaram o papel do investimento público em ciência e pesquisa. 

"Financiamento público de pesquisa é de suma importância para o sucesso científico de um país. Quando um país corta o financiamento para a pesquisa, ele vai ficar para trás no fim em relação a seus competidores", diz Fritz Strace, que ganhou o Ig Nobel de psicologia por sua hipótese, que não perseverou, de que um sorriso forçado com o auxílio de uma caneta no rosto poderia trazer felicidade.

"Se o Reino Unido sair da União Europeia, nós não vamos ter acesso ao fundo de pesquisa de EUR 30 bilhões para o qual todos os Estados-membros contribuem", diz Francis McGlone, professor de neurociência na Liverpool John Moores University, ganhador do prêmio Ig Nobel da paz por estudar o prazer de coçar uma coceira.

"É fascinante para um neurocientista estudar os mecanismos por trás da coceira e quão devastadora pode ser a coceira crônica para os pacientes", diz.

Confirmaram participação na cerimônia de entrega alguns ganhadores do Nobel (o de verdade): Eric Maskin (economia, 2007), Rich Roberts (fisiologia ou medicina, 1993), Marty Chalfie (química, 2008), e Jerome Friedman (física, 1990).

Os vencedores, em dez categorias, receberam uma nota de dez trilhões de dólares do Zimbábue (sem valor monetário). O prêmio, já em sua 29ª edição anual, é dado na Universidade Harvard, em Cambridge, e os vencedores, que bancam suas próprias despesas de viagem, promovem seminários para difundir o conhecimento científico para o público geral nos dias seguintes.