Colômbia encara sétimo dia de protestos com tímida adesão à greve

Por Hector Velasco
Manifestantes marcham contra o governo do presidente colombiano, Iván Duque, durante greve nacional em Cali, Colômbia, em 27 de novembro de 2019

Os colombianos foram convocados a paralisar as atividades nesta quarta-feira (27), no sétimo dia de um protesto que encheu as ruas de descontentamentos de diferentes tipos, que exigem que o governo de Iván Duque mude de rumo.

Os líderes da mobilização pretendem aumentar a pressão por meio da segunda greve em menos de uma semana contra o governo de direita que foi instalado há 15 meses.

Sob vigilância policial, o transporte público e o comércio foram reduzidos, especialmente no centro da capital. Em Cali e Medellín também houve concentrações.

Em todos os lugares, os manifestantes ergueram faixas contra o governo ao som de panelas enquanto alguns usavam a bandeira como capa ou se vestiam de palhaços para denunciar o que consideram uma piada do Estado.

"Estamos indignados com tantos maus-tratos e tanta corrupção. Eu me visto de palhaço porque é assim que o governo nos vê. Eles já lutaram no Equador, no Chile, na Bolívia, agora é a nossa vez de dizer: não mais! Queremos justiça social, educação, equidade, que o governo olhe para baixo e não para cima", disse David Martinez, funcionário público de 50 anos, à AFP.

Embora tenham sido pacíficos e alegres, os protestos deixam quatro mortos e cerca de 500 feridos entre civis, policiais e militares. Além disso 184 pessoas foram detidas e 60 venezuelanos foram expulsos por "vandalismo", segundo um relatório da polícia.

- Uma democracia de "privilégios" -

Em meio à agitação social que atravessa o continente sem uma causa comum, na Colômbia as ruas se voltaram contra Duque e seu governo impopular.

Quase sete em cada dez colombianos o rejeitam, de acordo com uma pesquisa da Invamer no início deste mês. O presidente não apenas enfrenta o descrédito de suas políticas, como o descontentamento latente há décadas e que foi silenciado pelo conflito com as FARC, grupo guerrilheiro que se tornou partido após a assinatura da paz há três anos.

"Eles transformaram a Colômbia em uma democracia onde favorecem uma minoria de empresários e burocratas, enquanto a grande maioria deve manter esses privilégios", disse o sindicato dos professores, Fecode, um dos mais ativos em mobilização.

Desde quinta-feira passada, uma multidão se mobiliza diariamente no maior desafio popular que um governo enfrenta desde os anos 1970. O presidente Duque lançou um "diálogo social" no domingo para ouvir as demandas das ruas.

No entanto, ele iniciou conversas com políticos e não com os porta-vozes do protesto, o que levou sua iniciativa ao fiasco.

"Este governo está aberto a avançar, mas isso deve ser feito com toda a sociedade", disse Duque em uma entrevista à W Radio, insistindo que muitas das reivindicações são resultantes de uma campanha de desinformação ou de "falsas premissas".

- Múltiplas demandas -

O Comitê Nacional de Greve, que reúne sindicatos, indígenas, estudantes e professores, apresentou uma plataforma de 13 pedidos que incluem desde a retirada de uma reforma tributária em tramitação no Congresso, até o cumprimento do acordo de paz.

Mas talvez o ponto mais polêmico seja o desmantelamento da força policial (Esmad), depois da agressão sofrida no sábado por Dilan Cruz, um estudante de 18 anos que morreu dois dias depois de ter sofrido ferimentos na cabeça causados por um policial com uma escopeta, de acordo com uma investigação preliminar.

O presidente reconheceu que nessas situações "resultados fatais" podem ocorrer, mas defendeu os agentes de choque que, segundo ele, impediram "coisas piores" diante da ação de "vândalos".

Duque já deus os primeiros sinais de flexibilização. Na véspera anunciou ajustes a seu projeto de arrecadação de impostos a fim de dar um alívio à camada 20% mais pobre do país, por meio da desvalorização de 19% do IVA e benefícios às empresas que contratarem jovens entre 18 e 28 anos.

"Esse protesto deve continuar até que nos deem atenção. O presidente não está atendendo o que o povo está pedindo", disse Claudia Tobar, que precisou arranjar um emprego para conseguir pagar seus estudos universitários porque o Estado lhe negou crédito educacional três vezes.

A Colômbia é o país mais desigual entre os 36 sócios da OCDE, tem desemprego de 10,1% e a informalidade do mercado de trabalho castiga quase 50% dos trabalhadores.

Os colombianos também protestam contra a retomada da violência financiada pelo narcotráfico em vários pontos do país, e pelo assassinato de ativistas de direitos humanos e líderes sociais.