'Colegas viajavam para fora nas férias, e eu trabalhava', diz cotista recém-formado na USP

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.05.2022 - Thomas Marcelino Costa, 30, formado na Faculdade de Educação Física e Esportes da USP. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.05.2022 - Thomas Marcelino Costa, 30, formado na Faculdade de Educação Física e Esportes da USP. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Thomas Marcelino Costa, 30, foi fotografado para esta reportagem quando buscava o seu diploma na Eaculdade de Educação Física e Esportes da USP. Parecia "um sonho", ele diz, graduar-se em uma universidade "inalcançável" para a sua realidade.

Filho de empregada doméstica e de carteiro, teve de trabalhar logo que se formou no ensino médio, em 2010. Queria fazer faculdade, mas não podia pagar uma particular e, com a precariedade do ensino das escolas municipais e estaduais que frequentou, considerava impossível passar no vestibular de uma universidade pública.

Começou a vislumbrar a possibilidade de ser aprovado com o início da política de cotas em universidades brasileiras, em 2013, e decidiu conciliar o trabalho com cursinhos pré-vestibulares que lhe ofereciam bolsas.

Em 2017, quando prestou a Fuvest, fazia cursinho à noite e trabalhava em telemarketing de madrugada. "Foi uma estratégia. Nesse horário, há menos ligações e eu estudava entre uma e outra", explica Thomas.

Selecionado na cota para pretos, pardos e indígenas de escolas públicas, ele diz que, dentre os 120 alunos de sua turma, só cinco eram negros. "A maioria não é da minha classe social, e eu não tinha muito como me identificar com as pessoas", diz. "Nas férias, meus colegas viajavam para fora do país e eu aproveitava para trabalhar mais."

Como o curso é integral, foi difícil conciliar os horários com o trabalho. "Há uma visão elitista e um despreparo para a diversidade", diz. "Alunos que trabalham não encontram tolerância com os horários de chegada e saída das aulas, por exemplo."

Existe também a dificuldade em razão do desnível de aprendizado entre os cotistas e aqueles que fizeram educação básica em colégios particulares. "Eu tive que cursar bioquímica sem ter base de química; fisiologia sem saber direito a biologia; e estatística com dificuldade em matemática", conta Thomas, que recorreu a aulas de reforço.

Era preciso "buscar mais voz", e ele foi um dos fundadores do coletivo de alunos negros da faculdade, além de membro do centro acadêmico e do Diretório Central dos Estudantes da USP. Toda essa trajetória passou por sua cabeça quando, na última segunda-feira, seguia pelos corredores da faculdade para buscar o diploma.

Lembrou-se também de que havia aprendido a nadar ali, com colegas, e de como isso o ajudou na superação de medos. Hoje professor de natação, saiu da USP não só com as memórias, mas com a ideia de que logo voltará para uma pós-graduação.

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