Colômbia vive crise institucional após revelação de rede de espionagem do Exército

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A Colômbia vive uma crise institucional desde que, no último sábado (2), a revista Semana revelou que o Exército nacional realiza escutas ilegais para espionar as atividades de ao menos 130 pessoas.

Entre os vigiados estão jornalistas colombianos e estrangeiros baseados no país, políticos e representantes de órgãos que defendem os direitos humanos, além de pessoas vinculadas, de alguma maneira, à ex-guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

O governo de Iván Duque, por meio de seu ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo, logo negou ter conhecimento das ações e disse à imprensa local que investiga os envolvidos no caso. Ao longo da semana, 11 oficiais foram afastados de seus postos.

A rede criada pelos militares espiona seus alvos desde fevereiro de 2019 e produziu relatórios sobre cada um dos monitorados.

Segundo a publicação, esses informes reuniam endereços de casas, locais de trabalho e de lugares frequentados, além de contatos de amigos, familiares e, no caso de jornalistas, de fontes de informação usadas em reportagens.

Durante o período das ações secretas, o chefe do Exército era o general Nicacio Martínez, que acabou afastado do comando da força em dezembro, quando surgiram denúncias de que ele teria voltado a utilizar a estratégia dos chamados "falsos positivos" no combate ao crime organizado.

Essa prática, realizada nos anos 1990 e 2000, consistia em assassinar civis em áreas conflagradas e vestí-los com o uniforme de alguma guerrilha, declarando assim as baixas como mortos em combate.

Até hoje há processos abertos contra suspeitos de terem realizado o crime durante a gestão de Álvaro Uribe (2002-2010), inclusive o próprio ex-presidente.

A revelação provocou reação até mesmo do governo dos EUA, uma vez que há cidadãos americanos na lista de espionados.

Um deles foi o então correspondente do jornal The New York Times no país, Nick Casey, primeiro a revelar o caso dos supostos novos "falsos positivos".

Na terça-feira (5), o senador democrata Patrick Leahy afirmou que "o monitoramento de jornalistas e defensores de direitos humanos será examinado no momento de determinar a assistência militar dos EUA para a Colômbia". "É uma grave violação da confiança dos EUA, e os envolvidos têm de ser punidos."

A Colômbia recebe anualmente ajuda financeira e de inteligência para combater o narcotráfico.

Durante o governo de Juan Manuel Santos, o então presidente americano, Barack Obama, também se comprometeu a enviar mais ajuda para a implementação do acordo de paz com as Farc, aprovado pelo Congresso em 2016.

Já o atual líder dos EUA, Donald Trump, em encontros e conversas telefônicas com Duque, vem condicionando as novas assistências a uma política mais agressiva contra plantações de coca no país, cuja produção dobrou desde que se iniciaram as conversas sobre o pacto de paz, em 2014.

Entre os espionados está também Jorge Mario Eastman, ex-vice-ministro de Defesa de Duque, o que sinaliza que os grampos telefônicos do Exército também miravam ações do poder Executivo, e o diretor para as Américas da ONG Human Rights Watch, o chileno José Miguel Vivanco.

"As denúncias são muito graves. Espionar jornalistas, políticos e organismos de direitos humanos são um atentado contra o Estado de Direito", diz ele.

Outra pessoa monitorada foi a jornalista da rede Caracol María Alejandra Villamizar, cujo dossiê elaborado pelo Exército inclui multas de trânsito e a anotação de que "ela tem acesso às dissidências das Farc".

Já entre os jornalistas estrangeiros investigados estão Juan Forero, que reporta sobre a região para o jornal The Wall Street Journal, e John Otis, da National Public Radio (NPR), ambos veículos americanos.

O New York Times emitiu um comunicado no qual afirma se "preocupar com a notícia de que o Exército colombiano vigiou nosso correspondente no país". "Trata-se de um ato de intimidação à imprensa inconcebível e que precisa vir a público."