'Coestelário': projeto relembra mortes de 2020 com poemas-visuais

Bolívar Torres
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Na antiguidade, as estelas funerárias eram placas feitas de pedra ou madeira que marcavam as tumbas e louvavam o legado de seus mortos (estela significa “pedra erguida” em grego). Na era digital, elas foram reapropriadas pelo poeta, escritor e tradutor Guilherme Gontijo Flores e o ilustrador Daniel Kondo para homenagear personalidades que se foram em 2020. Desde junho, a dupla mantém o projeto “Coestelário”, que transforma as muitas perdas do ano em poemas-visuais.

As homenagens são publicadas no instagram do projeto (@coestelario) e também no blog da Companhia das Letras, com um post para cada personalidade. O traço de Kondo se funde ao texto de Montijo Flores, lembrando o legado de mortos de diversas áreas, do esporte (Diego Maradona e Valdir Espinosa) ao jornalismo (Gilles Lapouge e Jan Morris), do cinema (Ian Holm) à música (Aldir Blanc e Vanusa) e a literatura (Sergio Sant’Anna e Rubem Fonseca), para citar só alguns exemplos. Seguindo às suas origens históricas, as estelas digitais evitam qualquer morbidez, imprimindo beleza ao luto.

— É um trabalho doloroso, porque estamos falando de pessoas que fizeram parte da nossa formação — diz Gontijo Flores, tradutor de poetas clássicos como Safo e Sexto Propércio, e autor do romance “História de Joia” (Todavia). — Mas, por mais que a ideia fosse um memorial para um ano simbolicamente triste, não queríamos cair no lamento. Como nas antigas placas funerárias, valorizamos os temas das vidas dessas personalidades públicas e celebramos o que elas nos deixaram.

A maior motivação, no entanto, veio do descaso oficial com que, segundo Flores e Kondo, o governo tratou a perda de artistas. Para eles, a gota d' água foi a morte de Aldir Blanc, em maio, que não mereceu uma nota pública da então secretária de cultura Regina Duarte. Em um primeiro momento, o projeto focou nas homenagens aos mortos dos meses anteriores, e só depois encaixou em uma linha temporal próxima a nossa. Até agora, foram 130 poemas-visuais para cada uma das personalidades lembradas. O projeto prevê 180, número que pode alterar dependendo dos últimos dias de 2020. Pelo cronograma da dupla, as postagens devem seguir ainda nos primeiros meses de 2021, lembrando os últimos mortos do ano.

— As ideias para os posts variam: às vezes é o texto que surge antes, às vezes é a imagem — explica Daniel Kondo, autor de livros como “Opostos on the table” (2014). — Nessa dinâmica de trabalho, eu e o Guilherme estamos sempre supreendendo um ao outro.

A dupla optou por homenagear apenas figuras públicas — em alguns casos, homenagens coletivas, como o “Genocídio Ameríndio”. Aos nomes conhecidos por quase todo mundo (como Paolo Rossi, Little Richard ou Chadwick Boseman), juntam-se algumas figuras menos midiáticas, como a matriarca da cultura bantu do Espírito Santo Laura Felizardo ou a poeta Tereza Tenório, importante expoente da geração de 65. Nesse sentido, o projeto ajuda o público não apenas a lembrar como também conhecer melhor os mortos de 2020 e ser introduzido ao seu trabalho. Afinal, quantas vezes descobrimos uma figura importante apenas quando ela se vai?

— Houve mensagens de pessoas que se emocionaram com a homenagem, mesmo sem saber nada da trajetória do homenageado — conta Kondo. — Na internet, nunca podemos prever para quem uma obra pode chegar. Recebemos um emoji de coração da (cantora) Cat Power após o poema-visual para o produtor americano Hal Willner. Também recebemos uma mensagem muito bonita da Isabel Blanc (filha do Aldir), agradecendo pela postagem.