Cocar indígena não é fantasia para o seu filho: a realidade por trás do objeto sagrado

Alice Pataxó
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O significado do cocar é enorme para povos indígenas e os brancos devem respeitar, não usar como fantasia (Reprodução/Instagram/Alice Pataxó)

O cocar é o maior símbolo quando se fala em representação indígena. Sempre ligam os povos ao seu uso, com diversas cores e tamanhos, em algo que ficou bastante simbólico para a maneira com a qual o indígena é visto pelo restante da sociedade. Acontece que o cocar é um elemento não só encantador dessas culturas, mas também de bastante importância no que diz respeito à organização social daquele grupo. E neste texto vou falar sobre a importância do cocar e, principalmente, do respeito ao cocar.

Todo povo indígena usa cocar?

Para começar é sempre bom dizer que não são todos os povos indígenas usam o cocar. Como em todo aspecto, o indígena não deve ser olhado apenas como um, como se todos fossem iguais apenas por suas origens. E essa é uma percepção importante de se ter ao falar do cocar, um objeto tão simbólico e ao mesmo tempo importante, mas que não está presente em todas as culturas, o que fala sobre essa heterogenia entre as populações.

Algumas aldeias, por exemplo, não usam o cocar e sim outros diversos objetos de arte indígena para criar a mesma representação que, para quem não conhece a diversidade indígena, pode ser atrelada só a esse objeto. Existem muitos povos nos quais, por exemplo, a tiara é esse objeto. E em tantas outras comunidades, outros objetos diferentes. Diversidade.

As variações dos cocares

A variação do cocar e seus significados são muitas: cocar de sisal, penas, trançados com técnicas de cestaria, e em uma tentativa sustentável, surgiu também cocar feito de canudos de madeira. Mas construir um cocar é algo bastante pessoal, complexo e que, novamente, varia muito de comunidade para comunidade. A variedade nos cocares vai desde aos materiais, passando pelas penas e, claro pelo seu significado de povo para povo. 

O cocar pataxó

Sou do povo pataxó e, por isso, vou citar esse exemplo. Em nossa comunidade o cocar pataxó tem importantes funções para quem o usa. A posição social e o poder dentro da aldeia são as principais delas, representadas por diversas cores e seus diversos e singulares significados. Além disso, cocares contam histórias. 

O cocar pataxó é feito com penas (Edison Bueno / Funai)
O cocar pataxó é feito com penas (Edison Bueno / Funai)

O cocar conta a história do guerreiro ou da guerreiro que o usa. Conta sua luta, sua trajetória e por isso, além de ser um elemento completamente pessoal, acaba se tornando sagrado por carregar a sabedoria daquele que o usa. Não a toa, o cocar não pode ser usado por qualquer outra pessoas sem o consentimento de seu dono. O pedido e a permissão são sinais de admiração e respeito. 

O cocar Fulni-ô

Mas há, como disse, diversas cores, tipos e histórias para cocares. O da comunidade Fulni-ô, por exemplo, não lembra o pataxó. É feito de palha e seu uso é exclusivamente masculino. Junto dele está a conexão do guerreiro como grande espírito, se tornando um símbolo de sua resistência ao processo colonial iniciado com a invasão portuguesa em 1500.

O cocar Fulni-ô, feito de palha (Reprodução)
O cocar Fulni-ô, feito de palha (Reprodução)

Alguns povos, por sua vez, usam cocares grandes, descendo suas costas, defendendo seu corpo, outros apenas suas cabeças.

E as penas para fazer os cocares, como são obtidas?

E para finalizar, muito se fala das penas usadas para fazer os cocares. É bom destacar que, como tudo que envolve a confecção de um cocar, as penas também têm significado, não são escolhidas de forma aleatória. As penas contam a história não só daquele que está utilizando o cocar, mas também do animal que um dia foi dono daquelas penas.

Esse respeito à história dos animais, não é bem visto o abate dessas aves para que haja a produção de artesanato. Como em tudo na vida de comunidades indígenas, o equilíbrio é um dos pontos principais. O cocar é uma benção e, por isso, não pode nunca ser um símbolo da maldade humana, se alimentando dos pássaros que vestem essas penas para viver.

Um único cocar pode ter pena de várias aves diferentes, aí dependendo muito da individualidade e do significado de cada um. Arara, papagaio, gavião. Todos esses pássaros têm penas nos mais diversos cocares pelas comunidades indígenas, a depender muito da região do povo que o utiliza. Esse aspecto, aliás, dá o tom de uma ligação territorial transmitida através do cocar, uma representação da fauna.

As penas caem do céu, das aves que criamos em nossas aldeias, sendo a fonte principal da nossa coleta. E uma lembrança de que um dia nos céus esses pássaros alçaram voo, com suas cores, sua presença na natureza e em nossos seres, nos lembrando da responsabilidade de fazer parte de um povo e o representar. Por isso cocares indígenas não são e nunca vão ser adereços para brancos usarem como fantasia.

Nesta semana você acompanha uma série de textos de Alice Pataxó, ativista e comunicadora indígena, no Yahoo Notícias, sobre os Povos Indígenas, sua cultura, sua luta e sua mensagem. No primeiro texto da série, escreveu sobre o "Dia do Índio".