Colégio de SP oferece alternativa a livro de Anne Frank criticado por pais

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após reclamações de pais por trechos que abordam sexualidade, o Colégio Móbile, em São Paulo, disponibilizou uma edição alternativa do "Diário de Anne Frank" para os que se sentiram constrangidos com a versão anterior, em quadrinhos.

O livro que gerou a discórdia foi “Anne Frank: The Graphic Adaptation” (Anne Frank: a adaptação gráfica). Após as críticas, foi reintroduzida na bibliografia a obra “The Diary of a Young Girl” (o diário de uma jovem garota), somente em texto escrito, que era trabalhada pelo colégio até o fim de 2020. Agora os pais podem escolher qual das duas versões preferem que seus filhos leiam.

A leitura oral do livro faz parte do projeto Memory Seeds (sementes da memória), desenvolvido nas aulas de inglês do sétimo ano, que tem como objetivo falar sobre o Holocausto. A obra utilizada é autorizada pela Fundação Anne Frank.

O diário foi declarado patrimônio da humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

A edição em quadrinhos contém a versão completa da obra, autorizada pelo pai da garota, Otto Frank. Os principais pontos explorados são a vivência da garota em meio à Segunda Guerra Mundial e à perseguição aos judeus, mas Anne, morta em 1945 em um campo de concentração na Alemanha, também fala sobre sua puberdade.

A carta enviada à escola destaca os trechos do livro que geraram incômodo nos pais, afirmando que existem “aspectos eróticos” na narrativa. Anne Frank faz relatos como “toda vez que vejo um nu feminino, vou a êxtase” e “esse buraco é tão pequeno que mal consigo imaginar como um homem entra aqui dentro [...] já é difícil enfiar o meu dedo indicador dentro”.

A carta também mostra o posicionamento dos responsáveis que, sem serem identificados, expressam sua opinião sobre o uso da obra e relatam conversas que tiveram com seus filhos.

“A escola não tem o direito de jogar essa leitura no colo deles e nas costas dos pais. Cada família decide como e quando abordar a sexualidade com seus filhos”, declara um deles. “Minha filha que leu sobre pênis e vagina. Disse que deu risada. Certamente porque ficou constrangida. Os amigos riem, as crianças ficam incomodadas”, afirma outro.

Os signatários pedem que a escola volte a utilizar a versão anterior do livro, além de solicitarem uma reunião com a direção do colégio. “Ressaltamos a importância de uma educação familiar que preza o respeito e a liberdade de expressão acima de tudo, independentemente de gênero, raça, religião, classe social e posição política”, diz outro trecho.

O caso ganhou dimensão após uma postagem da DJ Pietra Bertolazzi em seu perfil no Instagram, na qual ela compartilha a insatisfação dos pais e reproduz trechos do livro.

“Todas essas frases pornográficas que eu proferi vergonhosamente agora remetem às falas de Anne Frank nesta obra que não só desacata, insulta e afronta toda a comunidade judaica”, disse.

A Federação Israelita de São Paulo, porém, saiu em defesa da Móbile em nota enviada à escola. “Tal posicionamento [de sexualizar a figura de Anne Frank] é equivocado porque não considera a totalidade do material que vem sendo apresentado aos alunos”, afirma. “Em nenhum momento vemos indício de antissemitismo no material.”

Maria (nome fictício), 47, é mãe de uma das alunas do 7º ano do Colégio Móbile. Ela não foi signatária da carta por entender que o conteúdo estava sendo trabalhado com responsabilidade na escola, mas diz entender a insatisfação de parte dos pais.

“Eu acho que isso aconteceu porque as crianças não têm o mesmo nível de maturidade e essa questão de sexo gera muito medo nas pessoas”, disse. “Talvez a condução da escola tenha sido equivocada ao pedir aos alunos para lerem em voz alta, mas as crianças têm acesso à internet e sabem muito mais do que imaginamos.”

Ela conta que, de acordo com a filha, a professora avisou os estudantes que algumas passagens do livro poderiam causar desconforto, mas que nenhum dos alunos era obrigado a participar da leitura caso não se sentisse à vontade.

A advogada e psicanalista Raquel Costa, 44, assinou uma carta em apoio à escola por acreditar que as insatisfações apresentadas eram descoladas da realidade representada no livro. Ela é mãe de um aluno do 7º ano do período integral, cujo projeto pedagógico não inclui a versão em quadrinhos do livro.

Por outro lado, Raquel também afirma entender a insatisfação de parte dos pais.

“Eu entendo que algumas famílias tenham se sentido constrangidas, porque, se eu não falo abertamente sobre o assunto, ele pode se sentir constrangido. O que eu não entendo é por que as pessoas em vez de resolver diretamente com a escola tenham recorrido às redes sociais”, diz.

Na primeira comunicação com os pais, a direção do ensino fundamental da escola afirmou que a escolha da obra em quadrinhos se deu para ampliar o desafio linguístico aos alunos. Disse também que o livro é adequado aos alunos do 7º ano e fiel ao texto original.

“Vale ressaltar que, nas mais diferentes versões do 'Diário', são bastante conhecidas as reflexões que a protagonista faz sobre suas paixões, sua puberdade e sexualidade, além, é claro, dos conflitos familiares decorrentes do confinamento e dos temores da guerra.”

Em um segundo comunicado, a diretora-geral e fundadora da escola, Maria Helena Bresser, declara que os trechos que se referem à puberdade de Anne correspondem a menos de 7% do livro, além de não erotizarem a história. “Os trechos transformados em roteiro gráfico não erotizam, vulgarizam ou diminuem uma história tão séria, sensível e importante para toda a humanidade”, diz.

Em nota, o colégio diz que “caso os alunos do Móbile tenham interesse em ler o diário na forma tradicional, somente com texto, o conteúdo pode ser acessado pela biblioteca virtual”.

“A Móbile salienta que todo o conteúdo textual da edição em quadrinhos consta justamente neste diário original redigido por Anne Frank, inclusive os trechos que suscitaram a referida discussão.”

A escritora e mestre em educação sexual Caroline Arcanjo afirma que trabalhar o conteúdo do livro para crianças de 11 e 12 anos não é um problema, pois a nudez apresentada não é erotizada, mas traz o retrato humanizado de uma garota que está no processo de descoberta do próprio corpo.

O método utilizado pela escola, no entanto, deve ser avaliado, afirma. Caso estivesse trabalhando isso com seus alunos, a escritora explica que ela própria faria a leitura do texto se o tema não fosse explorado com regularidade.

"Se a escola não trabalha questões de sexualidade, não tem esse vínculo com as crianças e essa não é uma temática corriqueira, é claro que isso vai causar constrangimento. E se isso aconteceu, não vai causar um transtorno ou prejudicar o desenvolvimento das crianças, mas mostra como é importante trazer a família para essa discussão de educação sexual."

Arcanjo diz ainda que dar opção de outra versão do livro porque os pais ou alunos se sentiram constrangidos com trechos da obra anterior não é a melhor saída. “Isso acaba legitimando o tabu", avalia. "Não censurou a obra em si, mas deu uma alternativa a uma obra tão humana e que no mundo inteiro foi comemorada."

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