Colégios reconhecem falta de diversidade e racismo estrutural

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O racismo estrutural presente na sociedade brasileira é o argumento citado pelas escolas particulares para justificar seu baixo número de professores negros, que a maioria delas admite estar abaixo do ideal. Mas apenas a Avenues e a Waldorf Rudolf Steiner, entre 20 colégios procurados pela Folha de S.Paulo, disseram já ter adotado ações concretas para mudar essa situação, sem fornecer, no entanto, detalhes sobre essas medidas. O primeiro critério usado pela reportagem para selecionar as 20 escolas que seriam contactadas foi a presença de famílias de alunos no movimento "escola antirracista" em São Paulo. O segundo foi estar no grupo com número maior de estudantes. Foram enviadas a elas perguntas sobre como os dados da raça de alunos e docentes são coletados, a opinião da direção sobre o nível de diversidade de sua escola e as ações adotadas ou planejadas para aumentar a inclusão. Das 20 escolas, 13 concederam entrevista por escrito, mas com uma grande variação no nível de detalhamento das respostas. Móbile, Maple Bear, Vera Cruz, Carlitos e Objetivo, por exemplo, mandaram notas falando, de forma genérica e breve, o que pensam e têm feito sobre o tema. As demais responderam a todas as perguntas. A resposta mais curta foi a do Objetivo que se limitou a informar que "a questão racial dos negros é uma preocupação de nossa escola há décadas. Tanto é assim que o Grupo Unip-Objetivo apóia a Universidade Zumbi dos Palmares, desde que esta foi fundada". A escola tem várias unidades e um máximo de 7% de docentes negros entre elas. O Vera Cruz e a Móbile ressaltaram buscar maior diversidade e mencionaram seus projetos sociais e de bolsas referentes a alunos, mas não ao corpo docente. Não há professores negros entre aqueles cuja raça foi informada no Censo de 2019 nas duas maiores unidades do Vera Cruz. Em uma terceira, há apenas um. No caso da Móbile, a maior unidade da escola possuía 6% de docentes negros, entre o total cuja raça foi declarada. Uma outra unidade não tinha nenhum. Na nota enviada à Folha, a escola disse que os dados estão desatualizados, mas não forneceu os números válidos. Entre outros colégios que argumentaram o mesmo, apenas o São Domingos apresentou estatísticas. Disse ter cerca de 23% de professores negros, acima dos 15,8% registrados em 2019. "Fato é que, mesmo revistos os dados -e isso pode nos colocar em distinção em relação a muitas escolas privadas de nosso porte-, constataremos o óbvio: as escolas particulares têm baixa frequência de população afrodescendente", afirmou o colégio em nota. Bandeirantes, Gracinha Santi, Santa Cruz, Equipe e Avenues mencionaram que vão adotar procedimentos para melhorar a coleta da informação dos dados referentes à raça de alunos e professores. Todas as escolas reconheceram a falta da diversidade como um problema, mas ressaltaram que isso é uma consequência do racismo estrutural. "O Brasil tem uma dívida histórica com a população negra e a escola é responsável por grande parte dela. Muitos de nós não aprendemos sobre a nossa própria história durante a trajetória escolar", diz a pedagoga Clélia Rosa, especialista em educação para as relações étnico raciais pela Unicamp. Algumas escolas enfatizaram que seu projeto pedagógico contribui para o movimento antirracista. "Oferecemos um currículo amplo, profundo e plural, em que a discussão racial é contextualizada histórica e culturalmente", disse a escola Carlitos. Duas escolas afirmaram já ter ações para aumentar a contratação de professores negros. Na Avenues, onde 6 dos 42 docentes -cuja a raça foi declarada- são negros, a direção disse ter estratégias de recrutamento para atrair e contratar mais candidatos negros. Mas não informou quais seriam elas. A escola Waldorf Rudolf Steiner, que tem apenas um docente negro -entre os 47 professores com raça informada- também afirmou já ter iniciado uma mudança no processo seletivo de novos professores. "Os espaços das pessoas pretas estão muito aquém do que seria ideal em um país como o Brasil, onde é a cor predominante. Reconhecemos isso também dentro da nossa escola e iniciamos uma mudança no processo seletivo para nosso quadro", divulgou. A Waldorf ressaltou buscar "equiparação", mas não detalhou as ações específicas. Outras escolas -como Santa Cruz e Santi- também disseram, de forma sucinta, que buscam maior diversidade em seus corpos docentes. No Santi, apenas 2,4% dos professores com raça declarada são negros. No Santa Cruz, não há docentes negros entre os 157 cuja raça foi declarada ao Censo Escolar de 2019. O colégio Bandeirantes, que tem apenas 1 professor negro no censo, informou não escolher seus professores por "cor ou raça", mas pela capacitação profissional e diz ter "os mais rigorosos processos de avaliação" para assegurar seu "padrão de excelência". Procurados, Dante Alighieri, Miguel de Cervantes, Mackenzie, St. Nicholas, Paulo de Tarso, Benjamin Constant e Lourenço Castanho não responderam aos questionamentos.